15/03/2014

Rosen House


O sudoeste dos Estados Unidos (em especial a Califórnia) tem tudo para, à partida, não me dizer nada. Cactos, desertos, motéis à beira de estradas poeirentas, restaurantes mexicanos, palmeiras e calor, estranhamente salteados com celebridades, grandes avenidas, estúdios de cinema e resorts com piscina, tudo me pareceria um grande tédio, não fosse um outro ingrediente que transforma essa receita em algo de extraordinário.

É que existem nessas terras imensas construções ditas modernistas. Só Palm Springs, cidade aparentemente sem tempero que agrade ao meu paladar estético, tem dezenas de edifícios desses. E, por essa razão, um sítio onde nunca me imaginaria passou há já algum tempo a constar da minha lista de viagens futuras.
A História dá algumas explicações para tão elevada concentração de arquitectura modernista num mesmo local: em meados do séc. XX, a Califórnia foi porta de entrada nos Estados Unidos para vários arquitectos (sobretudo europeus, e muitos relacionados com a Bauhaus), que vieram juntar-se a alguns outros que já lá viviam antes da segunda grande guerra (como Neutra, Hamilton Harris, Lautner, entre outros). Aí, com as oportunidades que surgiram depois do conflito e com a expansão urbana que a partir daí se verificou, toda uma geração de arquitectos, alimentada pela classe média, pelas estrelas de cinema e por outras vedetas, que queriam viver o (e no) último grito do moderno, viu naquela região de clima morno e de mellow lifestyle uma forma de explorar novos estilos e novas técnicas. A Califórnia era um destino despreocupado, bem disposto e optimista, um refúgio longe da austeridade que ainda se sentia um pouco por toda a parte, e a incubadora ideal de um movimento moderno mais arejado, sem aquele ar sério, sorumbático e racional que vinha da Europa. O modernismo americano acabou em parte por ficar associado ao Californian way of living, e transformou para sempre a paisagem e a identidade daquele sítio.


O estilo modernista californiano de que aqui falo, em alguns casos numa sub-espécie apelidada de desert modernism, deixou a nu as estruturas dos edifícios e combinou aço, plástico, alumínio e vidro (aproveitando o avanço tecnológico dos materiais desenvolvidos na altura da guerra) em construções de divisões amplas, rasgadas por grandes vãos. O uso de rochas e plantas (sobretudo cactos e palmeiras) em simbiose com a construção, o aproveitamento das vistas fantásticas e da luz, a falta de fronteiras entre o exterior e interior das casas, a informalidade na utilização dos materiais, na ocupação do espaço e na distribuição das áreas funcionais das construções, tudo isso compôs o carácter descontraído típico daquela zona, que acabava por suavizar as linhas duras e industriais dos elementos usados. É exemplo, aliás, o tão conhecido programa Case Study Houses, da revista Arts & Architecture, hoje considerado um marco fundamental da história da arquitectura moderna.

Apesar de parte dos proprietários destas casas não ter respeitado a herança que tinha nas mãos, sempre houve alguma sensibilidade para a protecção dos edifícios e para a dinamização de actividades de divulgação desse património. Actualmente, a coisa anda normalmente à volta de simpósios, cocktails, exposições, visitas organizadas, roteiros informativos, conferências, roadtrips em autocarros abertos, à torreira do sol. Uma dessas iniciativas, a Modernist Week, terminou há umas semanas.

Mas vamos ao que interessa. Uma das casas por onde passam alguns desses itinerários é a Rosen House, em Los Angeles (1 a 12). Construída entre 1961 e 1963, a Rosen House foi concebida para Gerald e Arlene Rosen, supostamente por Craig Ellwood, personagem controversa de nome inventado e hábitos extravagantes (em todo o caso, 
há quem aponte como principais criadores desta construções dois arquitectos do gabinete de Ellwood, Lomax e Jacobson). Craig Ellwood nunca estudou arquitectura, e tinha apenas formação em engenharia de estruturas, obtida com notas medíocres em aulas à noite. Apesar disso, deu várias conferências na Universidade de Yale e ensinou em duas ou três faculdades de arquitectura nos Estados Unidos. Craig Ellwood foi também autor de algumas das casas que fizeram parte do projecto Case Study Houses, tendo por aí obtido algum reconhecimento. Não sendo arquitecto, foi nomeado um dos três melhores arquitectos de 1957, em conjunto com Frank Lloyd Wright e Mies van der Rohe.


A Rosen House não é muito conhecida (talvez se Julius Shulman lhe tivesse tirado mais fotografias a coisa hoje fosse diferente) e não faz parte das Case Study Houses, mas partilha o espírito e o carácter das casas com que Craig Ellwood participou nesse projecto. Desde logo, como elas, evidencia nas suas características mais básicas a formação em engenharia de estruturas do seu autor. E, como todas elas em geral, é um exemplo de fusão entre o formalismo de Mies van der Rohe e o estilo relaxado do modernismo californiano.

É certo que, sobretudo aos nossos olhos de séc. XXI, esta casa não tem uma aparência muito carismática, nem se distingue à primeira vista de um qualquer outro caixotinho modernista feito em série. Pode inclusive parecer demasiado simples e quadrada – apesar de, na realidade, se a virmos em planta, não o ser. Mas, independentemente disso, e sem prejuízo de tudo o que se escreveu sobre o seu papel na arquitectura californiana (chegou a aparecer em publicações conhecidas no meio), a verdade é que esta é uma das minhas construções favoritas.  

Na Rosen House gosto de tudo. Da organização das divisões e da abertura interior para onde deitam alguns quartos. Das enormes paredes em vidro e da subtil contradição entre os elementos horizontais (como os degraus, feitos de lajes de cimento compridas) que alongam a construção pela linha do horizonte, agarrando-a à terra, e o facto de estar ligeiramente elevada sobre um pavimento de pedras pequenas e arredondadas. 

A fixação da casa por cima de uma superfície de seixos revela muito sobre o seu carácter. É como se ela se pusesse em bicos dos pés, para que se perceba bem como está construída. Visível do exterior e do interior, esse chão de seixos escuros, em contraste com o branco da construção, realça a verdade: uma casa é, no fundo, apenas uma estrutura. Aqui, nem a forma como assenta no solo ficou disfarçada. E é sobretudo disso que eu gosto: a casa não esconde aquilo que é, mostra a sua constituição despojada, os seus equilíbrios, as suas forças, os seus pontos de apoio e de união, como acontece tipicamente com as casas modernistas. E, no caso da Rosen House, isso é conseguido com tanta certeza e com tanta confiança que acaba por lhe dar uma aura pretensiosa. Como se uma construção pudesse dar-se ao luxo de se apresentar assim, despida de coberturas, revestimentos e elementos de decoração ou distracção, por saber que isso basta – e aqui basta de certeza – para ser distinguida entre as suas pares.

As palavras são de Craig Ellwood, escritas na revista L.A. Architect de Março de 1976, e fazem todo o sentido em relação a esta casa: “The spirit of architecture is its truthfulness to itself: its clarity and logic with respect to its materials and structure. (...) The truth about truth is it is - waiting for us to discover it. The consciousness of truth is not static, but ever progressively unfolding. We must strive for intrinsic solution, not extrinsic effect. The moment form becomes arbitrary, it becomes novelty or style – it becomes something other than architecture. Materials and methods will certainly change, but the basic laws of nature make finally everything timeless”.

A Rosen House é apenas aquilo que com tanta segurança mostra ser, um conjunto de superfícies e alçados, pilares, traves e vigas, sem querer ser outra coisa, e acho que é por ser tão orgulhosamente verdadeira que gosto tanto dela.



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