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18/05/2017

Nesting, Anglepoises e Bath


Quando estava grávida do meu primeiro filho, aquela coisa que dá pelo nome de nesting não me fez arrumar os lençóis do berço por cores, nem comprar todos os cueiros, tapa-fraldas, fofos e demais parafernália de puericultura das lojas de Campo de Ourique. Fez-me, infelizmente, procurar com fervor um objeto de design que pudesse oferecer ao bebé. Um móvel, um sofá, só para ele, que tivesse uma história, mas com o qual ele pudesse também crescer e construir as suas histórias, e um dia levá-lo para a sua própria casa. Lembrei-me logo da Womb Chair, do Saarinen, uma das minhas poltronas favoritas. E logo o meu cérebro de grávida achou tão apropriado o nome. Era uma continuidade da barriga da mãe, uma cadeira que nos abraçaria enquanto lhe contaria as primeiras histórias, onde ele depois se poderia refugiar, ler, ouvir música [claro que hoje, já longe da gravidez, acho esquisito a cadeira chamar-se Womb, apesar de continuar a gostar muito dela].

Felizmente, alguém com menos apego a estas coisas, mas com mais bom senso e menos hormonas propensas a este efeito (o pai), chamou-me à razão em tempo. Uma poltrona do Saarinen seria um presente fantástico, mas conviria ponderar que o seu destinatário iria tomar o mundo como uma tela em branco para as suas canetas de feltro (não limitado às folhas A3 que com amor e devoção lhe vou comprando), além de ainda demorar algum tempo (anos) a controlar totalmente os esfíncteres.

Os anos passaram, mas não abandonei a ideia de lhe oferecer um objeto de design. E, do nada, encontrei o objeto ideal. Um Anglepoise! Como é possível não me ter lembrado antes do Anglepoise? Com certeza que um candeeiro que era usado dentro dos bombers da Segunda Grande Guerra, e que, segundo reza a história, funcionou depois de mais de 40 anos submerso no Lago Ness, dentro de um avião, resistirá a uma criança de 4 anos (espera-se). E tem tantas histórias para contar, desde o mecanismo único inventado pelo seu criador, um engenheiro de automóveis (Carwardine), e que passou a ser usado em tantos outros candeeiros, até aos anúncios onde que era publicitado como um óptimo candeeiro para o Blitz (an ideal blackout lamp!), porque permitia focar a luz e não deixá-la passar para fora de casa. Apesar de ter quase 90 anos, o Anglepoise continua em produção, tanto na sua versão original como em versões mais modernas, mais pequenas, maiores, de parede, de tecto, de exterior, de cores variadas. E a fazer sucesso em sítios improváveis, como no logotipo dos estúdios de animação da Pixar.









Mas a parte da história do Anglepoise que para mim é mais especial é o facto de ter sido feito em Bath, coisa que soube porque uma das revistas que vejo – a Cereal – fez uma reportagem lindíssima sobre Bath e Anglepoises. De repente, tudo fez sentido. Um dos meus candeeiros preferidos, feito numa das minhas cidades preferidas (se não mesmo a preferida), que visitei no auge da minha loucura austeniana da pós-adolescência (que não esmoreceu por completo), e onde senti que tudo parecia pensado à minha medida e feitio. Cheguei a Bath de comboio, num Novembro com um frio de rachar, com um nevoeiro que só passava a meio da tarde, mas que cheirava a azevinho dos jardins, a chocolate quente e a buns dos cafés, ao Natal que se aproximava e já decorava as ruas. Uma cidade tão arrumadinha, tão perfeita, mas de pedra tão gasta que parecia suspirar a cada passo. Não passa um Novembro sem que eu me lembre de Bath, e sem que queira lá voltar.






Ficou por isso decidido. É um Anglepoise, no seu design original. Provavelmente azul, mas ainda não tenho a certeza.




