O Pufe tem andado um bocadinho ao abandono, mas não me esqueci do mistério que deixei por desvendar nesta posta. Este (1):
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Para quem, como eu, gosta da série de televisão Poirot (3), baseada na obra de Agatha Christie (e que uso como suplemento vitamínico, de tempos a tempos), não há mistério nenhum. O edifício da fotografia é aquele que aparece na série como o pied-à-terre onde vive Hercule Poirot, mais conhecido por Whitehaven Mansions, em Sandhurst Square. E que, na realidade, chama-se Florin Court e fica em Charterhouse Square, em Londres, perto da estação de metro de Barbican.
O Florin Court aparece regularmente nos vários episódios, mas vê-se sobretudo no The third floor flat, episódio inspirado no conto homónimo (do livro Poirot's Early Cases), onde Poirot desvenda o mistério da morte de uma pessoa num apartamento do seu próprio prédio (2).
Aqui fica o Florin Court, de outras perspectivas, e em todo o seu esplendor Art Déco:
O Florin Court aparece regularmente nos vários episódios, mas vê-se sobretudo no The third floor flat, episódio inspirado no conto homónimo (do livro Poirot's Early Cases), onde Poirot desvenda o mistério da morte de uma pessoa num apartamento do seu próprio prédio (2).
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Aqui fica o Florin Court, de outras perspectivas, e em todo o seu esplendor Art Déco:
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É verdade que no Pufe se gosta muito do modernismo mais a puxar à Bauhaus e aos americanos que a seguiram. Mas o Pufe também tem um fraquinho (pensando melhor, talvez um fracão) pelo Art Déco, sobretudo na arquitectura.
Aliás, o Art Déco (ou style moderne) apesar de nascido em França (o nome vem da Exposition Internationale des Art Décoratifs et Industriels Modernes, realizada em Paris em 1925, mas só a partir da década de 60 foi autonomizado do Modernismo pelos teóricos), é, pelo menos no que respeita a arquitectura, muito British. E aqui, apesar da tara pelo design escandinavo, pela arquitectura americana, ou pela iluminação italiana, gosta-se muito de tudo o que nesses temas é British.
Há imensos e bons exemplos Art Déco no Reino Unido (basta lembrar, só em Londres, algumas partes do Savoy, do Claridge's e do Park Lane Hotel). Não são propriamente o Chrysler de Nova Iorque - nos Estados Unidos o Art Déco foi mais arrojado -, mas são interessantes q.b.. Muitos desses edifícios aparecem no Poirot, de tal modo que alguns episódios parecem autênticas lições televisivas sobre arquitectura (e design) modernista no Reino Unido (que, deve dizer-se, não se limita ao Art Déco puro, como comprova a famosa High and Over, que também aparece em alguns episódios). De Art Déco, basta lembrar o De La Warr Pavilion (16), o Midland Hotel (17), o Eltham Palace (que é Art Déco no interior - 18), ou a Joldwynds house (19), todos pétreos protagonistas de vários episódios do Poirot.
A arquitectura Art Déco no Reino Unido teve o seu ponto alto entre as duas guerras mundiais (como na maioria dos países onde se desenvolveu). Surgiu, por isso, numa altura marcada pelo progresso tecnológico e por grandes mudanças. Perante as privações causadas pela guerra, o Art Déco veio responder com opulência, luxo e materiais sofisticados, deixando respirar a arquitectura e o design com as suas linhas simples e direitas, tão diferentes dos arabescos naturalistas do Art Nouveau. Mas era mais do que isso: ao mesmo tempo que reflectia a era das máquinas e dos veículos futuristas (sobretudo na corrente mais streamlined, também chamada de Streamline Moderne), o Art Déco ia buscar inspiração ao Egipto e às civilizações da América do Sul, usando os seus traços, padrões e geometrias (a descoberta do túmulo de Tutankamon em 1922 agravou a moda do gosto pela civilização egípcia, sobretudo em Inglaterra, de onde partiam inúmeras expedições).
No fundo, o Art Déco era uma espécie de fusão do supérfulo e do ornamental com o simbólico que a história e a arqueologia lhe acrescentavam. Era um movimento decorativo, mas, ao mesmo tempo, com significado.
