Mostrar mensagens com a etiqueta Cadeiras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cadeiras. Mostrar todas as mensagens

30/07/2017

My Foolish Heart

Há anos que gosto da cadeira Egg, do Jacobsen. É uma espécie de amor tranquilo, não correspondido mas também não procurado, ao qual me fui habituando sem ligar muito. Até porque pensar em dar seis mil euros por uma lounge chair esmorece qualquer paixão.

E assim tem sido, até há pouco tempo. Abri o site da Fritz Hansen, como faço tantas vezes, e apareceu esta fotografia da cadeira, em pele, cor de caramelo escuro, a derreter-me nos olhos. E aí qualquer coisa mudou. Estou deslumbrada, mais que isso, não consigo deixar de pensar nela. Eu, que nem gosto de sofás em pele, dou por mim caída aos pés de uma cadeira de pele. Ainda por cima, eu já conhecia esta versão, e sempre me foi indiferente.

O que mudou? E como pode ter mudado? Não sei, talvez prefira nem saber. Mas, como diz a música (ainda que goste mais da sua versão instrumental, nas mãos do Bill Evans), For this time, it isn't fascination / Or a dream that will fade and fall apart / It's love, this time it's love, my foolish heart.

(agora é só respirar fundo, e esperar que a ideia de gastar treze mil euros para consumar este amor arrefeça isto um bocadinho)



fotografia aqui

20/05/2014

Bibendum


1
2
 
Quem não conhecer esta poltrona certamente pensará que ela é um modelo recente. Tem um ar modernaço, quase que podia estar no catálogo do próximo Inverno das melhores lojas de design (por acaso é uma peça exclusiva de uma delas, a Aram Store).

Mas não é. E não é apenas a sua idade que impressiona. Há três dados interessantes sobre esta peça, que aqui deixo por ordem crescente de estupefacção induzida:
A fonte de inspiração? Aquele famosíssimo boneco feito de pneus, marca eterna da Michelin, chamado Bibendum (é também o nome desta poltrona).
A época em que foi concebida? Início dos anos 20 do séc. XX (talvez um pouco antes).
O seu criador? Uma mulher semi-aristocrata irlandesa, Eileen Gray.

Eileen Gray é uma das designers mais importantes do século passado, ainda que grande parte do seu reconhecimento seja póstumo (também tem alguns trabalhos de arquitectura, mas isso fica para outro post). É uma espécie de Coco Chanel do design. Muitas das suas peças foram revolucionárias, e marcaram de forma significativa a facção do design que gosta de móveis com aço tubular [de uma forma muito simplista e por isso provavelmente errada ou pelo menos imprecisa, sempre que me lembro do período moderno divido-o entre os orgânicos e os industriais, ou seja, entre os fanáticos do mobiliário todo em madeira e os extremistas do vidro e do metal, seguindo-se uma terceira corrente, dissidente, que venera os plásticos, as borrachas e os acrílicos]. Quem não se recorda, por exemplo, da sua conhecida mesa E1027, que também aparece nas imagens 3 e 4 abaixo?
 
 
3

4

5
 

A Bibendum chair (é verdade, o nome é tão pouco sofisticado), aparentemente sem grande graça, é muito especial.
Por um lado, é das poucas cadeiras balofas que consegue ser ao mesmo tempo elegante; não é comum um corpanzil destes conseguir ser também airoso, efeito para o qual é decisiva a estrutura de base, mais fina.
Por outro lado, é muito versátil. Com o cenário certo, tanto é feliz numa sala de estar, numa sala de espera ou num quarto.
Por outro lado ainda, mesmo parecendo ter linhas volumosas e grosseiras, tem traços subtis que lhe conferem uma harmonia invisível, que não se vê à primeira, só se sente: já repararam que os dois anéis gordos do encosto, apesar de parecerem meios donuts, são na verdade uma repetição mais cheia da base tubular da cadeira, também em meia-lua? Como se, no papel, fossem curvas saídas de canetas diferentes, uma de ponta fina, outra de ponta de feltro? Afinal confirma-se que a teoria da simetria de Gui Bonsiepe serve para alguma coisa. 