Este post é para o X, que um dia vou levar a Bath, e a quem vou explicar de onde veio o candeeiro que em breve terá em cima da secretária. E que – espero – resistirá a tempo de o ajudar a fazer o doutoramento em engenharia espacial (ou em design, se ele quiser).



[imagens retiradas do site da Anglepoise e da Cereal; poster aqui]

26/08/2013

Kebnekaise

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É verdade que não acho grande graça a pufes sem estrutura, daqueles género saco de batatas, forma de pêra. Mas abro uma excepção para este. Imita, em malha com dégradé de azul escuro para branco, a Kebnekaise, a montanha mais alta da Suécia, com 2104 metros.

A mesma marca também recriou (não em malha, mas em tecido impresso) o Evereste, o Kilimanjaro e o Fuji, para a Lekolar. Para quem quiser sentar-se numa cordilheira composta por montanhas de todo o mundo, sem sair de casa.


Design de Little Red Stuga, aqui.

22/08/2013

Arquitectura a brincar

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Já não vou para nova, e um dos sinais mais evidentes disso é o grau de desactualização dos meus conhecimentos sobre os brinquedos da moda. Entre monstros de plástico com nomes impronunciáveis, veículos futurísticos que fazem quase tanto como um computador e bonecas sofisticadíssimas com mil e um acessórios, há muito que deixei de  acompanhar o tema. Isto se estivermos a falar dos brinquedos mainstream. Ou seja, excluindo aqueles que são produzidos por marcas educativas especializadas e adeptas do produto ecológico e do comércio justo, especificamente pensados para estimular a capacidade x ou y (e que custam o triplo dos outros). Esses, os brinquedos bonitinhos de design dinamarquês ou sueco, feitos em madeira com tintas não tóxicas ou outros materiais de primeira qualidade e que qualquer pai ou mãe com estas sensibilidades gosta de ver na estante mas que os filhos invariavelmente chutam para um canto, conheço-os a todos, e invento as desculpas mais esfarrapadas para os comprar. Na esperança - provavelmente vã - de que venham a ter algum uso e a merecer algum afecto. E, devo confessar, na espectativa de que tenham também um papel na formação de algum bom gosto, coisa que não será certamente alcançada com beyblades (uma espécie de piões agressivos - não sei que outra designação podem ter - cheios de acessórios, que parece que lutam uns contra os outros em ringues concebidos para o efeito).

Desabafos à parte, no outro dia fui surpreendida por uma gama de brinquedos da Lego que não conhecia (claro), e que me deixou com alguma esperança em relação à qualidade dos ditos brinquedos mainstream (apesar de tudo, a Lego é uma marca à parte nos brinquedos e sempre teve um lugar no meu coração).

É que a Lego resolveu (também não sei quando, confesso) criar uma série a que chamou de Lego Architecture, onde reproduz alguns dos edifícios mais conhecidos na arquitectura (e, também, alguns monumentos e atracções conhecidos). Por exemplo, a Fallingwater House, a Farnsworth House, a Robie House, a Villa Savoye ou o Museu Guggenheim de Nova Iorque (1 a 5), só para indicar alguns.

Suspeito que será raro o miúdo que ache graça a isto, e que queira mesmo brincar com estes Legos. Poucas cores, muitas limitações de composição, instruções demasiado precisas, um fastio mais do que certo. Os beyblades farão seguramente mais sucesso. Mas, se pensarmos nos adultos como os seus mais prováveis destinatários, parece-me uma óptima desculpa para voltar a brincar.

O meu favorito até nem é nenhum dos que vem acima retratado: é uma caixa (6) a que a Lego chamou de Architecture Studio, que tem mais de 1200 peças de Lego desta série e um livrinho com vários exercícios, dicas e técnicas de arquitectos famosos, além de algumas noções básicas de arquitectura (7 e 8). Uma espécie de caixa de materiais para se construir maquetes de edifícios em Lego. Apesar das limitações inevitáveis das peças rígidas de Lego, e para quem nunca se deu muito bem com K-line, é uma excelente ideia.
  

