06/11/2013

As cadeiras mais feias de sempre #1


O design também tem, como tudo, as suas histórias menos bonitas. Apesar disso, o design de cadeiras sempre me pareceu relativamente imune ao mundo da fealdade (pelo menos, da fealdade grosseira). Uma cadeira, que depende tanto da sua função - no sentido em que tem de haver um assento, um encosto e uma estrutura onde ambos se encaixem, para que seja chamada de cadeira -, pode ser muitas vezes vulgar e desinteressante, mas é à partida um objecto pouco dado a grandes manifestações do feio-de-meter-impressão. Mesmo assim, elas existem. E a quantidade de cadeiras horripilantes que por aí se concebe é tanta que acho merecer uma rubrica semanal. Aqui fica a primeira.

Apresento-vos a cadeira At One. Desenhada por Charlotte Kingsnorth. Criada na sequência de uma proposta da Vitra para a concepção de um sofá da linha Vitra Editions. Vencedora do prédio D&AD Student Award, em 2008. Coisa séria e a sério, portanto.


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Diz a sua autora que a cadeira At One narra a ligação entre uma pessoa obesa e o seu assento. Juntos, eles transformam-se num só, incham e distendem. At One is a sofa which has been devoured by its obese occupier, explica Kingsnorth. It tells a story of a relationship between a person and their sofa and the evolution of their bond through time spent sitting together

Basta ver o presuntinho da perna direita da frente, cheio de refegos disformes, para perceber logo a ideia. Para não falar do sítio estratégico dos botões da cadeira, que se percebe com a imagem 7. E conclui a designer, com toda a confiança de quem se intitula an industrial designer with an artist's vision, melding together the practical and the sculptural, que a forma criada é grotescamente bela.

Se isto é ou não arte, não comento, porque não falo do que não sei. Mas eu diria que é grotescamente grotesca. Aliás, tive dúvidas sobre se deveria lançar este post à hora do almoço, não fosse provocar reacções viscerais a alguém (literalmente).

Por que razão esta cadeira ganhou um prémio de design industrial? Só porque conta uma história? Pela originalidade? Então e a função da cadeira, a ergonomia, o aspecto estético? Quem quererá sentar-se numa cadeira que reproduz uma senhora obesa esparramada disformemente numa estrutura em madeira? Que, forrada a látex de cor e textura bem sugestivas, parece estar pronta a transformar em bolo alimentar quem nela se sentar? 

Em tempos partilhei aqui a opinião de Stephen Bayley, para quem as cadeiras não são narrativas, são objectos para as pessoas se sentarem. Hoje não podia estar mais de acordo. E, além disso, bom design também é design bonito. Não design que provoca, literalmente, o vómito.

[Imagens aqui, aqui e aqui]

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