30/07/2013

Design e ciclismo


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O cruzamento entre o mobiliário doméstico e o ciclismo não é evidente. Mas, estranhamente, existe. 

A cadeira retratada acima (1 a 3), chamada Tour, tem três coisas de que gosto. Primeira: é feita em madeira de ar deslavado (a moda do deslavado dá para muitas linhas e por isso fica para outro post). Segunda: tem pormenores em amarelo, cor que odiava há uns anos e que progressivamente se foi entranhando nos meus gostos, para agora ser uma das minhas preferidas (sobretudo combinada com a madeira deslavada). Terceira: mistura design limpo, minimalista, com um toque surrealista (ou, para não ferir susceptibilidades, com um toque de disparate). Toque esse que, apesar de não ser subtil, também não é exagerado (a terminação da cadeira a lembrar o guiador de uma bicicleta de corrida, a estrutura tubular da cadeira a lembrar a estrutura das bicicletas).
E uma quarta: foi concebida por um designer português que promete muito - Rui Alves - e que, além de ser designer, vem de uma família de carpinteiros. Que gozo deve dar imaginar uma coisa e a seguir conseguir torná-la em matéria.

O banco (4 a 7), chamado Sella, foi desenhado pelos conhecidos irmãos Castiglioni (Achille e Pier). Para uma peça de mobiliário desenhada em 1957 é bastante arrojada. O mérito dos seus criadores e a sua idade, conjugados com a originalidade das formas, fazem deste banco uma espécie de não-clássico. É uma peça que está condenada a ser sempre irreverente, a nunca se tornar num símbolo de uma época. Pertencerá sempre à feira de curiosidades do design. 
E não é, apesar de ter graça, coisa que comprasse para a minha casa, ao contrário da cadeira Tour. Acho que me sentiria tão desconfortável sentada nele como num monociclo circence, a fazer malabarismo ao mesmo tempo.


[cadeira Tour, Rui Alves, 2011, fotografias tiradas daqui]

[banco Sella, Achille e Pier Giacomo Castiglioni, 1957, produzida pela Zanotta; fotografias tiradas daqui]   

23/07/2013

The Architecture of Parking

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Este post não é bem sobre arquitectura. É mais sobre fotografia. Ou talvez nem isso. É sobre construções banais que compõem imagens enigmáticas mas inesperadamente cativantes, que atraem o olhar para a luz. Ou sobre estruturas solitárias em cimento que, apesar de terem apenas como propósito o prosaico estacionamento de automóveis, fazem lembrar coisas mais profundas, iniciáticas. Como se tirar o carro do parque desvelasse uma verdade desconhecida, um caminho por fazer.


Fotografias retiradas do livro The Architecture of Parking, Simon Henley, Thames & Hudson, aqui

22/07/2013

Homicídio em Alicante

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Tudo bem, eu até percebo que na arquitectura não seja fácil fazer coisas que sejam simultaneamente diferentes e de bom gosto. E até percebo que em troca de umas taxazinhas urbanísticas as entidades públicas agora estejam dispostas a fechar os olhos a algumas coisas e a fingir que determinado projecto cumpre mais ou menos os planos aplicáveis. Mas não é preciso matarem a paisagem. Não é preciso deixarem fazer isto. Alicante até pode nem ser o sítio mais fascinante do mundo, mas há coisas que não se fazem em lado nenhum. Nomeadamente, plantar numa colina aparentemente virgem uma construção geométrica de meter medo, que parece saída dos Transformers.

A desproporção do corpo balançado, além de não dever permitir um sono muito tranquilo (pelo menos a mim não permitiria), não tem justificação aparente a não ser a extravagância pela extravagância. Num terreno tão acidentado, a opção visualmente mais equilibrada sempre passaria por uma construção agarrada ao terreno, seguindo a sua morfologia, não por uma coisa excrescente e mutante. Ou, se queriam mesmo um edifício tumoroso (também os há bonitos, apesar de tudo), então que fizessem uma coisa mais agradável à vista, menos estilo Mediterrâneo casa-de-banho.

É verdade que a casa tem vistas fantásticas. E uma piscina de fazer inveja. Mas a forma exterior do edifício e a sua relação com o sítio onde se encontra é para mim tão incompreensível como o quebra-cabeças que parece. Para mim, o terreno e a paisagem são sempre pontos de partida e pontos de chegada, não elementos de conflito. A conjugação de volumes de tamanhos e formas diferentes, sem nenhuma coerência visual onde nos possamos agarrar, faz com que a coisa pareça um daqueles blocos que resultam de um mau jogo de Tetris, ameaçando cair desengonçado pela colina abaixo e desfazer-se em mil pedaços. Não gosto. Game over.