[fotografias aqui e aqui]

31/12/2013

Sem título

Nem tudo tem que ter uma explicação. Assim acontece com este post. É apenas uma sala de reuniões, mas é a minha preferida. Cadeiras Eames, mesa AGL, jarro Stelton. Imagem daqui.

13/11/2013

As cadeiras mais feias de sempre #2

E pronto, aqui está mais uma. Nem vou dizer o que isto me pareceu à primeira vista, para não ferir susceptibilidades.


1

2


Chama-se XXL Chair e foi concebida em 2005 por Janneke Hooymans e Frank Tjepkema, na agência de design holandesa Tjep. A cadeira foi apresentada em resposta a um desafio da Arco, que propôs a vários designers mostrarem a sua visão acerca do futuro do mobiliário.

Explicam os designers: As the proportions of people evolve to the standards of western consumerism so may the proportions of objects that surround us, this project is a preview. We designed this chair with super size aesthetics in mind.

Pelos vistos, o tema obesidade mostra-se recorrente no design horripilante de cadeiras. Aliás, a ideia de base é muito semelhante à cadeira At One - ou, pelo menos, parece. Uma estrutura em madeira à qual foi acoplada uma massa, volumosa, mole e disforme. E, mais uma vez, a cor e a textura também não ajudam.

Frank Tjepkema, um dos designers que concebeu esta cadeira (e fundador da própria Tjep), tem currículo elogiado pela Droog, pela Ikea, pela British Airways, pela Academia de Design de Eindhoven, entre muitas outras. Já ganhou por duas vezes o Prémio Holandês de Design. Tem outras criações extravagantes, mas nenhuma tão feia como esta.

Eu até percebo que isto não é propriamente peça para se comercializar, e que fica a pertencer, por agora, ao mundo do design conceptual (tal como a cadeira At One), mas é assim que os designers vêem o futuro do mobiliário? Espero que não. E, sobretudo, espero que até lá também se imponha às cadeiras uma dietazinha.


[Informações aqui e aqui, fotografias aqui e aqui]

06/11/2013

As cadeiras mais feias de sempre #1


O design também tem, como tudo, as suas histórias menos bonitas. Apesar disso, o design de cadeiras sempre me pareceu relativamente imune ao mundo da fealdade (pelo menos, da fealdade grosseira). Uma cadeira, que depende tanto da sua função - no sentido em que tem de haver um assento, um encosto e uma estrutura onde ambos se encaixem, para que seja chamada de cadeira -, pode ser muitas vezes vulgar e desinteressante, mas é à partida um objecto pouco dado a grandes manifestações do feio-de-meter-impressão. Mesmo assim, elas existem. E a quantidade de cadeiras horripilantes que por aí se concebe é tanta que acho merecer uma rubrica semanal. Aqui fica a primeira.

Apresento-vos a cadeira At One. Desenhada por Charlotte Kingsnorth. Criada na sequência de uma proposta da Vitra para a concepção de um sofá da linha Vitra Editions. Vencedora do prédio D&AD Student Award, em 2008. Coisa séria e a sério, portanto.


1

2

3

4

5


6

7


Diz a sua autora que a cadeira At One narra a ligação entre uma pessoa obesa e o seu assento. Juntos, eles transformam-se num só, incham e distendem. At One is a sofa which has been devoured by its obese occupier, explica Kingsnorth. It tells a story of a relationship between a person and their sofa and the evolution of their bond through time spent sitting together

Basta ver o presuntinho da perna direita da frente, cheio de refegos disformes, para perceber logo a ideia. Para não falar do sítio estratégico dos botões da cadeira, que se percebe com a imagem 7. E conclui a designer, com toda a confiança de quem se intitula an industrial designer with an artist's vision, melding together the practical and the sculptural, que a forma criada é grotescamente bela.

