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08/06/2013

E agora um bocadinho de política

Eu sei que disse aqui que neste blogue não se discutia política. Mas resolvi abrir uma excepção.


1
John F. Kennedy antes do debate televisivo com Richard Nixon, Estúdios CBS, Chicago, Illinois, 1960
Foi utilizada a cadeira PP503 de Hans Wegner, criada em 1949.

2
Imagem do debate entre Kennedy e Nixon, usando ambos a cadeira PP503 de Hans Wegner, 1960


3
As cadeiras PP503 de Hans Wegner usadas no debate de 1960, agora parte da colecção do Smithsonian

4
Fotografia de Barack Obama e de Dmitry Medvedev a negociar possível acordo de redução do arsenal nuclear, sentados em cadeiras PP503 de Hans Wegner, Copenhaga, 2009

5
A cadeira PP503 de Hans Wegner, apelidada pelo seu designer de The Round One e, pelo público em geral, por The Chair


É possível que qualquer um dos retratados estivesse na mais completa ignorância acerca da história da cadeira onde estavam sentados. Em qualquer caso, era apenas a cadeira que, a certa altura, foi designada como a "cadeira mais bonita do mundo".
É ainda mais provável que não soubessem o nome pelo qual a cadeira é conhecida - The Chair -, expressão que, aparentemente, também se utiliza na gíria para a cadeira eléctrica.

E isto é o mais próximo que o Pufe se aproximará da política.

06/06/2013

Design e mulheres nuas

Pronto, eu confesso. O título deste post foi propositamente escolhido para desconcertar um bocadinho os leitores. E tornar isto tudo menos sério, porque tudo o que é muito sério é uma perda de tempo.
Não é que não se vá falar de mulheres nuas - vai-se falar, imagens incluídas -, mas também há mulheres vestidas. Tudo dentro do limite da decência e do decoro, que este blogue tem classe e não é para conversas impróprias.

E não, eu não tenho nenhum interesse especial em relacionar assuntos atrevidos com design, apesar de já ser o segundo post sobre estes temas. É coincidência. Lembrei-me de algumas imagens que ficaram para a história do design (e que também retratam mulheres) e não resisti a falar sobre isso - sobretudo porque, transposta para os dias de hoje (e nos dias de hoje ainda há exemplos), acho a coisa ligeiramente extraordinária.

Deixemo-nos de conversa fiada e passemos ao que interessa. Ou seja, às imagens que, pelo menos para mim, são representativas da relação entre as mulheres - enquanto figura retratada - e o design. Datam de 1926 a, pelo menos, 2010. Uma parte das imagens pertence a campanhas publicitárias das marcas que produziram as cadeiras (2, 3, 4, 12, 14, 15), outras não. Algumas são, inclusivamente, apenas fotografias ditas artísticas, para as quais foram escolhidas cadeiras de design como props (1, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 13). Para facilitar, a descrição de cada uma delas segue depois da fotografia.


1
Mulher (Lis Beyer or Ise Gropius) sentada na cadeira Wassily de Marcel Breuer, c. 1926

2
Anúncio de cadeira de escritório da marca Burroughs, 1947

3
Anúncio da cadeira Tulip, de Saarinen, produzida pela Knoll, 1965

 
4
Anúncio da cadeira Tulip, de Saarinen, produzida pela Knoll, c. 1960

5
Françoise Hardy sentada na Eames Lounge Chair, data desconhecida

 
6
Christine Keeler a posar com cadeira a imitar a Series 7 de Arne Jacobsen, 1963

 
7
Christine Keeler sentada numa cadeira a imitar a Series 7 de Arne Jacobsen, 1963


8
Sequência de fotografias de Christine Keeler sentada numa cadeira a imitar a Series 7 de Arne Jacobsen, 1963

9
Raquel Welch na cadeira Egg de Jacobsen, data desconhecida

Cadeira Panton, de Verner Panton, usada em artigo intitulado "Como despir-se em frente ao seu marido" (How to undress in front of your husband), revista britânica Nova, 1970

