30/07/2017

My Foolish Heart

Há anos que gosto da cadeira Egg, do Jacobsen. É uma espécie de amor tranquilo, não correspondido mas também não procurado, ao qual me fui habituando sem ligar muito. Até porque pensar em dar seis mil euros por uma lounge chair esmorece qualquer paixão.

E assim tem sido, até há pouco tempo. Abri o site da Fritz Hansen, como faço tantas vezes, e apareceu esta fotografia da cadeira, em pele, cor de caramelo escuro, a derreter-me nos olhos. E aí qualquer coisa mudou. Estou deslumbrada, mais que isso, não consigo deixar de pensar nela. Eu, que nem gosto de sofás em pele, dou por mim caída aos pés de uma cadeira de pele. Ainda por cima, eu já conhecia esta versão, e sempre me foi indiferente.

O que mudou? E como pode ter mudado? Não sei, talvez prefira nem saber. Mas, como diz a música (ainda que goste mais da sua versão instrumental, nas mãos do Bill Evans), For this time, it isn't fascination / Or a dream that will fade and fall apart / It's love, this time it's love, my foolish heart.

(agora é só respirar fundo, e esperar que a ideia de gastar treze mil euros para consumar este amor arrefeça isto um bocadinho)



fotografia aqui

18/05/2017

Nesting, Anglepoises e Bath


Quando estava grávida do meu primeiro filho, aquela coisa que dá pelo nome de nesting não me fez arrumar os lençóis do berço por cores, nem comprar todos os cueiros, tapa-fraldas, fofos e demais parafernália de puericultura das lojas de Campo de Ourique. Fez-me, infelizmente, procurar com fervor um objeto de design que pudesse oferecer ao bebé. Um móvel, um sofá, só para ele, que tivesse uma história, mas com o qual ele pudesse também crescer e construir as suas histórias, e um dia levá-lo para a sua própria casa. Lembrei-me logo da Womb Chair, do Saarinen, uma das minhas poltronas favoritas. E logo o meu cérebro de grávida achou tão apropriado o nome. Era uma continuidade da barriga da mãe, uma cadeira que nos abraçaria enquanto lhe contaria as primeiras histórias, onde ele depois se poderia refugiar, ler, ouvir música [claro que hoje, já longe da gravidez, acho esquisito a cadeira chamar-se Womb, apesar de continuar a gostar muito dela].

Felizmente, alguém com menos apego a estas coisas, mas com mais bom senso e menos hormonas propensas a este efeito (o pai), chamou-me à razão em tempo. Uma poltrona do Saarinen seria um presente fantástico, mas conviria ponderar que o seu destinatário iria tomar o mundo como uma tela em branco para as suas canetas de feltro (não limitado às folhas A3 que com amor e devoção lhe vou comprando), além de ainda demorar algum tempo (anos) a controlar totalmente os esfíncteres.

Os anos passaram, mas não abandonei a ideia de lhe oferecer um objeto de design. E, do nada, encontrei o objeto ideal. Um Anglepoise! Como é possível não me ter lembrado antes do Anglepoise? Com certeza que um candeeiro que era usado dentro dos bombers da Segunda Grande Guerra, e que, segundo reza a história, funcionou depois de mais de 40 anos submerso no Lago Ness, dentro de um avião, resistirá a uma criança de 4 anos (espera-se). E tem tantas histórias para contar, desde o mecanismo único inventado pelo seu criador, um engenheiro de automóveis (Carwardine), e que passou a ser usado em tantos outros candeeiros, até aos anúncios onde que era publicitado como um óptimo candeeiro para o Blitz (an ideal blackout lamp!), porque permitia focar a luz e não deixá-la passar para fora de casa. Apesar de ter quase 90 anos, o Anglepoise continua em produção, tanto na sua versão original como em versões mais modernas, mais pequenas, maiores, de parede, de tecto, de exterior, de cores variadas. E a fazer sucesso em sítios improváveis, como no logotipo dos estúdios de animação da Pixar.









Mas a parte da história do Anglepoise que para mim é mais especial é o facto de ter sido feito em Bath, coisa que soube porque uma das revistas que vejo – a Cereal – fez uma reportagem lindíssima sobre Bath e Anglepoises. De repente, tudo fez sentido. Um dos meus candeeiros preferidos, feito numa das minhas cidades preferidas (se não mesmo a preferida), que visitei no auge da minha loucura austeniana da pós-adolescência (que não esmoreceu por completo), e onde senti que tudo parecia pensado à minha medida e feitio. Cheguei a Bath de comboio, num Novembro com um frio de rachar, com um nevoeiro que só passava a meio da tarde, mas que cheirava a azevinho dos jardins, a chocolate quente e a buns dos cafés, ao Natal que se aproximava e já decorava as ruas. Uma cidade tão arrumadinha, tão perfeita, mas de pedra tão gasta que parecia suspirar a cada passo. Não passa um Novembro sem que eu me lembre de Bath, e sem que queira lá voltar.






