Eu prometo que o meu próximo post não será sobre cadeiras. E prometo que não volto a fazer outro post com 27 imagens e mais de 1500 palavras.
Não é que eu queira abusar da paciência de quem por aqui passa, mas a cadeira de que vou falar é realmente especial. Atravessou, até agora, três séculos diferentes. Suportou mil e uma mudanças de paradigma no design e no mobiliário. Sobreviveu ao Arts and Crafts, ao minimalismo, ao funcionalismo. E sentou milhões e milhões de pessoas. Sem exagero.
É esta (1). Chama-se, apenas, cadeira n.º 14. Mas é a cadeira mais famosa do mundo.
É esta (1). Chama-se, apenas, cadeira n.º 14. Mas é a cadeira mais famosa do mundo.
Podem alguns leitores não saber o nome dela ou não conhecer o seu fabricante, mas de certeza que a conhecem de vista. É utilizada pelo mundo fora, sobretudo em cafés, restaurantes e espaços públicos - na maior parte dos casos, em versões imitadas. Tanto podemos encontrá-la num café numa aldeia perdida algures em Portugal (mais provavelmente numa variante baratucha em metal forrado a plástico branco, a condizer com a arca frigorífica da Olá), como, numa interpretação mais arejada, pintada em cores garridas para um restaurante da moda no Chiado, ou mesmo, na sua versão original, em madeira maciça e com um ar distinto, numa qualquer Kaffeehaus chique de Viena.
É, de certa forma, uma cadeira invisível, não fossem os nossos olhos estarem já tão habituados ao seu desenho e à sua presença. E é verdade que, para o comum dos mortais, parece uma cadeira perfeitamente ordinária. Mas não é.
É, de certa forma, uma cadeira invisível, não fossem os nossos olhos estarem já tão habituados ao seu desenho e à sua presença. E é verdade que, para o comum dos mortais, parece uma cadeira perfeitamente ordinária. Mas não é.
De nome singelo, significando provavelmente que é a décima quarta filha da família Thonet, grande empresa germano-austríaca de mobiliário do séc. XIX, a cadeira n.º 14 foi criada em 1859 por Michael Thonet (retratado com os seus cinco filhos, que herdaram o negócio Thonet - 2; logo abaixo, estão os actuais cinco herdeiros do negócio - 3). Tem, por isso, mais de 150 anos (!). Aqui está ela, mais variação, menos variação, a acompanhar a História e as histórias de muitas famílias (4 a 10).
Foi modernizada e reinventada sucessivas vezes (mesmo nas fotografias antigas notam-se algumas alterações), sem perder o seu espírito e o seu carácter (11 a 18). Até a Muji reinterpretou a cadeira n.º 14 (17). Numa versão muito aproximada ao que era no séc. XIX, muito embora mais arejada, a cadeira ainda está hoje em produção por várias empresas Thonet sucessoras da original. E a técnica usada para o seu fabrico ainda é a mesma de há cem anos.
Aliás, a técnica de fabrico da cadeira n.º 14 é um dos factores que a distingue das suas contemporâneas. É uma técnica curiosa e, na altura, foi revolucionária, como acontece frequentemente com os grandes clássicos do design.
A cadeira n.º 14 resultou da aplicação de um método de dobragem da madeira com vapor (chamado bentwood), aperfeiçoado por Michael Thonet depois de várias tentativas fracassadas. E digo aperfeiçoado porque a técnica de dobrar madeira com vapor não era desconhecida (já era usada pelos índios americanos, ainda que para outros fins), mas nunca havia sido pensada para a produção de mobiliário (pelo menos desta forma). Em concreto, o método usado por Thonet consiste no amolecimento de madeira de faia através do vapor, durante cinco horas. Depois disso, há apenas três minutos para moldar a madeira, antes que esta comece a quebrar.