Kate Moss sentada na cadeira Panton, de Verner Panton, Vogue britânica, 1995

Anúncio criado para o banco Tom Tom, da Brandex Design, 2003

Angelina Jolie sentada na Smoke Chair, criada por Maarten Baas para a Moooi, 2010 


Anúncio da cadeira Emeco 1006, da Emeco, estando sentados à esquerda um sargento e, à direita, uma socialite parisiense, 2008

Fotografia da cadeira Eros, de Philippe Starck para a Kartell, data desconhecida


A utilização da figura da mulher para dar a conhecer objectos de design não era, nos tempos idos, insólita. Era até bastante comum. Na perspectiva de que aqui falei, o design foi em certa medida posto ao serviço de uma espécie de reeducação do homem dito moderno, atento às novas modas e às novas tecnologias, e, nesse contexto, é claro que a figura feminina tinha um papel importante na publicidade. Até porque na maior parte dos casos era o homem o responsável pelo sustento da família. Se havia alguém que devia ser convencido a comprar móveis de design, era o homem, não a mulher.
Veja-se, por exemplo, o anúncio dos anos quarenta de uma marca chamada Burroughs, que recorre a uma simpática e sorridente funcionária de escritório para promover as virtudes da cadeira, e que, acéfala mas alegremente, testemunha que women aren't supposed to know much about engineering. But I think they recognize quality just about as quickly as men do. And the girl who sits all day at work soon learns a few things about quality in chairs (2).
Ou, ainda, o anúncio dos anos sessenta da cadeira Tulip (3), criada por Saarinen para a Knoll, que, apesar de retratar uma mulher moderna, de calças e tudo, sentada numa posição pouco convencional, a embrulha em papel pardo com a cadeira e pergunta ao leitor may we send you an illustrated brochure?, como se a mulher fosse, na graçola publicitária, uma espécie de adereço decorativo oferecido com a Tulip chair.

Naqueles tempos, essa instrumentalização da mulher era real. Não há como negar. Mas transpô-la para os dias de hoje é estranho (não falo, naturalmente, da utilização da figura da mulher para outras finalidades - nem me atrevo a nomeá-las -, mas apenas daquela que diz respeito à comercialização de objectos de design).

No entanto, isso ainda acontece. Basta ver o anúncio da cadeira Eros, criada por Philippe Starck para a Kartell (15). Será a mesma coisa? O objectivo é o mesmo? Não me parece. Mesmo fotografada como veio ao mundo, a mulher do anúncio da Kartell não foi sexualizada. Nem sequer está sentada numa posição muito feminina. Apesar de elegante, a postura da mulher é quase fetal, embrulhada em si mesma dentro da concha de plástico da cadeira. Está completamente nua, mas não é uma fotografia obscena. Longe disso. É o chamado nu decente. A modelo, inclusive, tem um ar plácido e sereno, ligeiramente tímido. Veja-se que, ao contrário das mulheres de outras fotografias, cuja força está no olhar fixo e provocador, esta não olha para a câmara.
Não é, pois, a quantidade de pele mostrada que faz a diferença: será porventura mais sensual a fotografia de uma Angelina Jolie mais tapadinha, a fulminar o fotógrafo com o olhar (13), ou de uma Christine Keeler que à vista só tem braços e pernas (7), do que esta, uma mulher totalmente nua sentada em cima de uma cadeira transparente. O que, aliás, não deixa de desconcertar, porque não se alcança o objectivo. Se a cadeira se chama Eros, e se é publicitada com uma mulher nua, por que razão aparece ela assexuada e com um ar zen? Não consigo perceber.