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24/05/2013

Mini


O design de móveis para crianças pende normalmente para a infantilização. Dependendo da tese pedagógica predominante, as cadeiras, mesas e afins vêm em cores garridas porque faz bem estimular as crianças (1), ou, pelo contrário, em cores pastel, porque, afinal, muita estimulação faz mal (2). As formas são, em regra, grosseiras e sem arestas, roçando o desenho animado (1, 2, 3). E, em casos extremos, parecem a materialização infeliz de um pesadelo saído do Maravilhoso Feiticeiro de Oz (4).


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Mas também há a tendência oposta - fazer do mundo das crianças um mundo dos adultos em ponto pequeno. Ainda que menos sisudo. É aí que aparecem, por exemplo, as paredes pintadas com cores escuras, os móveis pretos ou cinzentos, ou os posters artísticos sofisticados.
É também aí que aparecem os móveis de design em miniatura.

É costume dizer-se que tudo o que é pequeno tem graça. Não diria tudo, mas é verdade para muita coisa. Inclusive para móveis que reproduzem peças de design em tamanhos infantis. Há para todos os gostos: cadeiras Eames (5 a 8), Bertoia (9 e 10), Risom (11), Jacobsen (12), Mies van der Rohe (13),  Saarinen (14), entre muitas outras. Uma espécie de Portugal dos Pequenitos aplicado ao design.





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Não tenho uma opinião muito certa sobre isto. É giro, está bem de ver. E é verdade que as crianças devem utilizar móveis adequados à sua escala, para garantir a sua segurança e o seu correcto crescimento. Mas encolher móveis especificamente desenhados para adultos não será mais uma forma de encurtar a infância das crianças, puxando-as precocemente para o mundo das pessoas crescidas - ainda que, apesar de tudo, inofensiva? Além disso, não fica ligeiramente ridículo um móvel de adulto reduzido ao tamanho de uma criança, como se fosse um brinquedo? Quando ainda por cima quem lhes achará verdadeira graça será apenas o conjunto de adultos que conhece esses objectos de design? Faria sentido, aos olhos de quem criou originalmente estas peças, reduzi-las para tamanhos infantis, ou não prefeririam estes designers que as crianças usassem móveis feitos a pensar nas suas proporções, nos seus interesses, capacidades, necessidades de desenvolvimento, como alguns fizeram (1, 2, 3 e 15)? Ou não será, mesmo, mais um sintoma de uma cultura que se centra nas crianças, tornando-as egocêntricas, inseguras, pouco resilientes, pouco esforçadas, pouco capazes de superar problemas, de construir soluções? Uma cultura que lhes molda um assento de design à sua medida, e que não permite que sejam elas a encontrar e a fazer o seu lugar?
O ar entediado e ligeiramente amuado da criança sentada na Womb Chair (14) não dirá tudo? Ou o comentário do fabricante da cadeira Risom em versão miniatura (11), quando diz que estes pequenos móveis são ideais para as crianças brincarem aos chás "mini-modernistas" (!)?

Estes mini-móveis têm graça, mas ter graça não chega. Aliás, um pormenor que não tem graça nenhuma é o preço. Talvez por não ser pequeno, ao contrário das cadeiras. É preciso ter muito amor ao design (que por amor às crianças não é de certeza) para gastar mais de dois mil euros numa Womb chair tamanho XXS que só serve até aos 6 anos e que, até lá, sofrerá as mais cruéis sevícias infantis e será múltiplas vezes coberta de baba/papa/vomitado/chocolate/substâncias não identificadas. Ou, na melhor das hipóteses, recolorida com lápis de cera e canetas de feltro. Porque não há espírito mais crítico do design  - e, ao mesmo tempo, menos respeitador - do que o as crianças.

Entretanto, alguém me avise por favor se, nos últimos tempos, o jogo das escondidas ou o jogo da apanhada foram substituídos por chás "mini-modernistas". Só para ficar informada.




Fontes das imagens: assinaladas em cada uma das fotografias.