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Perguntará quem passar pelo Pufe, e tiver lido o primeiro post deste blogue, como pode a revista Playboy ter alguma coisa que ver com os temas de que aqui se fala.
Não teria nada que ver, é verdade, não fosse este número da Playboy (1), de Julho de 1961, incluir um artigo sobre o design de mobiliário da época (2 e 3).
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O artigo - intitulado Designs for Living - não é nada de extraordinário, apesar de ter alguma graça e, em especial, de ter conteúdos de nível bastante superior aos que normalmente são associados a uma revista que se dedica, enfim, à exposição gráfica das formas femininas.
Extraordinária é, no entanto, a fotografia que capeia esse artigo (7 e 8), e da qual falarei adiante.
Antes disso, não resisti a tentar perceber o que pode estar na base na insólita ligação entre a indústria da pornografia e o design e a arquitectura. Hoje, e, bem assim, há 52 anos, quando este número foi publicado, não é uma relação evidente.
Parece que a finalidade deste tipo de artigos (a Playboy publicou uma série de artigos sobre design e arquitectura entre 1953 e 1979) era educar o gosto dos homens ditos
Playboys (entendidos como homens que se dedicam a uma vida de prazeres e de luxos, sem compromissos ou responsabilidades), dando-lhes ferramentas para aproveitar as últimas tendências no design e na arquitectura. O objectivo era, claro, atrair as mulheres. No fundo, moldava-se uma nova forma de estar do homem americano, que, mais moderno e mais sofisticado, e sempre a par das novas tecnologias e das mais recentes novidades, se afastava progressivamente do tradicional
gentleman e do homem clássico.
Como se refere
aqui, a arquitectura (e, acrescento eu, o design) foi a certa altura mobilizada para contribuir para a formação de uma nova identidade sexual e de um novo perfil de consumidor do homem americano, razão pela qual a Playboy, durante três décadas, parelhou mulheres semi-nuas com alguns dos mais influentes arquitectos e designers da época.
Nem todos os conteúdos reflectiam um gosto muito refinado. Basta ver a casa insuflada (4), ou a banheira de duches exóticos da Kohler, ousadamente retratada em plena utilização (5).
Mas muitos artigos (como um sobre Frank Lloyd Wright - 6 - ou outro sobre Mies van der Rohe) eram dignos de uma qualquer
Time,
Life ou
The New Yorker, aumentando a perplexidade de quem não imaginava poder encontrá-los nas páginas de revistas do género da Playboy. O assunto foi inclusivamente tratado a um nível académico, tendo daí resultado uma exposição sobre o tema, em colaboração com a Universidade de Princeton (
Playboy Architecture, 1953-1979,
NAiM/Bureau Europa, 29 de Setembro de 2012 a 9 de Fevereiro de 2013).
Não estou suficientemente informada para discutir se a revolução sexual é efectivamente inseparável da revolução na arquitectura, como revelou a investigadora
Beatriz Colomina (Professora na Escola de Arquitectura da Universidade de Princeton e responsável por aquela exposição), ou se a arquitectura se tornou fundamental para a arte da sedução (como se referiu
aqui). Ainda assim, e apesar de essas conclusões me causarem alguma estranheza, é indiscutível que a Playboy assumiu uma função educadora do gosto masculino no que respeita o design e a arquitectura dos meados do séc. XX.
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Adiante.
Como referi acima, o melhor do artigo que saiu na Playboy de Julho de 1961 é, para mim, a imagem que o capeia (7 e 8), e que provavelmente é a única razão que me poderia levar a comprar esta revista um dia (este número, claro). Com uma composição limpa, despojada e invulgar para a época, ao estilo de fotografia de grupo dos nomeados para os Óscares da Vanity Fair, esta fotografia captou um momento singular na história do design: a reunião de seis dos mais importantes designers daquele tempo, que ainda hoje vivem através dos móveis e das peças que criaram.
São eles, da esquerda para a direita, George Nelson, Edward Wormley, Eero Saarinen, Harry Bertoia, Charles Eames e Jens Risom (7 e 8).
Muito haveria para discutir à volta desta fotografia e dos designers retratados. O que os une, o que os separa, o que fizeram, que impacto tiveram (e ainda têm) as suas criações no movimento moderno e nos padrões de consumo. Um dia gostaria de falar sobre cada um deles, e, autonomamente, sobre o movimento em que se incluem, tanto na arquitectura como no design.
Mas, havendo muito para falar, vou reduzir-me à própria fotografia, e ao que me parece mais importante.
Como se disse
aqui, não é coincidência que a fotografia tenha sido tirada com os designers sentados/apoiados nas cadeiras que eles próprios criaram (não consegui saber por que razão George Nelson resolveu sentar-se em cima de um carrinho de chá, quando, à data da fotografia, já era comercializado um
banco seu que hoje em dia é uma peça clássica de design). A cadeira é, realmente, uma das peças mais queridas entre os designers que encontram o seu estilo na articulação entre forma e função.
Nem é coincidência que três deles tenham sido arquitectos (George Nelson, Eero Saarinen e Charles Eames), de obra consagrada (pelo menos Saarinen). Afinal, como dizia
Charles Eames quando questionado por que razão desenhava cadeiras, a cadeira é uma peça de arquitectura que se pode agarrar com as próprias mãos. E, sobretudo nesta época, design e arquitectura andaram sempre de mãos dadas, assim entrando pelo movimento moderno, no qual a
cadeira representava uma forma de materializar "arquitectonicamente" uma estrutura de pequena dimensão. O design pode ser arquitectura, a uma escala diferente.
Acerca da fotografia propriamente dita, não consegui descobrir muito. Há registo de mais uma fotografia, com uma composição mais descontraída, tirada no mesmo dia (9). Aparentemente, as fotografias foram tiradas por Marvin Koner e Daniel Rubin, mas não sei onde foram tiradas, nem de que terão falado os seis designers. Nem sei sequer se alguém algum dia soube, a não ser os próprios.
A propósito desta fotografia, Jens Risom (o único que ainda é vivo) escreveu um
artigo, onde, salientando que não se conheciam uns aos outros (pelo menos todos), assumiu ter pena de na altura não ter havido oportunidade para irem tomar um copo e trocar impressões. A fotografia acabou por retratar um encontro de designers que, na prática, nunca ocorreu. E, infelizmente, não voltaram a reunir-se.

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Fontes: pics
1, 2, 3,
4, 5, 6,
7,
8 e
9.
Para ler o artigo completo da Playboy (
Designs for Living) é
aqui (as pics 2 e 3 acima não contêm o texto integral).