14/05/2013

Weniger, aber besser


Quem compra uma estante tem normalmente uma motivação funcional, ou não fosse a estante o mais funcional dos móveis de arrumação. É uma peça de segundo plano, que tem como única razão para justificar a sua existência o facto de servir de suporte ou expositor a outros objectos.

Se o motivo para a sua compra é um, já os critérios que ditam a escolha de uma estante podem ser vários: ou o objectivo é arrumar coisas (hipótese mais comum), ou é dar destaque ao que lá se põe (hipótese um pouco menos comum) ou, ainda, selecciona-se o que lá se põe para fazer sobressair a estante (hipótese que se verifica tipicamente em casos agudos de designodependência, e que muitas vezes confirma o diagnóstico). Não é impossível alguém guiar-se pelos três, e então a escolha torna-se mais difícil.

Mas há muitas opções para os designodependentes que partilham triviais preocupações de arrumação com os restantes mortais. Uma delas chama-se String, foi desenhada por Nils Strinning em 1949 e é fabricada pela String Furniture AB (ver pics 1 e 2). Outra chama-se 606 Universal Shelving System, foi desenhada por Dieter Rams em 1960 e é fabricada pela Vitsoe (ver pics 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10). É desta última que queria falar aqui. Por nenhuma razão em especial, apenas porque, apesar de gostar das duas, esta me diz mais alguma coisa do que a primeira.

À primeira vista, o sistema de estantes 606 da Vitsoe, na sua versão standard, faz lembrar as estantes corridas de uma qualquer biblioteca (aliás, muitas bibliotecas usam este sistema de estantes - ver pic 9): prateleiras de metal de cor ligeiramente indefinida, a puxar para a cor de rato, unidas entre si por uma estrutura em alumínio que parece mais apropriada para uma loja de ferragens. Também à primeira vista, é coisa cinzenta, fria, insonsa, desinteressante (3). O próprio nome não é fascinante - 606 -, derivando da junção do ano de criação do produto (60) com a numeração do fabricante (foi o 6.º produto da Vitsoe).

Mas isso é apenas à primeira vista.

A verdade é que - pelo menos para mim - as estantes 606 da Vitsoe são bonitas (e há outras cores, para quem não goste do metal cor de rato). Além disso, estranhamente, são versáteis. Estranhamente porque não é nada óbvio que uma estante de metal consiga enquadrar-se de forma tão harmoniosa numa biblioteca utilitária (4), numa sala de estar decorada com tons quentes em madeira (5), num escritório (6) ou num quarto infantil colorido (7). Até numa cozinha (8). Sempre sem perder o seu propósito, e sempre sem deixar de se integrar com o resto dos móveis, independentemente do seu estilo.

Rams desenhou este sistema de estantes em 1960, altura em que também ia alinhando o que veio a chamar mais tarde de dez princípios orientadores do "bom design", que muito contribuíram para que viesse a ser considerado um dos designers mais influentes do séc. XX.

Segundo Rams, o "bom design" é 1) inovador, 2) torna um produto útil, 3) estético, 4) auto-explicativo, 5) não obstrutivo, 6) honesto, 7) intemporal, 8) pensado ao detalhe, 9) amigo do ambiente e, por fim, 10) o mínimo de design possível.

É certo que a estante 606 passa com distinção e louvor em todos esses critérios, no que se refere ao seu design. Por exemplo, não há como negar que o design da estante a torna útil (sobretudo porque despreza todos os elementos que poderiam prejudicar a sua utilidade) e que não é obstrutivo (o seu design é neutro, dá espaço ao utilizador para a integrar no ambiente que quiser). Ou que o seu design é honesto (não faz com que a estante pareça mais do que é) e intemporal (como o seu design não seguiu nenhuma moda específica, nunca ficará fora de moda).

Mas é especialmente em relação ao último critério que a estante 606 se destaca. Na verdade, o design da estante 606 da Vitsoe reduz-se ao estritamente essencial para cumprir a função do objecto. Não há adornos, enfeites, elementos decorativos, distracção visual. Só aquilo que importa. Weniger, aber besser (ou, em português, menos, mas melhor), de volta à pureza e à simplicidade, nas palavras de Rams.

E, neste caso, reduzir a estante àquilo que importa é o que lhe dá uma beleza difícil de explicar num objecto funcional que é feito de placas de metal e de ferragens em alumínio. Curiosamente, a ideia que está na base da sua criação - reduzir o design do objecto ao mínimo possível - acaba por lhe dar um protagonismo improvável: as estantes 606 da Vitsoe fundem-se com os objectos que suportam mas, ao mesmo tempo, adquirem uma autonomia visual própria. Como se a função passasse a ser, também, visualmente atraente.
Com ou sem objectos, a estante deixa de ser um mero suporte, um móvel secundário, para se tornar no elemento principal.



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