O resultado é uma peça de madeira maciça moldada de acordo com a vontade do Homem. Abriu-se, com Thonet, um mundo infinito de possibilidades no mobiliário, cuja produção deixou de depender de técnicas mais básicas - como esculpir e entalhar peças sólidas de madeira - para se chegar ao objecto pretendido. A partir da cadeira n.º 14, e por causa dela, a técnica bentwood foi uma das bases do design industrial moderno. E foi de tal forma aperfeiçoada na altura que hoje não é muito diferente do que era há cem anos (19 a 22).
A utilização daquela técnica na produção da cadeira n.º 14 fez realmente a diferença. Ainda assim, a verdadeira inovação trazida por esta cadeira não está tanto na técnica, mas sim na estratégia de comercialização que Thonet implementou.
Na realidade, mais do que um grande exemplo de design industrial (e um dos primeiros, no verdadeiro sentido da palavra), a cadeira n.º 14 é também um modelo notável de empreendedorismo.
Tudo nela foi intencional, e tudo se reconduziu ao alcance de dois objectivos muito concretos: Thonet ambicionava criar a primeira cadeira produzida em massa e a primeira passível de ser vendida a um preço acessível, para que todos a pudessem comprar. E, para isso, planeou tudo ao detalhe, de modo a que o resultado pudesse ser uma cadeira bonita, simples, confortável, de boa qualidade e barata.
É, no seu verdadeiro sentido, uma cadeira de design, do princípio ao fim.
Senão repare-se:
Eu não sou histérica por cadeiras de palhinha, mas tenho de reconhecer que a cadeira n.º 14 é bonita (quem não gostar de palhinha pode sempre comprar a cadeira n.º 14 com assento em madeira maciça). E a palhinha tinha uma razão de ser (23). Sendo uma cadeira desenhada sobretudo para cafés e restaurantes, a palhinha permitia que os líquidos entornados escorressem para o chão, não ensopando a cadeira.
A cadeira n.º 14 foi também intencionalmente pensada para ser modesta, mas diferente. Destoava das modas de meados do séc. XIX pela sua simplicidade, despindo os restaurantes e cafés da altura da opulência decorativa que se usava. Destoava também do resto da oferta da empresa Thonet, que continuou paralelamente a produzir mobiliário cheio de curvas e detalhes, para agradar a um público mais Art Nouveau (veja-se a conhecida cadeira de baloiço).
A cadeira era propositadamente simples. E isso era moderno. Tanto que se tornou companheira de intelectuais, artistas e outras personalidades, tendo sido usada por Brahms, Lenine, Le Corbusier, Picasso, Einstein.
Por outro lado, a cadeira n.º 14 foi feita para ser confortável. E para ficar ainda mais confortável com o uso. Na verdade, à medida que os parafusos e a madeira vão afrouxando, parece que a cadeira se torna mais cómoda. Digamos que envelhece bem.
Além disso, Thonet não queria descurar a qualidade. O trabalho posto no seu fabrico era tão dedicado que as cadeiras passavam de geração em geração, e muitos dos exemplares do séc. XIX ainda hoje são usados.
Mas todas essas exigências seriam em vão se, simultaneamente, a cadeira a produzir não fosse barata. E é aí que reside a grande diferença da cadeira n.º 14 em relação às restantes peças de mobiliário da sua época: o factor preço foi ponderado desde o primeiro momento como um factor determinante, desde a própria concepção da cadeira.
Para ser barata, Thonet determinou que a cadeira n.º 14 seria composta pelo mínimo possível de partes, todas estandardizadas (é composta por seis peças em madeira - dois discos, duas pernas e alguns arcos -, unidas por meia dúzia de parafusos - 24). Ainda hoje é assim (25). Isto permitia, por um lado, a sua produção por trabalhadores fabris e, por outro, um transporte e uma armazenagem muito eficientes, já que desmontada a cadeira ocupava muito pouco espaço e permitia a arrumação de um grande número de exemplares num espaço reduzido (26).
Essa foi, aliás a grande revolução: ao ser passível de ser desmontada facilmente e sendo composta por poucas partes, todas elas padronizadas, a cadeira n.º 14 podia ser transportada com custos muito baixos. Num caixote com um metro cúbico cabiam 36 cadeiras desmontadas (26), o que possibilitou a sua venda pelo mundo fora.
