24/05/2013

Mini


O design de móveis para crianças pende normalmente para a infantilização. Dependendo da tese pedagógica predominante, as cadeiras, mesas e afins vêm em cores garridas porque faz bem estimular as crianças (1), ou, pelo contrário, em cores pastel, porque, afinal, muita estimulação faz mal (2). As formas são, em regra, grosseiras e sem arestas, roçando o desenho animado (1, 2, 3). E, em casos extremos, parecem a materialização infeliz de um pesadelo saído do Maravilhoso Feiticeiro de Oz (4).


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Mas também há a tendência oposta - fazer do mundo das crianças um mundo dos adultos em ponto pequeno. Ainda que menos sisudo. É aí que aparecem, por exemplo, as paredes pintadas com cores escuras, os móveis pretos ou cinzentos, ou os posters artísticos sofisticados.
É também aí que aparecem os móveis de design em miniatura.

É costume dizer-se que tudo o que é pequeno tem graça. Não diria tudo, mas é verdade para muita coisa. Inclusive para móveis que reproduzem peças de design em tamanhos infantis. Há para todos os gostos: cadeiras Eames (5 a 8), Bertoia (9 e 10), Risom (11), Jacobsen (12), Mies van der Rohe (13),  Saarinen (14), entre muitas outras. Uma espécie de Portugal dos Pequenitos aplicado ao design.





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Não tenho uma opinião muito certa sobre isto. É giro, está bem de ver. E é verdade que as crianças devem utilizar móveis adequados à sua escala, para garantir a sua segurança e o seu correcto crescimento. Mas encolher móveis especificamente desenhados para adultos não será mais uma forma de encurtar a infância das crianças, puxando-as precocemente para o mundo das pessoas crescidas - ainda que, apesar de tudo, inofensiva? Além disso, não fica ligeiramente ridículo um móvel de adulto reduzido ao tamanho de uma criança, como se fosse um brinquedo? Quando ainda por cima quem lhes achará verdadeira graça será apenas o conjunto de adultos que conhece esses objectos de design? Faria sentido, aos olhos de quem criou originalmente estas peças, reduzi-las para tamanhos infantis, ou não prefeririam estes designers que as crianças usassem móveis feitos a pensar nas suas proporções, nos seus interesses, capacidades, necessidades de desenvolvimento, como alguns fizeram (1, 2, 3 e 15)? Ou não será, mesmo, mais um sintoma de uma cultura que se centra nas crianças, tornando-as egocêntricas, inseguras, pouco resilientes, pouco esforçadas, pouco capazes de superar problemas, de construir soluções? Uma cultura que lhes molda um assento de design à sua medida, e que não permite que sejam elas a encontrar e a fazer o seu lugar?
O ar entediado e ligeiramente amuado da criança sentada na Womb Chair (14) não dirá tudo? Ou o comentário do fabricante da cadeira Risom em versão miniatura (11), quando diz que estes pequenos móveis são ideais para as crianças brincarem aos chás "mini-modernistas" (!)?

Estes mini-móveis têm graça, mas ter graça não chega. Aliás, um pormenor que não tem graça nenhuma é o preço. Talvez por não ser pequeno, ao contrário das cadeiras. É preciso ter muito amor ao design (que por amor às crianças não é de certeza) para gastar mais de dois mil euros numa Womb chair tamanho XXS que só serve até aos 6 anos e que, até lá, sofrerá as mais cruéis sevícias infantis e será múltiplas vezes coberta de baba/papa/vomitado/chocolate/substâncias não identificadas. Ou, na melhor das hipóteses, recolorida com lápis de cera e canetas de feltro. Porque não há espírito mais crítico do design  - e, ao mesmo tempo, menos respeitador - do que o as crianças.

Entretanto, alguém me avise por favor se, nos últimos tempos, o jogo das escondidas ou o jogo da apanhada foram substituídos por chás "mini-modernistas". Só para ficar informada.




Fontes das imagens: assinaladas em cada uma das fotografias.

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