Ficou por isso decidido. É um Anglepoise, no seu design original. Provavelmente azul, mas ainda não tenho a certeza.




Este post é para o X, que um dia vou levar a Bath, e a quem vou explicar de onde veio o candeeiro que em breve terá em cima da secretária. E que – espero – resistirá a tempo de o ajudar a fazer o doutoramento em engenharia espacial (ou em design, se ele quiser).



[imagens retiradas do site da Anglepoise e da Cereal; poster aqui]

13/08/2016

It's hard to sell nothing


A frase do título é de Andrea Cochran, arquitecta paisagista americana, que diz que uma paisagem bem concebida é aquela que parece ter nascido por si. É verdade, mas é ainda mais verdade que o seu trabalho não é nada: está no extremo oposto do nada. Não é preciso sequer ir ao seu cv, ou ver os prémios que ganhou, apesar de impressivos. Basta ver as imagens. Que, a mim, numa espécie de chamamento vocacional fora de prazo, me deixam entre o querer estar naqueles espaços e o querer ter sido eu a imaginá-los.













Fotografias aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


28/07/2016

Marbrisa

Casa Marbrisa, John Lautner (Acapulco, México) 
fotografia de Thomas Loof


Esta fotografia fascina-me. As placas de cimento a servir de vignette à paisagem. As cores, a luz reflectida, o mar. O cimento amaciado pelas curvas e pelo brilho metálico do espelho de água. Não é bonito? O que eu não daria para estar ali.

Mas, mais do que tudo isso, o que me fascina é a abissal distância a que está da realidade. Esta fotografia retrata um pedaço de uma coisa maior, que eu nunca imaginaria se só conhecesse aquela imagem:











Isto é a casa Marbrisa, projectada por John Lautner para Jeronimo Arango em 1970 e construída em 1973 sobre a baía de Acapulco, no México. São 2.300 m2 de construção, numa estrutura gigante e futurista a fazer lembrar a Elrod House.

Foi aquela fotografia, a primeira, que a certa altura me fez vacilar: afinal, do que é que gosto ali? Do edifício fotografado ou da fotografia do edifício? Da arquitectura ou da fotografia? A resposta foi estranhamente imediata. Da fotografia, claro. Só da fotografia. Na verdade, detesto a casa fotografada. Para mim, é estapafúrdia, bruta, exagerada. Um ovni arquitectónico ali engolido pela vegetação tropical, um misto de cogumelo de cimento armado e de fóssil triste a fazer lembrar a construção soviética. Para mim, a única coisa que se aproveita é a vista – porque, lá está, além de ser fantástica, aprecia-se de costas voltadas para a casa.  

Dessa resposta nasceu outra pergunta: como pode aquela fotografia reproduzir e distorcer a realidade, ao mesmo tempo? Como pode aquela fotografia retratar esta casa? Foi aí que se encaixou aquela máxima tão gasta da fotografia. A fotografia mostra aquilo que o fotógrafo vê. Não é uma revelação química de imagens, não é uma fotocópia da realidade. É uma interpretação. It has little to do with the things you see and everything to do with the way you see them, como diz Elliott Erwitt. É certo que qualquer reprodução da realidade é sempre uma interpretação (não é o que o homem faz permanentemente, interpretar, editar?). Mas o poder da fotografia está na aparência de objectividade absoluta que dá. A fotografia engana-nos com um resultado impossível de contestar – a captação de imagens reais, através de um processo mecânico e exacto – e leva-nos a crer que é um fenómeno objectivo. Não é. Nunca poderia ser. You don’t take a photograph, you make it.

Tudo na fotografia é edição: o ângulo, a luz, a perspectiva, o momento. E, em especial, aquilo que se escolhe não fotografar. Muitas vezes o que é mais importante numa fotografia é aquilo que não está lá. O que decide a imagem pode ser o que ela não revela, o seu verdadeiro negativo. Aqui, a impressão que eu guardo daquele momento fotografado em Marbrisa nunca seria a mesma se o fotógrafo tivesse feito menos zoom. É o que ficou de fora que define esta fotografia.

Não deixa de ser estranho que esta sensação me tenha surgido com fotografia de arquitectura. Como pode a fotografia de arquitectura não ser objectiva? Do lado de lá da câmara estão volumes monolíticos, estáticos, adormecidos. E esses volumes não se manifestam, não se exprimem. Mas é precisamente por isso que o fotógrafo tem campo livre para os manipular e para os distorcer e, na mesma medida, para lhes dar vida – ou várias vidas, todas diferentes. Sem filtros, sem Photoshop, só com decisões mecânicas.