Na tal corrente streamlined do Art Déco, a exuberância era mais contida, mas tudo exalava velocidade. O objectivo era reproduzir as linhas aerodinâmicas dos grandes transportes da altura - transatlânticos, comboios de longo curso, novos automóveis e aviões comerciais -, suavizando as arestas. Os edifícios e os objectos tornavam-se mais estilizados, mas ganhavam movimento. Aliás, voltando ao Poirot, quem não se lembra do genérico da série, cheio de alusões ao Art Déco e ao Streamline Moderne, sobretudo quando se vêem as linhas deixadas pela passagem do grande transatlântico, do comboio e da avioneta (20)?
No fundo, o Art Déco era uma espécie de fusão do supérfulo e do ornamental com o simbólico que a história e a arqueologia lhe acrescentavam. Era um movimento decorativo, mas, ao mesmo tempo, com significado.
Na tal corrente streamlined do Art Déco, a exuberância era mais contida, mas tudo exalava velocidade. O objectivo era reproduzir as linhas aerodinâmicas dos grandes transportes da altura - transatlânticos, comboios de longo curso, novos automóveis e aviões comerciais -, suavizando as arestas. Os edifícios e os objectos tornavam-se mais estilizados, mas ganhavam movimento. Aliás, voltando ao Poirot, quem não se lembra do genérico da série, cheio de alusões ao Art Déco e ao Streamline Moderne, sobretudo quando se vêem as linhas deixadas pela passagem do grande transatlântico, do comboio e da avioneta (20)?
Mas regressando ao Florin Court: parece que a própria Agatha Christie terá explicado que o estilo Art Déco seria demasiado extravagante para a personalidade de Hercule Poirot. Ainda que, no mundo real, a Autora não tenha sido certamente insensível ao modernismo, não tivesse ela até vivido durante algum tempo no Isokon [quem gostar do Isokon não pode deixar de ver esta e esta postas do António Araújo, com quem às vezes parece que partilho algumas sinapses - as dele bem mais complexas que as minhas - sobre arquitectura moderna]. Mesmo assim, pensando bem, a personagem das little grey cells faz todo o sentido num ambiente tão racional, arrumadinho, controlado e geométrico como o Art Déco (claro, na sua forma menos excêntrica e mais discreta, o Streamline Moderne), ao mesmo tempo que o seu temperamento de belga dandy vai bem com os materiais caros e luxuosos. Daí que o Florin Court tenha resultado tão eficazmente na série, e represente de forma perfeita aquela que seria a casa do detective magnifique.
O Florin Court foi construído em 1936 de acordo com projecto de Guy Morgan and Partners, e, como se pode ver pelas fotografias, tem uma fachada em forma de onda, fora do vulgar, seguindo precisamente o Streamline Moderne. A fachada foi pensada para dar vista para a praça ao maior número de divisões possível. Foi provavelmente um dos primeiros edifícios de apartamentos residenciais na área de Clerkenwell, e é um dos que mais se destaca pela sua fachada.
Os pormenores Art Déco vão além da fachada curvilínea (21 e 22) mas, infelizmente, o mesmo não acontece no interior dos apartamentos.
Os pormenores Art Déco vão além da fachada curvilínea (21 e 22) mas, infelizmente, o mesmo não acontece no interior dos apartamentos.
É certo que, tal como aparece na série, o apartamento do Poirot em Whitehaven Mansions é assim:
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Mas, na realidade, o que se vê no Poirot é cenário, e não o interior do edifício. Por dentro, o Florin Court é, hoje, assim (e estes são alguns dos apartamentos mais jeitozinhos que encontrei):
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Não é possível. Ando eu a cobiçar aquelas portas com vidros do apartamento de Poirot e agora dizem-me que os andares estão um chinfrim!
ResponderEliminarHelena Matos
Cara Helena, quem sabe, talvez o Pinewood Studios (onde foram filmadas as cenas de interior, pois aquele apartamento nunca existiu no Florin Court) possa ceder as tais portas, pedindo com jeitinho. Ainda que, a crer na internet (http://www.express.co.uk/entertainment/tv-radio/439374/Poirot-s-last-case-After-25-years-his-detective-days-are-numbered), muitos dos móveis e adereços da série sejam peças feitas pelo próprio estúdio para as filmagens, e não peças art déco autênticas...
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