No fundo, a empresa Thonet foi a IKEA do séc. XIX, numa clara antevisão do que viria a ser a produção e a comercialização em massa.
A cadeira n.º 14 resultou da aplicação de um método de dobragem da madeira com vapor (chamado bentwood), aperfeiçoado por Michael Thonet depois de várias tentativas fracassadas. E digo aperfeiçoado porque a técnica de dobrar madeira com vapor não era desconhecida (já era usada pelos índios americanos, ainda que para outros fins), mas nunca havia sido pensada para a produção de mobiliário (pelo menos desta forma). Em concreto, o método usado por Thonet consiste no amolecimento de madeira de faia através do vapor, durante cinco horas. Depois disso, há apenas três minutos para moldar a madeira, antes que esta comece a quebrar.
O resultado é uma peça de madeira maciça moldada de acordo com a vontade do Homem. Abriu-se, com Thonet, um mundo infinito de possibilidades no mobiliário, cuja produção deixou de depender de técnicas mais básicas - como esculpir e entalhar peças sólidas de madeira - para se chegar ao objecto pretendido. A partir da cadeira n.º 14, e por causa dela, a técnica bentwood foi uma das bases do design industrial moderno. E foi de tal forma aperfeiçoada na altura que hoje não é muito diferente do que era há cem anos (19 a 22).
Na realidade, mais do que um grande exemplo de design industrial (e um dos primeiros, no verdadeiro sentido da palavra), a cadeira n.º 14 é também um modelo notável de empreendedorismo.
Tudo nela foi intencional, e tudo se reconduziu ao alcance de dois objectivos muito concretos: Thonet ambicionava criar a primeira cadeira produzida em massa e a primeira passível de ser vendida a um preço acessível, para que todos a pudessem comprar. E, para isso, planeou tudo ao detalhe, de modo a que o resultado pudesse ser uma cadeira bonita, simples, confortável, de boa qualidade e barata.
É, no seu verdadeiro sentido, uma cadeira de design, do princípio ao fim.
Senão repare-se:
Eu não sou histérica por cadeiras de palhinha, mas tenho de reconhecer que a cadeira n.º 14 é bonita (quem não gostar de palhinha pode sempre comprar a cadeira n.º 14 com assento em madeira maciça). E a palhinha tinha uma razão de ser (23). Sendo uma cadeira desenhada sobretudo para cafés e restaurantes, a palhinha permitia que os líquidos entornados escorressem para o chão, não ensopando a cadeira.
A cadeira n.º 14 foi também intencionalmente pensada para ser modesta, mas diferente. Destoava das modas de meados do séc. XIX pela sua simplicidade, despindo os restaurantes e cafés da altura da opulência decorativa que se usava. Destoava também do resto da oferta da empresa Thonet, que continuou paralelamente a produzir mobiliário cheio de curvas e detalhes, para agradar a um público mais Art Nouveau (veja-se a conhecida cadeira de baloiço).
A cadeira era propositadamente simples. E isso era moderno. Tanto que se tornou companheira de intelectuais, artistas e outras personalidades, tendo sido usada por Brahms, Lenine, Le Corbusier, Picasso, Einstein.
Por outro lado, a cadeira n.º 14 foi feita para ser confortável. E para ficar ainda mais confortável com o uso. Na verdade, à medida que os parafusos e a madeira vão afrouxando, parece que a cadeira se torna mais cómoda. Digamos que envelhece bem.
Além disso, Thonet não queria descurar a qualidade. O trabalho posto no seu fabrico era tão dedicado que as cadeiras passavam de geração em geração, e muitos dos exemplares do séc. XIX ainda hoje são usados.
Mas todas essas exigências seriam em vão se, simultaneamente, a cadeira a produzir não fosse barata. E é aí que reside a grande diferença da cadeira n.º 14 em relação às restantes peças de mobiliário da sua época: o factor preço foi ponderado desde o primeiro momento como um factor determinante, desde a própria concepção da cadeira.