Jean Baudrillard dizia que a fotografia matou a realidade. É talvez uma forma de dizer com algum drama que a fotografia interpreta a realidade, acrescenta algo para além dela. Na arquitectura, a fotografia é uma linguagem que tanto pode honrá-la como traí-la. É o que acontece com a casa Marbrisa. Aquela fotografia é uma traição. Leva-nos a crer numa coisa que não existe. A casa Marbrisa não está naquela fotografia, apesar de a fotografia ser da casa Marbrisa.

Tudo isto fez aparecer uma dúvida que não sabia que tinha: de que gosto mais, de arquitectura ou de fotografia? Não sei. Enquanto não descubro, vou ali à amazon comprar uns livros sobre filosofia da fotografia.

[(fotografias aqui]

08/04/2015

Evil under the sun


Já que estamos numa de casas em cima de falésias, vamos falar desta (1 a 4). Está numa falésia menos assustadora que a Casa Branca das Azenhas do Mar, mas tem um passado bem mais escarpado. Ultrapassa até o Evil under the sun, história onde Poirot (que por aqui também já passou) resolve um homicídio num cenário balnear. 


1

2

3

4


A história desta casa enrola-se com homidícios e flirts à beira-mar como o Evil under the sun, mas tem outras características mais apimentadas. Não só mete arquitectura modernista e design (de outra forma o Pufe não estaria tão interessado nela), como também elopements românticos para Itália, aristocratas irlandesas bissexuais, amantes romenos, exibicionistas misóginos, pinturas de teor sexual em murais, viúvas suíças milionárias, freiras de bens confiscados, nazis a praticar tiro ao alvo, ginecologistas viciados em morfina e suspeitos de pedofilia, leilões da Sotheby's e jardineiros sem-abrigo assassinos. Tudo no cenário dos anos 20, na Côte d'Azur, com vista para a baía do Mónaco (5 a 9).


5

6

7

8

9


Com jeitinho, a A. Christie teria feito destes ingredientes mais uma aventura de Hercule Poirot. Mas, como não fez, e enquanto não chega o primeiro bestseller de cruzamento de policial com arquitectura modernista, o Pufe tenta aqui reproduzir em poucas palavras alguns episódios conhecidos daquela história (ou, pelo menos, aquilo que se costuma contar; nunca se saberá se a realidade foi assim tão interessante).

Corria o ano de 1925 quando Eileen Gray (11 e 12) e Jean Badovici (13) decidiram explorar a zona de Saint-Tropez, no sul de França, em busca de um terreno onde pudessem construir um refúgio de Verão. Gray, nascida Kathleen Eileen Moray Smith em 1878, era uma designer irlandesa filha de uma aristocrata, Lady Eveleen Pounden, que havia fugido para Itália com um pintor, James Maclaren Smith, do qual teria 5 filhos (10). Gray era a filha mais nova. E, parece, bissexual. Conhece-se a sua relação com a cantora francesa Marie-Louise Damien (conhecida por Damia), durante os primeiros anos em que morou em Paris (14). Badovici era um arquitecto romeno e editor de uma revista de arquitectura, 14 anos mais novo que Gray. E, parece, bastante apreciador do sexo feminino. Diz-se que Gray e Badovici se tornaram amantes, provavelmente ainda durante os anos em que Gray passou em Paris. Gray foi uma das primeiras mulheres em França a tirar a carta de condução e, durante a primeira grande guerra, suspendeu as suas actividades de designer para conduzir ambulâncias de apoio às tropas francesas.


10

11

12

13

14


Badovici tinha conseguido convencer Gray, já então designer de mobiliário, a experimentar a arquitectura. Naquela busca pelo sul de França que ambos fizeram em 1925, encontraram um terreno numa pequena falésia junto ao mar, em Roquebrune-Cap-Martin, apenas acessível a pé a partir da linha dos caminhos-de-ferro mais próxima (15). Gray comprou o terreno em nome de Badovici e passou três anos (entre 1926 e 1929) a gerir aquela que viria a ser a sua primeira obra de arquitectura, uma casa de Verão, com as visitas e os contributos ocasionais de Badovici (15 a 18).


15

16


17

18


Gray chamou à casa E-1027. O nome parece saído de um catálogo de acessórios de automóveis (como se diz aqui), numa clara alusão ao streamline moderne de que já se falou no Pufe, mas é na verdade um código que simboliza a ligação entre Gray e Badovici (E de Eileen, e os números 10, 2 e 7 a representar a ordem alfabética das letras J, B, e G, respetivamente; no fundo, como se as iniciais de Eileen Gray abraçassem as iniciais de Jean Badovici). 