A construção chama-se casa del alcantilado e o projecto é da autoria de Fran Silvestre Arquitectos.
Fotografias, de Diego Opazo, aqui.

17/07/2013

Ele há coisas (de arquitectura): Dunmore Pineapple

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Esta história não podia ter pormenores mais bizarros: a casa com um cocuruto em forma de ananás é um edifício construído no séc. XVIII (!) situado na Escócia (!!), numa propriedade que um dia pertenceu ao Earl of Dunmore - Dunmore Park (!!!). Servia de estufa no rés-do-chão, para cultivar - adivinhem - ananases (?!). No primeiro andar ficavam os alojamentos dos jardineiros (i.e., dos tratadores dos ditos frutos). Estava longe de imaginar que no séc. XVIII os escoceses tinham uma tara por frutas exóticas. Sobretudo ao ponto de lhes fazerem tal homenagem arquitectónica.

Hoje, nesse primeiro andar, encontram-se apartamentos para arrendar (?!?). Para quem quiser, é aqui. Mais uma sugestão de férias no Reino Unido, portanto, além desta

Pensando bem, por que não? Os interiores (4, 5, 6) são inequivocamente country, com um toque british. Não ofendem, ainda que a originalidade se tenha esgotado na torre bromeliácea (e se bem que a jarra com flores cor-de-rosa e folhas de feto a passear de uma divisão para a outra seja dispensável). 
E sempre podia dizer que tinha passado férias num ananás. Farewell, old fruit.

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11/07/2013

Ele há coisas (de design): Strong Cedar





E eis que surge o móvel que vem revolucionar o design industrial, de seu nome Strong Cedar.

Para os menos iluminados que não tiverem percebido a evidência da primeira imagem, é uma mesa de apoio em madeira de cedro. Diria eu que também pode ser um banco (o chamado banco de pau), ou quem sabe um sofisticado mono inútil, tal é a sua multifuncionalidade. É só vantagens. Ainda por cima, é design sustentável: quando se fartar é só atirá-lo para a lareira.
É um móvel de enorme complexidade técnica, que revela um elaborado trabalho de concepção e de produção. E vê-se logo que lhe subjaz uma profunda justificação ontológica: é assim uma coisa género Robinson Crusoe cruzado com minimalismo forçado cruzado com bloco de anti-traça gigante cruzado com estilo rural-zen-chique.
Há muito design português de qualidade, mas arrisco-me a dizer que este não será um bom exemplo.
Ah, e esqueci-me de um detalhe: custa 360 euros.
[Mesa de Apoio Strong Cedar, Joana & João Carmo Simões, 2010, Lacecal]  

09/07/2013

Pontos de fuga

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Rooms by the Sea, óleo sobre tela, Edward Hopper, 1951

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Nowhere but sajima, casa de férias perto de Tóquio, Yasutaka Yoshimura Architects, 2009 

A relação entre as duas imagens não é minha. Vi aqui. Mas não pude deixar de partilhar, sobretudo porque é estranha a sensação de familiaridade que existe entre a fotografia do edifício de uns arquitectos japoneses, algures no Japão, e um quadro de um pintor norte-americano, Hopper. Parecendo pouco, partilham quase tudo o que retratam: os pontos de fuga, a entrada da luz e a solidão.

Through the [Looking-]Glass

 
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Glass House, Philip Johnson (1949, Connecticut)

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Glass House, Philip Johnson (1949, Connecticut)

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 Glass House, Philip Johnson (1949, Connecticut)
 
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Glass House, Philip Johnson (1949, Connecticut)

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Glass House, Philip Johnson (1949, Connecticut)

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Glass House, Philip Johnson (1949, Connecticut)

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Glass House, Philip Johnson (1949, Connecticut)

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Farnsworth House, Mies van der Rohe (1945-1951, perto de Chicago)

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Farnsworth House, Mies van der Rohe (1945-1951, perto de Chicago)

Farnsworth House, Mies van der Rohe (1945-1951, perto de Chicago)

Farnsworth House, Mies van der Rohe (1945-1951, perto de Chicago)

Farnsworth House, Mies van der Rohe (1945-1951, perto de Chicago)

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Robert and Mary Leonhardt House, Philip Johnson (1954-56, Lloyd Neck)

LM Guest House, Desai Chia Architecture (2012, Nova Iorque)
 
LM Guest House, Desai Chia Architecture (2012, Nova Iorque)

LM Guest House, Desai Chia Architecture (2012, Nova Iorque)

LM Guest House, Desai Chia Architecture (2012, Nova Iorque)
 