Sem prejuízo destas reflexões aleatórias, é engraçado ver como estas fotografias - tanto as publicitárias como as supostamente artísticas - ilustram tão bem os vários papéis que as mulheres foram assumindo na sociedade, e a forma como a sua postura se foi alterando ao longo do tempo (apenas, claro, por referência exclusiva ao que resulta das fotografias, e independentemente da personalidade de cada uma das mulheres retratadas, que desconheço). Basta identificar algumas: há a mulher submissa e bem comportada (2), há a mulher moderna, discreta, descontraída e com classe (3, 5), há a mulher irreverente fora de tempo, ou em modo surrealista (1, 4), há a mulher objecto (10, 11, 12), há a mulher igual ao homem (14), há a mulher assexuada (15), há a mulher sexy e poderosa (6, 7, 8, 9, 13).

Até agora falei mais das mulheres. E perguntarão os leitores: então e as cadeiras? Pois bem, as cadeiras falam por si. E dizem muita coisa. Desde logo, dizem muita coisa acerca da sua capacidade de adaptação à atitude de quem nelas se senta.

Reparem:
A cadeira Wassily (1) causou, na altura em que foi criada - nos anos 20 -, uma revolução no design de cadeiras, o que também transparece na postura e na imagem da mulher fotografada (sobretudo considerando que corria o ano de 1926).
A mulher descontraída com classe - por exemplo, Françoise Hardy - usa igualmente uma cadeira descontraída com classe - a Eames Lounge Chair, uma poltrona mole e fofa, mas cheia de estilo (5).
A mulher igual ao homem usa a mesma cadeira que este usa, direita, simples e sem curvas excessivas (14). A única diferença - e não é uma diferença inocente - é que a cadeira da mulher é feita em metal polido e tem brilho e a do homem, em metal escovado, é baça.
Por outro lado, as mulheres representadas como sexy e poderosas estão sentadas em cadeiras também elas sexy e poderosas: não há cadeira mais curvilínea que a cadeira Egg (9), ou mais carnuda que a cadeira Panton, que, então em vermelho, parece lamber quem nela se senta (10, 11), ou mais sado-masoquisticamente erótica que a cadeira Smoke, que, com o seu ar meio gótico, feita em madeira queimada pelo fogo (!), agradará a qualquer dominatrix (13).
Aliás, e a propósito da cadeira Panton, quem não a conhecer dificilmente pode imaginar, só com as imagens acima (10, 11) que a mesma também é produzida para crianças, em tamanhos pequenos e cores vibrantes, e assumindo uma personalidade divertida e infantil.

Ou seja, a cadeira, um objecto tão vulgar, tão trivial, pode ter mil caras. E algumas dessas caras podem ruborizar os mais incautos.

Deixo uma nota final: a imaginação não tem limites e, por isso, quem, como eu, por curiosidade científica, andar inocentemente pela internet a procurar imagens através das palavras naked women on chairs, ou mesmo naked women on design chairs, poderá encontrar algumas surpresas. Pista: não tem muito que ver com design. Depois não digam que não avisei.

04/06/2013

Cadeiras 101


Quem me conhece sabe que tenho uma pancada ligeira por cadeiras. Ligeira porque não pode ser de outra forma, que não há nem orçamento nem apartamento para satisfazer pancadas maiores. Além disso, a minha outra pancada - não tão ligeira - pela função (da função) no design também não me permitiria ter cadeiras só por ter, expostas como peças de museu. Cadeira que se preze é para ser usada. Não haveria nada de mais sinistro, na minha cabeça, que uma sala cheia de cadeiras vazias e inúteis, viradas umas para as outras numa conversa muda e cega. 

A propósito de cadeiras, lembrei-me dos meus amigos do IADE, que este ano terminam o curso (devem estar mesmo nos últimos dias de aulas, por esta altura). Para eles, e porque sei que também gostariam de conhecer este autor (se não o conhecerem já), aqui ficam alguns excertos de um ensaio de Bruno Munari sobre cadeiras. 