Se isto é ou não arte, não comento, porque não falo do que não sei. Mas eu diria que é grotescamente grotesca. Aliás, tive dúvidas sobre se deveria lançar este post à hora do almoço, não fosse provocar reacções viscerais a alguém (literalmente).

Por que razão esta cadeira ganhou um prémio de design industrial? Só porque conta uma história? Pela originalidade? Então e a função da cadeira, a ergonomia, o aspecto estético? Quem quererá sentar-se numa cadeira que reproduz uma senhora obesa esparramada disformemente numa estrutura em madeira? Que, forrada a látex de cor e textura bem sugestivas, parece estar pronta a transformar em bolo alimentar quem nela se sentar? 

Em tempos partilhei aqui a opinião de Stephen Bayley, para quem as cadeiras não são narrativas, são objectos para as pessoas se sentarem. Hoje não podia estar mais de acordo. E, além disso, bom design também é design bonito. Não design que provoca, literalmente, o vómito.

[Imagens aqui, aqui e aqui]

27/08/2013

Gémea falsa



Tulip Chair, Eero Saarinen, Knoll, 1958, aqui



Maurice Burke para a Arkana, anos 60, aqui (parece que Burke se especializou a fazer imitações mais baratas de móveis de design; as imitações vieram posteriormente a ganhar valor por si)

13/08/2013

Pseudo mármores

1

2

3

4

5

6


O design tem muitas vezes destas coisas de tentar fazer parecer: tentar fazer parecer o que tipicamente é (1 e 2 - papel de parede a imitar paredes de cozinha em mármore), tentar fazer parecer o que até podia ser mas não é (3 e 4 - cadeirão Luís XV forrado em tecido com padrão fotográfico de mármore), ou mesmo tentar fazer parecer o que nunca podia ser (5 e 6 - lençóis em tecido com padrão de mármore).

Daí resultam sinestesias: basta olhar para sentir o frio da pedra que não existe, a dureza de um mármore feito de tecido e de papel.


E convenhamos, considerando o preço do mármore de Carrara, sempre se presumiria como mais barata uma destas opções. Mas não tenho a certeza. Aos preços anunciados, pelo menos sai quase tão cara a imitação como o original. Talvez porque, nestes casos, a imitação é ela própria um original. Na verdade, nenhum daqueles objectos quer ser confundido com mármore: o que eles queres é que todos olhem para eles e vejam como, sendo uma coisa, conseguiram a proeza de parecer outra. O fazer parecer, em todos eles, é totalmente assumido como a originalidade.



Papel de parede aqui [Ferm living], cadeirão aqui [desenhado por Maurizio Galante para a Cerrutti Baleri], roupa de cama aqui [Safe House USA]

30/07/2013

Design e ciclismo


1

2

3

4


5

6

7


O cruzamento entre o mobiliário doméstico e o ciclismo não é evidente. Mas, estranhamente, existe. 

A cadeira retratada acima (1 a 3), chamada Tour, tem três coisas de que gosto. Primeira: é feita em madeira de ar deslavado (a moda do deslavado dá para muitas linhas e por isso fica para outro post). Segunda: tem pormenores em amarelo, cor que odiava há uns anos e que progressivamente se foi entranhando nos meus gostos, para agora ser uma das minhas preferidas (sobretudo combinada com a madeira deslavada). Terceira: mistura design limpo, minimalista, com um toque surrealista (ou, para não ferir susceptibilidades, com um toque de disparate). Toque esse que, apesar de não ser subtil, também não é exagerado (a terminação da cadeira a lembrar o guiador de uma bicicleta de corrida, a estrutura tubular da cadeira a lembrar a estrutura das bicicletas).
E uma quarta: foi concebida por um designer português que promete muito - Rui Alves - e que, além de ser designer, vem de uma família de carpinteiros. Que gozo deve dar imaginar uma coisa e a seguir conseguir torná-la em matéria.