A E-1027 foi construída em cima das rochas, em forma de L, com uma cobertura plana e com uma superfície relativamente pequena (19 a 21). Gray estudou cuidadosamente a forma como o vento e o sol interferiam no terreno ao longo do dia e ao longo do ano, de modo a construir uma estrutura que aproveitasse ao máximo a relação entre os elementos. 


19

20

21


Os dois pisos estão ligados por uma escada em caracol (22) que termina numa clarabóia em vidro (23), de acesso à cobertura da casa. As paredes exteriores foram todas pintadas de branco, e foi acrescentado apenas um grande toldo para proteger a casa do sol (24 e 25).


22

23

24

25


Por cima do toldo foi pendurada uma bóia de salvação (26). O comprimento da construção, a sua forma, os toldos e a bóia, tudo faz lembrar um grande navio de cimento, encorado na costa (27). Na divisão principal da casa, uma sala ampla com várias funções onde o espaço flui e se comprime à medida das necessidades através do uso de painéis (33), vê-se um mapa náutico pendurado na parede, com a inscrição L'Invitation au Voyage, título de um poema de Baudelaire que acentua a natureza marítima da casa (28). As janelas foram rasgadas de cima a baixo no alçado que deita para o mar, fazendo entrar a paisagem para dentro da casa, como se a sala estivesse afinal dentro de um barco (29). O terraço que atravessa toda a frente da casa parece um deck de um navio de cruzeiro e, quando fechados os toldos, as janelas verticais transformam-se numa janela horizontal, como um salão de num navio transatlântico (30). Não de propósito, uma das peças que Gray desenhou para a E-1027 foi precisamente a Transat, cadeira que faz lembrar as cadeiras típicas que se vêem nos decks dos cruzeiros (30).


26

27

28

29

30


Todas as zonas utilitárias - cozinha e zonas de arrumação - foram separadas do resto da casa, para não perturbar a sua função, e para tornar mais neutros os interiores, sem feminino ou masculino. Nas zonas de passagem, Gray criou espaços de arrumação escondidos, cada um desenhado à medida de objectos específicos que pretendia guardar (31). a distribuição das divisões foi pensada ao último detalhe, fundindo-se com alguns dos móveis da casa. Em alguns casos é difícil separar a arquitectura do design de mobiliário, porque são os próprios elementos estruturais da casa que, extrudidos, servem de recanto para sentar ou guardar coisas (32).


31

32


Não se sabe com rigor que influência teve Badovici na E-1027. Certo é que Gray dedicou três anos à concepção e à construção da casa e, além disso, desenhou o seu próprio mobiliário. Foi para esta casa que Gray fez o cadeirão Bibendum (33, à esquerda), de que aqui já se falou, e uma série de outras peças de mobiliário muito conhecidas, como a mesa E-1027 - inicialmente pensada para que a irmã de Gray pudesse comer o pequeno-almoço na cama sem deixar migalhas nos lençóis (34) -, ou a já referida cadeira Transat (33, à direita).


33

34

A E-2017 chegou a aparecer na revista de Badovici, L'Architecture Vivante, com o nome maison en bord de mer (35 e 36).


35

36


Há quem defenda que Gray terá seguido alguns dos princípios da nova arquitectura definidos por Le Corbusier e Pierre Jeanneret, em 1927 (do conhecido manifesto les cinq points d'une nouvelle architecture), mas que, ao mesmo tempo, lhes terá dado um outro sentido, uma interpretação mais sensitiva. Aliás, a E-1027 partilha com o resto da arquitectura modernista as paredes brancas, os materiais industriais, os volumes geométricos e as janelas enormes, mas, ao mesmo tempo, ultrapassa largamente o funcionalismo que costuma estar associado a essas características, numa espécie de modernismo suave, temperado pelo clima morno do Mediterrâneo. Na verdade, Gray não gostava muito das correntes mais radicais do seu tempo, as quais qualificava de an art of thought and calculation, but lacking in heart. Ao contrário da machine à habiter de Le Corbusier, a E-1027 era um organismo modernista vivo, concebido para respirar e pulsar, pensado para deixar os seus visitantes interagirem com aquele espaço.

Um dos exemplos mais significativos disso é um dos textos gravados na entrada da casa. Antes da porta de entrada, resguardada num recanto, Gray gravou em stencil discreto as palavras Entrez Lentement (37), entre muitas outras mensagens que espalhou pelas paredes para que a casa pudesse falar com os seus ocupantes. Entrez lentement é uma sugestão lânguida, escrita devagar e com as letras bem espaçadas (37), que diz ao visitante para perder tempo a entrar, dando-lhe o sinal de estar numa casa de férias, num navio que parte em viagem, num sítio onde o tempo passa mais devagar. Mas é ao mesmo tempo muito mais do que isso. Para Gray, entering a house should be like the sensation of entering a mouth which will close behing you, o que eleva o acto de entrar naquela casa a um outro nível, mais profundo. Entrez Lentement é uma armadilha, um canto de sereia sussurrado, um chamamento sedutor para passar as pétalas de uma planta carnívora que deglute as suas presas lentamente, encurralando-as no seu interior. Não são os visitantes que entram na casa, é esta que os captura.