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For years and years architects and designers all over the world have been designing thousands of chairs, upright chairs and armchairs, all different and all the fruit of infinite inventiveness. I have even designed two or three myself. But it seems that the problem has not yet been altogether solved, because architects and designers all over the world are still going on designing chairs, just as if all their efforts up till now had been wrong.
A very thorough market research campaign on people's taste in chairs has established that they must answer the following requirements: they must be comfortable, luxurious, rustic, fanciful, strictly technical and functional, broad, narrow, high, low, hard, soft, flexible, elegant, rigid, compact, large and impressive, cheap, good value, obviously expensive and socially impressive, made of one single material, made of a variety of materials; while the favoured materials are rare and rough, as well as refined and crude.
(...)
They can be made of carved wood, curved wood, pressed wood, plasticized wood; they can be dovetailed, screwed, glued or pegged; they can be sandpapered, stained, painted, varnished, matt, semi-glossy or perfectly dazzling. And all this goes for all kinds of wood from poplar to ebony.
Or they can be made of iron or steel, welded, bent, burnished, enamelled, chromium-plated, nickel-plated, pressed, rubberized, magnetized, plated with brass or copper. They can be extruded, tubular, in square section or in oblong, in U-section, T-section, E-section, XYZ-section.
(...)
With all these materials a good designer can make a chair that may be dismantled, a folding chair, a swivel chair, a fixed chair, a chair on castors, a chair that becomes a bed, a chair that one can raise or lower, a chair with a reclining back, a rocking chair, a chair for anyone anywhere at any time. In Relax, Delux, Rex, Tex, Mux; in velvet, velveteen, cotton, canvas, travertine; in nylon, orlon, maulon, moron.
My phone rings. It is the editor of a Contemporary Furnishing Review. He wants a design for a new chair, for publication in the next issue...

Estes excertos, com um leve tempero sarcástico, dizem muito sobre o que deve ser criar um objecto de raiz. Dizem muito, sobretudo, acerca das dificuldades (ou desafios) com que os designers se deparam, a cada passo e a cada decisão, por mais insignificantes que possam parecer. E, em especial, descrevem com graça as infinitas possibilidades de conjugação de materiais, acabamentos, técnicas e finalidades que, no final, fazem nascer uma cadeira. Uma simples cadeira pode ser o resultado de milhares de escolhas, uma depuração até ao limite da forma e da função. E, ainda assim, ser, como dizia Bruno Munari, a chair for anyone anywhere at any time.

Um dia gostaria de falar sobre outros ensaios de Bruno Munari. E, também, sobre a ligação entre o design e a arte. Mas fica para outros posts.

O ensaio a que pertencem os excertos referidos acima, com o título And That's Not All..., foi publicado no livro Design as Art, uma colectânea de ensaios de Bruno Munari, Penguin Books, 2008 (publicado pela primeira vez em 1966, pela Editori Laterza). Os desenhos são de Bruno Munari, publicados no mesmo livro a acompanhar este ensaio, tirados daqui.


02/06/2013

O não-design

                                                                                 
                                                                               
O design é, por natureza, matéria que vive do esforço permanente de inovação dos que nele (ou com ele) trabalham. Todos querem ser originais, todos querem criar algo verdadeiramente novo. Fazer diferente é, para muitos, imprescindível para fazer melhor. Fazer parecido, mesmo que seja para melhorar alguma coisa, não é valorizado da mesma forma.

Mas, nos dias que correm, fazer diferente é cada vez mais difícil. Fazer diferente acaba por ser, muitas vezes, equivalente a misturar o existente, agitar bem e dar-lhe outro embrulho, outra função, outra existência. E é nesse baralhar e dar de novo que muitas vezes surgem soluções fantásticas. Ou não fosse a reciclagem de ideias, ela própria, fonte de originalidade.

Apesar disso, mas no meio dessa ânsia de fazer diferente, tem surgido uma moda curiosa, cujo mantra se baseia, provavelmente, nas seguintes perguntas sucessivas:

E se, em vez de mostrarmos o design, o tornarmos invisível?
Melhor: e se, usando o design, descaracterizarmos (ou, até, suprimirmos) o próprio objecto?