O banco (4 a 7), chamado Sella, foi desenhado pelos conhecidos irmãos Castiglioni (Achille e Pier). Para uma peça de mobiliário desenhada em 1957 é bastante arrojada. O mérito dos seus criadores e a sua idade, conjugados com a originalidade das formas, fazem deste banco uma espécie de não-clássico. É uma peça que está condenada a ser sempre irreverente, a nunca se tornar num símbolo de uma época. Pertencerá sempre à feira de curiosidades do design. 
E não é, apesar de ter graça, coisa que comprasse para a minha casa, ao contrário da cadeira Tour. Acho que me sentiria tão desconfortável sentada nele como num monociclo circence, a fazer malabarismo ao mesmo tempo.


[cadeira Tour, Rui Alves, 2011, fotografias tiradas daqui]

[banco Sella, Achille e Pier Giacomo Castiglioni, 1957, produzida pela Zanotta; fotografias tiradas daqui]   

18/06/2013

Ele há coisas (de design): Grand confort, Sans confor, Dommage a Corbu

1
2

3

4

5
Stefan Zwicky concebeu uma cadeira inspirada na LC2 de Le Corbusier/Jeanneret/Perriand (também designada por Grand Confort Model No. LC2 Club Chair), a que chamou Grand confort, Sans confor, Dommage a Corbu.
Os trocadilhos do nome têm graça, mas duvido que alguém ache graça a sentar-se num mono feito de cimento armado e varas de ferro da construção civil. O estrago (dommage) é total, sobretudo considerando que, com o uso, a LC2 se torna numa poltrona do mais mole que há, envolvendo as pessoas como se estivessem sentadas num monte de claras em castelo.
Nem consigo perceber se isto é assumido como obra de arte ou como peça de design. Não é coisa que me agrade, seja uma ou seja outra. Mas deve ser um mimo ter de chamar uma grua sempre que se quer mudar a cadeira de sítio (assumo que no jardim, já que dificilmente se consegue ter uma cadeira de cimento armado em casa sem reforçar a estrutura resistente do edifício).

12/06/2013

A cadeira mais famosa do mundo

Eu prometo que o meu próximo post não será sobre cadeiras. E prometo que não volto a fazer outro post com 27 imagens e mais de 1500 palavras.
Não é que eu queira abusar da paciência de quem por aqui passa, mas a cadeira de que vou falar é realmente especial. Atravessou, até agora, três séculos diferentes. Suportou mil e uma mudanças de paradigma no design e no mobiliário. Sobreviveu ao Arts and Crafts, ao minimalismo, ao funcionalismo. E sentou milhões e milhões de pessoas. Sem exagero.

É esta (1). Chama-se, apenas, cadeira n.º 14. Mas é a cadeira mais famosa do mundo.


1

Podem alguns leitores não saber o nome dela ou não conhecer o seu fabricante, mas de certeza que a conhecem de vista. É utilizada pelo mundo fora, sobretudo em cafés, restaurantes e espaços públicos - na maior parte dos casos, em versões imitadas. Tanto podemos encontrá-la num café numa aldeia perdida algures em Portugal (mais provavelmente numa variante baratucha em metal forrado a plástico branco, a condizer com a arca frigorífica da Olá), como, numa interpretação mais arejada, pintada em cores garridas para um restaurante da moda no Chiado, ou mesmo, na sua versão original, em madeira maciça e com um ar distinto, numa qualquer Kaffeehaus chique de Viena.
É, de certa forma, uma cadeira invisível, não fossem os nossos olhos estarem já tão habituados ao seu desenho e à sua presença. E é verdade que, para o comum dos mortais, parece uma cadeira perfeitamente ordinária. Mas não é. 
 
De nome singelo, significando provavelmente que é a décima quarta filha da família Thonet, grande empresa germano-austríaca de mobiliário do séc. XIX, a cadeira n.º 14 foi criada em 1859 por Michael Thonet (retratado com os seus cinco filhos, que herdaram o negócio Thonet - 2; logo abaixo, estão os actuais cinco herdeiros do negócio - 3). Tem, por isso, mais de 150 anos (!). Aqui está ela, mais variação, menos variação, a acompanhar a História e as histórias de muitas famílias (4 a 10).