37


Uma das vítimas da E-1027 foi, precisamente, Le Corbusier. Na altura amigo de Badovici, Le Corbusier passou várias temporadas na casa, depois de Gray e Badovici se terem separado. Diz-se que Le Corbusier ganhou uma obcessão por aquela casa. Chegou mesmo a escrever a Gray, elogiando o seu trabalho (38).


38


Le Corbusier passou rapidamente de presa a predador. Apesar da admiração que fazia notar pela obra de Gray, resolveu pintar murais de cores garridas em algumas das paredes imaculadas da E-1027, já no final dos anos 30 (39 a 42). Não se sabe exactamente que papel teve Badovici na execução desses murais, mas certamente não se opôs. Aliás, já em 1936 Fernand Léger também havia pintado vários murais coloridos nas paredes de uma outra casa de Badovici, em Vézelay.


39

40

41

42


Le Corbusier fez mais de meia dúzia de murais, dentro e fora da casa, muitos deles de teor inequivocamente sexual. Existem registos fotográficos que mostram Le Corbusier a executar os murais, completamente despido (43).


43


Muitos ficam perturbados com a atitude de Le Corbusier. Rowan Moore, crítico de arquitectura, diz mesmo que esses murais são actos de naked phallocracy, originados pela afronta que Le Corbusier sentiu ao ver que uma mulher, ainda por cima bissexual, tinha conseguido criar aquela obra modernista. Nas palavras de Rowan Moore, Le Corbusier "asserted his dominion, like a urinating dog, over the territory". Beatriz Colomina qualificou os murais como uma declaração de guerra misógina contra Gray. Há também quem defina a execução destes murais como actos de profanação e, inclusivamente, de violação da casa, ou mesmo de Gray, indirectamente. Peter Adam, por exemplo, dizia que “a fellow architect, a man she admired, had without her consent defaced her design”. E violação repetida ao longo de mais de vinte anos, um vez que Le Corbusier regressou várias vezes à E-1027 para alterar e aperfeiçoar os murais, registando em cada uma dessas ocasiões a respectiva data (1939, 1949, 1962), quase como se quisesse deixar uma legenda da sua obra, como os assassinos em série que deixam a sua assinatura escrita em sangue (44).



44


É verdade que, naquela fotografia (43), Le Corbusier parece ter um olhar cínico e provocante. A nudez desconcerta, sobretudo quando se sabe que estava a pintar nas paredes de uma casa onde era apenas convidado. Os artistas são conhecidos por serem previsivelmente extravagantes, e a extravagância de Le Corbusier ressalta nessa e noutras fotografias (45 a 47) que o mostram na E-1027 em poses pouco apropriadas. Mas também é verdade que não se sabe ao certo o que levou Le Corbusier a fazer aqueles murais, nem como explicaria o facto de os ter pintado em propriedade alheia, numa casa projectada por uma pessoa que nunca chegou a ser consultada. Também não se sabe exactamente que grau de vandalismo - como lhe chamou Gray - esteve subjacente à sua atitude, sobretudo se Badovici, o proprietário, a incentivou. E, quanto à nudez, é preciso lembrar que Le Corbusier estava a passar dias de férias, num local de férias, onde não era invulgar vê-lo despido ou de fato de banho (50, 56 e 57). Não deixa de ser uma forma pouco usual de estar, mas não é improvável que para ele fosse trivial.


45

46


47


Numa outra fotografia, Le Corbusier aparece com a sua mulher, Yvonne Gallis, e Badovici (48). A fotografia foi tirada precisamente na entrada da casa, onde Gray havia deixado escrito a frase Entrez lentement (49), e que Le Corbusier enfeitou ao pintar toda essa parede com cores garridas e formas grotescas. Os três retratados olham para a câmara com um olhar desafiador, e daqui também já se tem concluído que o fazem em troça de Gray.


48


49


É fácil fazer uma história à volta de uma fotografia, mas a história verdadeira que ela encerra não corresponde muitas vezes àquela que insinua. Por mais nu, desafiante ou provocador que Le Corbusier tivesse sido fotografado, ou por mais ilegítima que fosse a sua intervenção na casa por falta de autorização da sua autora, esta será sempre uma história pouco rigorosa. Há em qualquer caso algo impossível de contestar: com os murais berrantes de Le Corbusier, o grande e branco transatlântico arquitectónico de Gray ficou desfigurado. Independentemente da qualidade artística dos murais, estes mutilaram a natureza marítima da E-1027, tornaram-na numa construção confusa e incoerente, onde convivem personagens coloridas estranhas com bóias e móveis náuticos.