Now, if you'll only attend, Kitty, and not talk so much, I'll tell you all my ideas about Looking-glass House. First, there's the room you can see through the glass--that's just the same as our drawing room, only the things go the other way. I can see all of it when I get upon a chair--all but the bit behind the fireplace. Oh! I do so wish I could see THAT bit!
Through the Looking-Glass, Lewis Carroll

 
Por mais estranho que pareça, as casas retratadas acima têm alguma coisa de misterioso. Para mim, a transparência das suas paredes é apenas aparente: é como se encerrassem um espectáculo mudo e intraduzível, coberto por uma redoma de vidro. Para mim, olhar para estas casas é como assistir, numa feira de curiosidades, a um truque de magia excêntrico e obsoleto, accionado por mecanismos intrincados que fazem mexer autómatos, mesas e cadeiras, em relação ao qual ninguém consegue descobrir o segredo.
 
Para lá das paredes de vidro, tudo muda. Aquela vida que parecia encenada, num diorama à escala real, existe mesmo. Curiosamente, vistas de dentro, são casas voltadas para fora, que se fundem com a paisagem onde se encontram, que dão a quem lá está uma sensação de ausência de limites visuais, sem definição certa entre o que é o edifício e o local onde foi construído. Philip Johnson dizia, de certa forma a propósito dessa falta de fronteiras, "I have very expensive wallpaper".
 
Vistas de fora, estas casas com paredes de vidro também revelam uma espécie de não-arquitectura (o equivalente ao não-design, de que aqui falei), que despe os edifícios das suas contenções e vestes tradicionais e deixa a nu a sua estrutura mais básica, mais fundamental. A arquitectura prescinde de si mesma, bastando-se com uma estrutura minimal, (também em termos de geometria e de proporções), em forma de paralelepípedo simples, em linha directa com o Movimento Moderno.

É uma arquitectura cerebral mas, ao mesmo tempo, poética. O que as casas são - e o que representam para os seus utilizadores em cada momento - depende da natureza que as envolve. Sem qualquer intermediação, sem os non-essentials, nas palavras de Mies van der Rohe: "the essentials for living are floor and roof. Everything else is proportion and nature".

E é verdade. Estas casas renunciam ao que não é essencial, mas apenas para ir buscar o resto ao que as rodeia. Uma arquitectura para a contemplação, para a meditação, de comunhão.

Ao contrário do que possa parecer, estas casas não são transparentes para se ver lá para dentro. São transparentes para se ver através delas e, sobretudo, já lá dentro, para se ver para lá delas. Como disse Mies van der Rohe, a propósito da Farnsworth House, "if you view nature through the glass walls (...), it gains a more profound significance than if viewed from the outside. That way more is said about nature—it becomes part of a larger whole."
 
Apetece, como fez Alice, passar pelo vidro (ainda que esta tenha passado por um espelho, mas, para o que aqui interessa, vai dar ao mesmo) e ver o que se encontra por detrás dele. Porque, como sucedeu com Alice, atrás desse vidro de certeza que as coisas não são o que parecem ser.

03/07/2013

Ele há coisas (de arquitectura): Balancing Barn

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O edifício retratado nas fotografias chama-se Balancing Barn (numa tradução livre, "celeiro em equilíbrio"). O projecto é do gabinete de arquitectura holandês MVRDV, e foi construído em Suffolk, Inglaterra. Ganhou, em 2011, um prémio do Royal Institute of British Architects.

Aqui (onde também se chamou a esta casa de instant classic of Looney Tunes modernism) fez-se uma descrição certeira: it starts with a deliberately humble house shape – rectangle with triangle on top – of the kind you see in children's drawings, mortgage company logos and Monopoly houses. This is extruded into a long, silvery tube that, using the engineering you might need for a small bridge, shoots into air, the slope falling away beneath it. Like a cartoon character, it starts running in midair, with no apparent means of support. A glass floor in the living room, looking down into the unexpected void, is the punchline.

A primeira pergunta que me veio à cabeça quando a vi foi (e não há tradução para português que lhe faça justiça): what's the point? Qual é o objectivo de fazer uma casa assim, que mais parece um comboio que descarrilou e ficou empoleirado no cimo de uma colina, parecendo ameaçar cair? Ou que faz lembrar uma brincadeira feita do 3D Max, em que uma simples casa com duas janelas (6) é extrudida, desafiando os limites?
Por mais que pense, não sei. Provavelmente houve apenas uma intenção de fazer diferente, só porque sim. Arquitectos entediados são extremamente perigosos.

Quase esquecia: o Balancing Barn pode ser arrendado para férias, através do site Living Architecture. Acomoda 8 pessoas. Quem estiver interessado em passar férias numa aberração arquitectónica, que com jeito até é capaz de abanar um bocadinho, be my [ou melhor, their] guest.