 
2

3

4

5

6

7

8

9
  


Foi modernizada e reinventada sucessivas vezes (mesmo nas fotografias antigas notam-se algumas alterações), sem perder o seu espírito e o seu carácter (11 a 18). Até a Muji reinterpretou a cadeira n.º 14 (17). Numa versão muito aproximada ao que era no séc. XIX, muito embora mais arejada, a cadeira ainda está hoje em produção por várias empresas Thonet sucessoras da original. E a técnica usada para o seu fabrico ainda é a mesma de há cem anos. 











Aliás, a técnica de fabrico da cadeira n.º 14 é um dos factores que a distingue das suas contemporâneas. É uma técnica curiosa e, na altura, foi revolucionária, como acontece frequentemente com os grandes clássicos do design.

A cadeira n.º 14 resultou da aplicação de um método de dobragem da madeira com vapor (chamado bentwood), aperfeiçoado por Michael Thonet depois de várias tentativas fracassadas. E digo aperfeiçoado porque a técnica de dobrar madeira com vapor não era desconhecida (já era usada pelos índios americanos, ainda que para outros fins), mas nunca havia sido pensada para a produção de mobiliário (pelo menos desta forma). Em concreto, o método usado por Thonet consiste no amolecimento de madeira de faia através do vapor, durante cinco horas. Depois disso, há apenas três minutos para moldar a madeira, antes que esta comece a quebrar.

O resultado é uma peça de madeira maciça moldada de acordo com a vontade do Homem. Abriu-se, com Thonet, um mundo infinito de possibilidades no mobiliário, cuja produção deixou de depender de técnicas mais básicas - como esculpir e entalhar peças sólidas de madeira - para se chegar ao objecto pretendido. A partir da cadeira n.º 14, e por causa dela, a técnica bentwood foi uma das bases do design industrial moderno. E foi de tal forma aperfeiçoada na altura que hoje não é muito diferente do que era há cem anos (19 a 22).







A utilização daquela técnica na produção da cadeira n.º 14 fez realmente a diferença. Ainda assim, a verdadeira inovação trazida por esta cadeira não está tanto na técnica, mas sim na estratégia de comercialização que Thonet implementou.

Na realidade, mais do que um grande exemplo de design industrial (e um dos primeiros, no verdadeiro sentido da palavra), a cadeira n.º 14 é também um modelo notável de empreendedorismo.
Tudo nela foi intencional, e tudo se reconduziu ao alcance de dois objectivos muito concretos: Thonet ambicionava criar a primeira cadeira produzida em massa e a primeira passível de ser vendida a um preço acessível, para que todos a pudessem comprar. E, para isso, planeou tudo ao detalhe, de modo a que o resultado pudesse ser uma cadeira bonita, simples, confortável, de boa qualidade e barata.
É, no seu verdadeiro sentido, uma cadeira de design, do princípio ao fim.

Senão repare-se:

Eu não sou histérica por cadeiras de palhinha, mas tenho de reconhecer que a cadeira n.º 14 é bonita (quem não gostar de palhinha pode sempre comprar a cadeira n.º 14 com assento em madeira maciça). E a palhinha tinha uma razão de ser (23). Sendo uma cadeira desenhada sobretudo para cafés e restaurantes, a palhinha permitia que os líquidos entornados escorressem para o chão, não ensopando a cadeira.

A cadeira n.º 14 foi também intencionalmente pensada para ser modesta, mas diferente. Destoava das modas de meados do séc. XIX pela sua simplicidade, despindo os restaurantes e cafés da altura da opulência decorativa que se usava. Destoava também do resto da oferta da empresa Thonet, que continuou paralelamente a produzir mobiliário cheio de curvas e detalhes, para agradar a um público mais Art Nouveau (veja-se a conhecida cadeira de baloiço).
A cadeira era propositadamente simples. E isso era moderno. Tanto que se tornou companheira de intelectuais, artistas e outras personalidades, tendo sido usada por Brahms, Lenine, Le Corbusier, Picasso, Einstein.