Mas, deve dizer-se, Le Corbusier não deixou de ser uma vítima daquele lugar, ou não tivesse sido nas águas de Saint-Tropez que, em 1938 (e, diz-se, enquanto estava hospedado na E-1027), fora apanhado pelas hélices de um motor de um iate, que lhe rasgaram uma perna e lhe fizeram a cicatriz terrível que se vê na imagem 43.

E, em especial, Le Corbusier foi vítima daquela casa. Ainda que a E-1027 tenha passado por várias peripécias depois das estadias de Le Corbusier - foi usada pelos nazis para praticar tiro ao alvo, durante a guerra; foi depois parar às mãos da irmã freira de Badovici, depois da morte deste e, seguidamente, ao património do Estado romeno, que lhe confiscou os bens -, ele tentou sempre estar por perto, como uma traça que rodopia à volta da luz que a vai matar.

Le Corbusier nunca conseguiu possuir a E-1027 - imobiliariamente falando -, mas também nunca conseguiu deixá-la. Apesar de não conseguir comprá-la, convenceu uma viúva suíça milionária, Madame Marie-Louise Schelbert, a fazê-lo. Schelbert viria a dar carta branca a Le Corbusier para trabalhar nos murais. Não contente com isso, conseguiu ainda que Thomas Rebutato, proprietário de um restaurante meio rústico construído um pouco acima da E-1027 (o L'Étoile de Mer - 50 e 51), lhe cedesse um terreno acima da E-1027, bem ao lado do restaurante, onde veio a fazer uma construção muito modesta por fora e muito acanhada por dentro a que chamou Le Cabanon de Vacances, e onde também passou várias temporadas (52 a 61). 


50

51

52

53

54

55

56

57

58

59

60

61



No terreno do Cabanon Le Corbusier fez ainda uma outra construção, pintada de cores primárias, com quartos minúsculos para arrendar a turistas de pé descalço - as unités de camping (62 a 66). A obra ficou por conta de Le Corbusier, em pagamento a Thomas Rebutato pela compra da parcela de terreno onde tinha construído o seu Cabanon. Tudo, claro, em grande contraste com o modernismo elegante, branco e esguio da E-1027. As construções encavalitam-se na colina, debruçadas sobre a cobertura da E-1027, como se a quisessem dominar e espiar (65 e 66).


62


63


64

65


66


Foi perto da E-1027, nas águas da Côte d'Azur, onde gostava de nadar, que Le Corbusier viria a morrer, em 1965 (67 e 68). Não se sabe exactamente como morreu. Provavelmente ter-se-á afogado ou terá tido um ataque cardíaco. O seu corpo deu à costa perto da Plage du Buse, em Roquebrune-Cap-Martin. Foi enterrado num cemitério próximo com vista para o mar, junto à sua mulher Yvonne, numa campa de cimento com dizeres tão coloridos quanto os seus murais (69).


67

68


69



Toda aquela área veio a ser designada, depois da sua morte, como Site Moderne, área de importância histórica e cultural. O caminho que servia a casa foi designado Promenade Le Corbusier (70). Gray tinha mergulhado no esquecimento, a tal ponto que se chegou a atribuir a Le Corbusier a autoria da própria E-1027.


70



Le Corbusier morreu ali, nos anos 60. Badovici tinha morrido na década anterior. E Gray? Gray fez mais uma ou duas casas na região, depois da E-1027, e regressou a Paris, onde veio a morrer em 1976, com 98 anos (71 a 73). Ainda que se diga que Gray não voltou à E-1027, há pelo menos um registo que parece desmentir essa afirmação: uma fotografia, supostamente propriedade da mairie de Roquebrune-Cap-Martin, da sala de estar da E-1027, em que uma senhora muito parecida com Gray aparece sentada ao lado de outras pessoas (74). Diz-se que até morrer continuou furiosa com a intervenção de Le Corbusier na E-1027. Trabalhou até ao último dia. Na manhã do dia da sua morte tinha pedido à criada para comprar materiais que iria utilizar numa nova peça de mobiliário em que estava a trabalhar. Só três pessoas estiveram no seu funeral no Père Lachaise. Meses depois, a sua campa foi destruída por engano e os seus restos mortais foram misturados numa vala comum. Só mais tarde o seu mérito viria a ser reconhecido, ainda que grande parte da sua vida permaneça um mistério.