Para ser barata, Thonet determinou que a cadeira n.º 14 seria composta pelo mínimo possível de partes, todas estandardizadas (é composta por seis peças em madeira - dois discos, duas pernas e alguns arcos -, unidas por meia dúzia de parafusos - 24). Ainda hoje é assim (25). Isto permitia, por um lado, a sua produção por trabalhadores fabris e, por outro, um transporte e uma armazenagem muito eficientes, já que desmontada a cadeira ocupava muito pouco espaço e permitia a arrumação de um grande número de exemplares num espaço reduzido (26).
Essa foi, aliás a grande revolução: ao ser passível de ser desmontada facilmente e sendo composta por poucas partes, todas elas padronizadas, a cadeira n.º 14 podia ser transportada com custos muito baixos. Num caixote com um metro cúbico cabiam 36 cadeiras desmontadas (26), o que possibilitou a sua venda pelo mundo fora.
No fundo, a empresa Thonet foi a IKEA do séc. XIX, numa clara antevisão do que viria a ser a produção e a comercialização em massa.
Tendo sido concebida para isso, a cadeira n.º 14 foi, de facto, um sucesso. Em meados de 1870, a fábrica de Thonet produzida 2000 unidades por dia e empregava mais de 4000 trabalhadores, que produziam as cadeiras em autênticas linhas de montagem, muito antes do tempo de Henry Ford. Em 1913, a fábrica tinha mais de 6400 trabalhadores e produzia 1,8 milhões de peças de mobília por ano. Até hoje, foram produzidas mais de 50 milhões de cadeiras n.º 14.
Como se explica, apesar disso, que a filha da revolução industrial e a mãe da actual indústria de mobiliário não tenha sido esquecida ao fim de 150 anos?
Stephen Bayley disse tudo, a propósito da reinterpretação da cadeira n.º 14 pela Muji: Should a chair be a narrative, a theorem? Or something to sit upon? Certainly, chairs that are expensive, yet useless, one-offs are testimonies to our crisis of nihilistic self-loathing, but, as a narrative means, four legs and a seat have a limited expressive range. You need a tame curator to translate. Meanwhile, a chair that is cheap to make, good for sitting on and noble of aspect tells a rather convincing story of its own.
Stephen Bayley disse tudo, a propósito da reinterpretação da cadeira n.º 14 pela Muji: Should a chair be a narrative, a theorem? Or something to sit upon? Certainly, chairs that are expensive, yet useless, one-offs are testimonies to our crisis of nihilistic self-loathing, but, as a narrative means, four legs and a seat have a limited expressive range. You need a tame curator to translate. Meanwhile, a chair that is cheap to make, good for sitting on and noble of aspect tells a rather convincing story of its own.
Ou seja, foi a constância da simplicidade da cadeira n.º 14, em conjunto com a lealdade à sua função, que a manteve viva.
A cadeira n.º 14 é agora considerada uma peça de design e, por isso, é cara. Custa perto de 600 euros (o modelo do nó, na pic 16 acima, fica a mais de 1000 euros). Ficou a sua imagem, mas o seu espírito, aquele que Michael Thonet lhe dera, de ser uma cadeira barata, acessível a todos, desapareceu. Hoje é uma cadeira cheia de história, mas vazia de sentido. E isso é pena. De certa forma, parte do seu design perdeu-se.
A cadeira n.º 14 é agora considerada uma peça de design e, por isso, é cara. Custa perto de 600 euros (o modelo do nó, na pic 16 acima, fica a mais de 1000 euros). Ficou a sua imagem, mas o seu espírito, aquele que Michael Thonet lhe dera, de ser uma cadeira barata, acessível a todos, desapareceu. Hoje é uma cadeira cheia de história, mas vazia de sentido. E isso é pena. De certa forma, parte do seu design perdeu-se.


























Bom dia,
ResponderEliminarPor acaso sabe dizer-me onde posso adquirir uma cadeira Thonet 214? Existe alguma loja, ou fabrica deste modelo de cadeira, onde eu a possa comprar?
Obrigada
Cumprimentos,
Luísa
luisagodinho@hotmail.com