Estas perguntas, à primeira vista absurdas, podiam levar a um design puramente conceptual, ou a um design experimentalista, que se esgotaria apenas nisso. Mas não. Por estranho que pareça, essa tal moda - uma espécie de não-design - tornou-se, em certa medida, comercial.
Vejam-se, por exemplo, os três objectos que passo a descrever.


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O primeiro chama-se Chairless (1 a 4) e é qualquer coisa entre cinto/correia/fita criada por Alejandro Aravena em 2010, para a Vitra. Foi inspirado nas correias que os membros de uma tribo nómada ancestral que vive entre a Bolívia e o Paraguai usam para se manterem sentados no chão (5). De acordo com a descrição da marca, este cinto permite que os seus utilizadores se sentem de uma forma relaxada, sem nenhuma cadeira ou apoio de costas, oferecendo uma solução perfeita para quando não há cadeiras à mão (almoçar no parque, esperar num aeroporto, assistir a um concerto, ler na praia, etc). Muito leve e compacto (outra coisa não se esperaria de um cinto, diria eu), o cinto Chairless pode ser levado para todo o lado, aliviando a coluna e as pernas, de modo a que o utilizador não tenha de abraçar os próprios joelhos para se manter sentado, ficando com as mãos livres para fazer outras coisas.

Sobre o objecto em si, enfim, será com certeza muito útil para quem gosta de se sentar no chãozinho duro, frio e sujo que toda a gente pisa. Sobretudo num aeroporto, não vejo melhor forma de esperar seis horas pelo próximo voo que não sentada no chão, pelo menos enquanto não se é atropelado por uma vertiginosa mala de rodinhas. Aliás, é certamente muito relaxante assistir a um concerto, almoçar no parque ou ler na praia assim toda enrolada no chão, de pernas dormentes, atada com uma correia. 
Mesmo que haja alguém que tenha uma predilecção por usar o chão como assento, duvido que uma fita para amarrar as pernas e segurar as costas seja essencial para o efeito. Quem quiser pode atingir exactamente a mesma dor de costas, de pernas e de glúteos sentando-se à chinês, ou sobre os joelhos. Ou, querendo usar fita, há sempre as correias de bagagem da Samsonite que, além de fazerem o mesmo efeito visual, têm a vantagem acrescida de, tendo cadeado, proporcionar um assento mais seguro.

Parodiar este objecto é realmente irresistível. Mas, graças à parte, a verdade é que o cinto Chairless deixa uma mensagem insólita: é o próprio design que elimina o objecto a criar. O ponto de partida - criar um assento, uma cadeira - não é a base do ponto de chegada, pois o resultado é, no final, uma não-cadeira. Ou, se quiserem, o design desfigura - literalmente, porque destrói a figura que a ela está associada - a ideia de cadeira. No fundo, é a pessoa que, com o cinto, se transforma na própria cadeira, é da fusão entre um objecto e o utilizador que nasce um outro objecto, aquele que se pretendia criar.


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O segundo objecto chama-se Selfshelf (6 a 9) e é uma estante, criada por Nicole Van Schouwenburg em colaboração com Irene Klinkenberg, para a Skylla, loja da primeira. O nome é apropriado, pois a ideia é transformar o que se costuma pôr na estante (livros) na própria estante, que assim fica camuflada. A estante, em si, é um suporte forrado como se fosse um livro (é o "livro" de baixo, nas figuras), que depois é aparafusado à parede de forma invisível (9). O resultado parece um truque de ilusionismo: os livros parecem flutuar, sem suporte, junto à parede.


Na verdade, a Selfshelf só pode ser uma estante com problemas sérios de identidade. É uma estante em forma de livro que não quer assumir ser estante, mas que também não é livro. Nem quer ser. O nome do pseudo livro que serve de estante é uma espécie de disclaimer - para que fique claro, ceci n'est pas un livre. Mas ceci n'est pas une étagère aussi. Será assunto para psiquiatra resolver. Adiante.