71

72

73

74


E a casa, perguntarão os leitores? Quando Schelbert, a viúva suíça, morreu, em 1982, a casa passou para o seu médico ginecologista, Peter Kaegi. Há quem suspeite que o médico terá tido algum envolvimento na sua morte, mas isso são outras histórias. Kaegi esventrou a casa de todo o seu mobiliário original e vendeu-o através da Sotheby's no Mónaco, em 1991, por cerca de € 390.000,00. Provavelmente, diz-se, para pagar dívidas, já que o médico seria viciado em morfina e jogador compulsivo, além de suspeito de pedofilia.  
Kaegi não manteve a E-1027 em condições. Foi-se degradando aos poucos. Kaegi viria a pôr a casa à venda em 1994, mas foi assassinado antes de conseguir fazer negócio. Foi esfaqueado no interior da E-1027 por uns sem-abrigo que havia contratado para fazerem jardinagem, e a quem, conta-se, não terá pago favores sexuais.

Em 1997, a casa, deixada ao abandono, já estava completamente vandalizada (75 a 81).



75

76

77

78

79

80

81


Em 1999, o governo francês e a cidade de Roquebrune-Cap-Martin decidiram tomar medidas. A casa foi classificada como monumento nacional, foi comprada por uma entidade pública local e foi planeada a sua recuperação. Ainda assim, a E-1027 continuou envolvida em problemas. Em 2013 as obras ainda não tinham terminado e já apresentavam vários defeitos, como materiais pouco fiéis aos originais e pouco cuidado na recuperação de vários elementos. Desde interruptores eléctricos originais deitados ao lixo e substituídos por interruptores modernos, à destruição da escada em caracol e à instalação de uma nova escada com vidros diferentes dos originais, a E-1027 viu dias difíceis e perdeu parte do seu charme original. Não se sabe exactamente em que condições, mas a E-1027 vai abrir ao público novamente em 2015, dentro de meses, depois de uma pontual visita em Setembro de 2014 nas Jornadas Europeias de Arquitectura. As visitas serão escrupulosamente vigiadas e sujeitas a marcação prévia, aqui, quase como uma tentativa de proteger a casa de cair novamente em desgraça.

Os murais pintados por Le Corbusier, esses, sobreviveram a tudo. Ainda lá estão. E foram restaurados, provavelmente com Gray às voltas no túmulo (82 e 83).


82

83


Diz-se que o único mural que Le Corbusier pintou a preto na E-1027, com uma imensa linha que se enrola para revelar várias formas humanas fundidas entre si (84), representa dois amantes, ou a relação de amor e ódio entre Gray e Badovici. Outros vêem nele a figura de duas mulheres com uma criança. Outros ainda, Gray, Badovici e o filho de ambos que nunca existiu. Se Le Corbusier queria mesmo deixar uma dessas mensagens, nunca se vai saber. Mas uma coisa é certa: Gray e Badovici tiveram realmente um filho, amaldiçoado. Aquela casa-navio (85) que, em vez de paraíso en bord de mer, pérola modernista suave, se revelou arquitectura mortífera, fonte de discórdia, intriga e infelicidade para aqueles que com ela já se cruzaram.


