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Casa branca
Casa branca em frente ao mar enorme,
Casa branca em frente ao mar enorme,
Com o teu jardim de areia e flocos marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas.
A ti eu voltarei após o incerto
Calor de tantos gestos recebidos
Passados os tumultos e o deserto
Beijados os fantasmas, percorridos
Os murmúrios da terra indefinida.
Em ti renascerei num mundo meu
E a redenção virá nas tuas linhas
Onde nenhuma coisa se perdeu
Do milagre das coisas que eram minhas.
Sophia de Mello Breyner Andresen, Poesia I (1944)
Sophia de Mello Breyner Andresen, Poesia I (1944)
Um dia, não há muito tempo, estive quase a ir viver para Sintra. O pesadelo que seria, para quem não consegue – e não quer – largar Lisboa. Mas o sonho que seria. Não tanto o sonho de viver no meio do nevoeiro e das trepadeiras húmidas dos palacetes românticos semiarruinados do centro histórico, mas o de viver em Sintra junto ao mar. Nas praias de Sintra, onde dei os primeiros passos, onde passei as primeiras férias, onde desafiei as ondas ainda de fraldas e de inconsciência destemida, onde passados uns anos o mar quase me levou. Ainda hoje sonho em sobressalto com esse mar, ainda hoje sinto na boca os grãos de areia daquele episódio quase fatal, ainda hoje aquelas ondas me sussurram para voltar.
Cada vez que lá vou é difícil. E é difícil sobretudo quando passo pelas Azenhas do Mar e pela Casa Branca (ou Casa do Marco - 2). Não é que quisesse viver na Casa Branca. Sou demasiado urbana e acomodada para conseguir afeiçoar-me à dureza austera e à crueza despida daquela casa (10), pendurada numa falésia (1). Mas, à excepção do tamanho dos cómodos e da falta de conforto (9), ela representa tudo o que um dia procurei em Sintra e não consegui encontrar. Uma casa simples e despreocupada, afastada do resto do mundo, deitada para o mar (11).
Raul Lino, que dispensa quaisquer apresentações, projectou e construiu esta casa como casa de férias, em 1920. Para ele e para a sua família, e para mais ninguém. Não há melhor forma de conhecer o espírito de um arquitecto do que ver aquilo que projecta para si próprio, sem condicionamentos. E, quanto à Casa Branca, mesmo que se queira colar-lhe a "síntese concreta do imaginário da Casa Portuguesa", a “imagem do vernáculo formal”, ou ainda a “raiz popular”, não há muito a dizer. O que por si só diz muito. É uma construção branca, com janelas de portadas laranja (3 a 8), cor complementar (o que certamente não foi inocente) do azul do mar. Sem detalhes de vanguarda, sem traços de inovação, sem excentricidades por encomenda, sem pretensões de prémio Valmor. Uma casa de férias feita para ser apenas uma casa de férias. De certeza que Raul Lino só quis que fosse isso. Mais nada. E é nesta casa, e noutras como ela, que se encontra a razão de ser da verdadeira arquitectura.
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A associação do poema de Sophia de Mello Breyner Andresen à Casa Branca aparece também aqui.









Cheguei aqui pelo Malomil e gostei muito.
ResponderEliminarParabéns à autora do PUFE pelo excelente trabalho de pesquisa e pela despretensiosa e des-preconceituosa abordagem da arquitetura.
MJE
Muito obrigada, MJE. Espero que nos encontremos mais por aqui. Joana
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