A coisa tem alguma graça e, tal como no cinto Chairless, a ideia de base é parecida: o design anula-se a si mesmo. Porque o resultado, no final, é também uma não-estante, como a não-cadeira. Mas, se no cinto Chairless a cadeira (isto é, a função de cadeira) acaba por resultar da conjugação do utilizador com o cinto, na estante Selfshelf a estante deixa de existir quando é usada. Não se vê a função de estante, é apenas um molho de livros suspensos na parede. A estante torna-se invisível quando é usada, e visível quando não é.





O terceiro objecto chama-se Invisible (10 e 11) e é uma cadeira criada por Tokujin Yoshioka, em colaboração com o Presidente da Kartell, marca que apresentou este móvel no Salone del Mobile em 2010. A cadeira faz parte de uma colecção maior, chamada, precisamente, de The invisibles, e composta por mesas, sofás, cadeiras e bancos.
ideia de base reside, aparentemente, no facto de a tecnologia ter reduzido as experiências sensoriais e de haver necessidade de recuperar essas experiências - fazendo, por exemplo, com que tenhamos consciência das fronteiras do nosso corpo (como sucede com esta cadeira).
Como o próprio nome já deixa adivinhar, o objectivo da cadeira é desaparecer. Feita em policarbonato sólido, a cadeira Invisible foi moldada de forma a que, de determinadas perspectivas, não se veja de todo. Ironicamente, quando se consegue ver, tem uma aparência primária, grosseira, espessa (10).
Quando está a ser usada, parece que o utilizador flutua sentado (11). É uma espécie de design sci-fi.

A tendência para o mobiliário transparente já não era novidade ao tempo da criação da cadeira Invisible. Basta lembrar a Ghost Chair de Philippe Stark e tantos outros objectos feitos em acrílico. Mas, o que se pretende com a cadeira Invisible é mesmo suprimir visualmente a cadeira, o que não sucedia com os anteriores móveis transparentes, em que a transparência era apenas um toque de irreverência (o tal fazer diferente, às vezes só porque sim).

Digamos que a cadeira Invisible é o cúmulo da discrição. Uma cadeira tão discreta que nem se vê. O minimalismo levado ao limite. Ainda assim, e saindo do plano conceptual - porque aqui falamos de móveis que chegaram a ser produzidos -, não consigo perceber bem qual a ideia de disfarçar um assento. Por que razão se há-de esconder uma cadeira? Ou mesmo uma mesa, um sofá, um banco? Sobretudo quando os resultados mais imediatos serão, nos primeiros tempos, nódoas negras causadas por múltiplas caneladas dadas na mobília invisível?  
É que, neste caso, e ao contrário da estante Selfshelf, a cadeira só existe quando é usada, porque só aí se percebe que ali está uma cadeira. Se ninguém se sentar nela, não se vê, é como se não existisse.

Estes três objectos são entre si muito diferentes, a vários níveis. Mas a ideia transversal que está na base de todos eles é, parece-me, apenas uma: a de que o design enquanto processo nem sempre leva ao design enquanto resultado. Em algumas situações, o resultado é, pura e simplesmente, o não-design. O design nega-se a si mesmo. O que se objectifica é, apenas, o uso que se dá ao não-objecto. O objecto, em si, desaparece: ou no processo de design, como no cinto Chairless, ou quando é usado, como na estante Selfshelf, ou quando não é usado, como na cadeira Invisible. No fundo, o uso passa da acção para o objecto, numa ode à função. 

29/05/2013

Ele há coisas (de design): Favela


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Agradeço a gentileza, mas, se eu quiser encher os dedos de farpas ou esfolar os joelhos em bocados lascados de madeira, posso fazer isso sem gastar milhares de euros, não é?