84


85


Info e fotografias em:
http://www.capmoderne.com/l-auteur-etoile-de-mer.html
http://historyshorts.com/2014/07/08/corb-by-the-sea/
http://socks-studio.com/2014/01/30/inhabiting-the-mediterranean-landscape-le-corbusiers-cabanon-in-roquebrune-1952/
ttp://www.wsj.com/news/articles/SB10001424127887324747104579023010734741406
http://en.wikipedia.org/wiki/E-1027
http://theartsblog.ie/eileen-gray-imma/
http://en.wikipedia.org/wiki/Cabanon_de_vacances
http://www.dezeen.com/2013/09/10/eileen-gray-movie-to-tackle-le-corbusier-murals-controversy/
http://archiseek.com/2002/eileen-gray-e-1027-roquebrune-cap-martin/
http://ounodesign.com/2008/12/24/eileen-gray-e1027-house/
http://theartoftheroom.com/2014/02/villa-e-1027-redux/
http://www.domusweb.it/en/design/2013/03/14/eileen-gray-at-the-centre-pompidou.html
http://www.lifestyleetc.co.uk/2013/08/27/life-style-etc-loves-eileen-gray/
http://misfitsarchitecture.com/tag/e1027/
https://restance.wordpress.com/page/4/
http://curbed.com/archives/2015/03/16/le-corbusiers-grave-in-france.php
http://www.frenchriviera-tourism.com/riviera/le-corbusier-private-life-crtarticle_79.html
http://sydney.edu.au/architecture/documents/staff/danielryan_sahanz010_fromeclecticismtodoubt_100630_spoken.pdf
http://www.thesymmetricswan.com/2011/04/eileen-gray-modernist.html
http://eod.houseplans.com/2013/02/01/sliding-glass-doors-and-other-openings/
http://www.nytimes.com/2013/08/26/arts/design/The-Tortured-History-of-Eileen-Grays-Modern-Gem.html?_r=0
http://www.perryogden.com/blog/?start=156
http://modernistsummer.com/2010/09/27/e-1027/
http://modernarium.com/new-blog/2014/5/8/villa-e127
http://www.gordonwatkinson.com/exhibitions/e1027
http://womensmuseumofireland.ie/articles/eileen-gray
http://journal.slowandsteadywinstherace.com/tag/eileen-gray/
http://www.gordonwatkinson.com/exhibitions/e1027
https://atelierloie.wordpress.com/2012/10/17/eclipsing-le-corbusier-eileen-gray-and-e1027/
https://lecorbusierinpar.wordpress.com/
http://www.nicholasfoxweber.com/albums/le-corbusier-powerpoint/
http://www.aestate.be/journal/2014/9/10/house-of-the-week-37-e-1027
http://www.theguardian.com/artanddesign/gallery/2013/jun/30/e1027-eileen-gray-architecture-france
http://flickrhivemind.net/Tags/e1027/Recent
http://filmstarpostcards.blogspot.pt/2012/05/damia.html
http://amanecemetropolis.net/wp-content/uploads/2013/11/Marisa-Damia.jpg
http://thecharnelhouse.org/2012/07/02/le-corbusier-painting-in-the-nude-at-eileen-grays-villa-e-1027-plus-the-story-behind-his-nasty-leg-scar/
http://www.azuremagazine.com/article/six-crowdfunded-projects-were-watching/
http://www.sandrageringinc.com/artists/eileen-gray-friends-of-e1027/
https://books.google.pt/books?id=p7EW9Cv1sfoC&pg=PA135&lpg=PA135&dq=V%C3%A9zelay+badovici+l%C3%A9ger&source=bl&ots=hgXB9pKwCP&sig=UZH4G1rkun5YVqPRKs2q_lKhuQQ&hl=en&sa=X&ei=aW4VVYGgOIHEUtSjhIgD&ved=0CB8Q6AEwAA#v=onepage&q=V%C3%A9zelay%20badovici%20l%C3%A9ger&f=false
http://alastairgordonwalltowall.com/tag/holland-park/
http://www.domusweb.it/en/art/2010/12/10/conversation-with-kasper-akh-j.html
http://www.domusweb.it/en/art/2010/12/10/conversation-with-kasper-akh-j.html
http://socks-studio.com/2014/01/30/inhabiting-the-mediterranean-landscape-le-corbusiers-cabanon-in-roquebrune-1952/
http://www.agentofstyle.com/2014/02/10/the-price-of-desire-featuring-eileen-gray-le-corbusier-villa-e-1027/
http://www.irishtimes.com/life-and-style/people/eileen-gray-thoroughly-modern-maker-1.2015801
http://www.paca.culture.gouv.fr/banqueImages/imago/resultat.php?COM=&DENO=&DPT=&MODE=simple&NB=&SERV=crmh&TICO=villa+Badovici&termes=&page=1&formatSortie=imprimante&modeAffichage=cartex
https://www.flickr.com/search/?q=e1027&w=all&s=int
https://www.smow.com/blog/category/design-calendar/
http://ounodesign.com/2008/12/24/eileen-gray-e1027-house/
http://www.tripadvisor.fr/LocationPhotoDirectLink-g187236-d521060-i70307615-Promenade_Le_Corbusier-Roquebrune_Cap_Martin_French_Riviera_Cote_d_Azur_Pr.html
http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=1729855
http://jaumeprat.com/212-metres/
http://www.capmoderne.com/l-auteur-etoile-de-mer.html
http://www.elexperimentoludovico.com/2009/04/cabanon-2-la-de-verdad.html
http://petitcabannon.blogspot.pt/2012/12/location.html
http://arquiscopio.com/archivo/2013/09/03/petit-cabanon/
http://collectionsblog.aaschool.ac.uk/aa-library-eileen-gray-2-2-2/
http://www.franceinfo.fr/emission/noeud-emission-temporaire-pour-le-nid-source-459/2012-2013/deco-la-rencontre-d-eileen-gray-04-21-2013-11-50
http://www.studionicolin.com/event/entrez-lentement-2/
http://jeandesert.tumblr.com/
http://www.fondationlecorbusier.fr/
http://www.thefreelibrary.com/In+search+of+Eileen+Gray%3a+towards+the+end+of+her+life+the+designer...-a0208056322
http://theartoftheroom.com/2014/02/villa-e-1027-redux/
http://cujah.org/past-volumes/volume-x/life-is-but-a-dream-revisiting-the-maritime-character-of-eileen-grays-e1027essay-5-volume-1/
http://www.archdaily.com/tag/gustafson-guthrie-nichol/
http://arch100-e1027.blogspot.pt/2012/12/morphology-ii-ocean-liner.html