Por outro lado, a cadeira n.º 14 foi feita para ser confortável. E para ficar ainda mais confortável com o uso. Na verdade, à medida que os parafusos e a madeira vão afrouxando, parece que a cadeira se torna mais cómoda. Digamos que envelhece bem.

Além disso, Thonet não queria descurar a qualidade. O trabalho posto no seu fabrico era tão dedicado que as cadeiras passavam de geração em geração, e muitos dos exemplares do séc. XIX ainda hoje são usados.

Mas todas essas exigências seriam em vão se, simultaneamente, a cadeira a produzir não fosse barata. E é aí que reside a grande diferença da cadeira n.º 14 em relação às restantes peças de mobiliário da sua época: o factor preço foi ponderado desde o primeiro momento como um factor determinante, desde a própria concepção da cadeira.
Para ser barata, Thonet determinou que a cadeira n.º 14 seria composta pelo mínimo possível de partes, todas estandardizadas (é composta por seis peças em madeira - dois discos, duas pernas e alguns arcos -, unidas por meia dúzia de parafusos - 24). Ainda hoje é assim (25). Isto permitia, por um lado, a sua produção por trabalhadores fabris e, por outro, um transporte e uma armazenagem muito eficientes, já que desmontada a cadeira ocupava muito pouco espaço e permitia a arrumação de um grande número de exemplares num espaço reduzido (26).

Essa foi, aliás a grande revolução: ao ser passível de ser desmontada facilmente e sendo composta por poucas partes, todas elas padronizadas, a cadeira n.º 14 podia ser transportada  com custos muito baixos. Num caixote com um metro cúbico cabiam 36 cadeiras desmontadas (26), o que possibilitou a sua venda pelo mundo fora.
No fundo, a empresa Thonet foi a IKEA do séc. XIX, numa clara antevisão do que viria a ser a produção e a comercialização em massa.


 



 

 
Tendo sido concebida para isso, a cadeira n.º 14 foi, de facto, um sucesso. Em meados de 1870, a fábrica de Thonet produzida 2000 unidades por dia e empregava mais de 4000 trabalhadores, que produziam as cadeiras em autênticas linhas de montagem, muito antes do tempo de Henry Ford. Em 1913, a fábrica tinha mais de 6400 trabalhadores e produzia 1,8 milhões de peças de mobília por ano. Até hoje, foram produzidas mais de 50 milhões de cadeiras n.º 14.
 
Como se explica, apesar disso, que a filha da revolução industrial e a mãe da actual indústria de mobiliário não tenha sido esquecida ao fim de 150 anos?
Stephen Bayley disse tudo, a propósito da reinterpretação da cadeira n.º 14 pela Muji: Should a chair be a narrative, a theorem? Or something to sit upon? Certainly, chairs that are expensive, yet useless, one-offs are testimonies to our crisis of nihilistic self-loathing, but, as a narrative means, four legs and a seat have a limited expressive range. You need a tame curator to translate. Meanwhile, a chair that is cheap to make, good for sitting on and noble of aspect tells a rather convincing story of its own.
Ou seja, foi a constância da simplicidade da cadeira n.º 14, em conjunto com a lealdade à sua função, que a manteve viva.

A cadeira n.º 14 é agora considerada uma peça de design e, por isso, é cara. Custa perto de 600 euros (o modelo do nó, na pic 16 acima, fica a mais de 1000 euros). Ficou a sua imagem, mas o seu espírito, aquele que Michael Thonet lhe dera, de ser uma cadeira barata, acessível a todos, desapareceu. Hoje é uma cadeira cheia de história, mas vazia de sentido. E isso é pena. De certa forma, parte do seu design perdeu-se.




Informações tiradas daqui, daqui, daqui, daquidaqui e daqui. Vídeo explicativo aqui.