[A cadeira (1) e a cama (2) chamam-se, ambas, Favela. Foram desenhadas por Fernando e Humberto Campana, designers brasileiros. São produzidas pela Edra - a cadeira, desde 2003, a cama, desde 2013]

24/05/2013

Mini


O design de móveis para crianças pende normalmente para a infantilização. Dependendo da tese pedagógica predominante, as cadeiras, mesas e afins vêm em cores garridas porque faz bem estimular as crianças (1), ou, pelo contrário, em cores pastel, porque, afinal, muita estimulação faz mal (2). As formas são, em regra, grosseiras e sem arestas, roçando o desenho animado (1, 2, 3). E, em casos extremos, parecem a materialização infeliz de um pesadelo saído do Maravilhoso Feiticeiro de Oz (4).


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Mas também há a tendência oposta - fazer do mundo das crianças um mundo dos adultos em ponto pequeno. Ainda que menos sisudo. É aí que aparecem, por exemplo, as paredes pintadas com cores escuras, os móveis pretos ou cinzentos, ou os posters artísticos sofisticados.
É também aí que aparecem os móveis de design em miniatura.

É costume dizer-se que tudo o que é pequeno tem graça. Não diria tudo, mas é verdade para muita coisa. Inclusive para móveis que reproduzem peças de design em tamanhos infantis. Há para todos os gostos: cadeiras Eames (5 a 8), Bertoia (9 e 10), Risom (11), Jacobsen (12), Mies van der Rohe (13),  Saarinen (14), entre muitas outras. Uma espécie de Portugal dos Pequenitos aplicado ao design.





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Não tenho uma opinião muito certa sobre isto. É giro, está bem de ver. E é verdade que as crianças devem utilizar móveis adequados à sua escala, para garantir a sua segurança e o seu correcto crescimento. Mas encolher móveis especificamente desenhados para adultos não será mais uma forma de encurtar a infância das crianças, puxando-as precocemente para o mundo das pessoas crescidas - ainda que, apesar de tudo, inofensiva? Além disso, não fica ligeiramente ridículo um móvel de adulto reduzido ao tamanho de uma criança, como se fosse um brinquedo? Quando ainda por cima quem lhes achará verdadeira graça será apenas o conjunto de adultos que conhece esses objectos de design? Faria sentido, aos olhos de quem criou originalmente estas peças, reduzi-las para tamanhos infantis, ou não prefeririam estes designers que as crianças usassem móveis feitos a pensar nas suas proporções, nos seus interesses, capacidades, necessidades de desenvolvimento, como alguns fizeram (1, 2, 3 e 15)? Ou não será, mesmo, mais um sintoma de uma cultura que se centra nas crianças, tornando-as egocêntricas, inseguras, pouco resilientes, pouco esforçadas, pouco capazes de superar problemas, de construir soluções? Uma cultura que lhes molda um assento de design à sua medida, e que não permite que sejam elas a encontrar e a fazer o seu lugar?
O ar entediado e ligeiramente amuado da criança sentada na Womb Chair (14) não dirá tudo? Ou o comentário do fabricante da cadeira Risom em versão miniatura (11), quando diz que estes pequenos móveis são ideais para as crianças brincarem aos chás "mini-modernistas" (!)?

Estes mini-móveis têm graça, mas ter graça não chega. Aliás, um pormenor que não tem graça nenhuma é o preço. Talvez por não ser pequeno, ao contrário das cadeiras. É preciso ter muito amor ao design (que por amor às crianças não é de certeza) para gastar mais de dois mil euros numa Womb chair tamanho XXS que só serve até aos 6 anos e que, até lá, sofrerá as mais cruéis sevícias infantis e será múltiplas vezes coberta de baba/papa/vomitado/chocolate/substâncias não identificadas. Ou, na melhor das hipóteses, recolorida com lápis de cera e canetas de feltro. Porque não há espírito mais crítico do design  - e, ao mesmo tempo, menos respeitador - do que o as crianças.

Entretanto, alguém me avise por favor se, nos últimos tempos, o jogo das escondidas ou o jogo da apanhada foram substituídos por chás "mini-modernistas". Só para ficar informada.




Fontes das imagens: assinaladas em cada uma das fotografias.