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18/05/2017

Nesting, Anglepoises e Bath


Quando estava grávida do meu primeiro filho, aquela coisa que dá pelo nome de nesting não me fez arrumar os lençóis do berço por cores, nem comprar todos os cueiros, tapa-fraldas, fofos e demais parafernália de puericultura das lojas de Campo de Ourique. Fez-me, infelizmente, procurar com fervor um objeto de design que pudesse oferecer ao bebé. Um móvel, um sofá, só para ele, que tivesse uma história, mas com o qual ele pudesse também crescer e construir as suas histórias, e um dia levá-lo para a sua própria casa. Lembrei-me logo da Womb Chair, do Saarinen, uma das minhas poltronas favoritas. E logo o meu cérebro de grávida achou tão apropriado o nome. Era uma continuidade da barriga da mãe, uma cadeira que nos abraçaria enquanto lhe contaria as primeiras histórias, onde ele depois se poderia refugiar, ler, ouvir música [claro que hoje, já longe da gravidez, acho esquisito a cadeira chamar-se Womb, apesar de continuar a gostar muito dela].

Felizmente, alguém com menos apego a estas coisas, mas com mais bom senso e menos hormonas propensas a este efeito (o pai), chamou-me à razão em tempo. Uma poltrona do Saarinen seria um presente fantástico, mas conviria ponderar que o seu destinatário iria tomar o mundo como uma tela em branco para as suas canetas de feltro (não limitado às folhas A3 que com amor e devoção lhe vou comprando), além de ainda demorar algum tempo (anos) a controlar totalmente os esfíncteres.

Os anos passaram, mas não abandonei a ideia de lhe oferecer um objeto de design. E, do nada, encontrei o objeto ideal. Um Anglepoise! Como é possível não me ter lembrado antes do Anglepoise? Com certeza que um candeeiro que era usado dentro dos bombers da Segunda Grande Guerra, e que, segundo reza a história, funcionou depois de mais de 40 anos submerso no Lago Ness, dentro de um avião, resistirá a uma criança de 4 anos (espera-se). E tem tantas histórias para contar, desde o mecanismo único inventado pelo seu criador, um engenheiro de automóveis (Carwardine), e que passou a ser usado em tantos outros candeeiros, até aos anúncios onde que era publicitado como um óptimo candeeiro para o Blitz (an ideal blackout lamp!), porque permitia focar a luz e não deixá-la passar para fora de casa. Apesar de ter quase 90 anos, o Anglepoise continua em produção, tanto na sua versão original como em versões mais modernas, mais pequenas, maiores, de parede, de tecto, de exterior, de cores variadas. E a fazer sucesso em sítios improváveis, como no logotipo dos estúdios de animação da Pixar.









Mas a parte da história do Anglepoise que para mim é mais especial é o facto de ter sido feito em Bath, coisa que soube porque uma das revistas que vejo – a Cereal – fez uma reportagem lindíssima sobre Bath e Anglepoises. De repente, tudo fez sentido. Um dos meus candeeiros preferidos, feito numa das minhas cidades preferidas (se não mesmo a preferida), que visitei no auge da minha loucura austeniana da pós-adolescência (que não esmoreceu por completo), e onde senti que tudo parecia pensado à minha medida e feitio. Cheguei a Bath de comboio, num Novembro com um frio de rachar, com um nevoeiro que só passava a meio da tarde, mas que cheirava a azevinho dos jardins, a chocolate quente e a buns dos cafés, ao Natal que se aproximava e já decorava as ruas. Uma cidade tão arrumadinha, tão perfeita, mas de pedra tão gasta que parecia suspirar a cada passo. Não passa um Novembro sem que eu me lembre de Bath, e sem que queira lá voltar.






Ficou por isso decidido. É um Anglepoise, no seu design original. Provavelmente azul, mas ainda não tenho a certeza.




Este post é para o X, que um dia vou levar a Bath, e a quem vou explicar de onde veio o candeeiro que em breve terá em cima da secretária. E que – espero – resistirá a tempo de o ajudar a fazer o doutoramento em engenharia espacial (ou em design, se ele quiser).



[imagens retiradas do site da Anglepoise e da Cereal; poster aqui]

20/05/2014

Bibendum


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Quem não conhecer esta poltrona certamente pensará que ela é um modelo recente. Tem um ar modernaço, quase que podia estar no catálogo do próximo Inverno das melhores lojas de design (por acaso é uma peça exclusiva de uma delas, a Aram Store).

Mas não é. E não é apenas a sua idade que impressiona. Há três dados interessantes sobre esta peça, que aqui deixo por ordem crescente de estupefacção induzida:
A fonte de inspiração? Aquele famosíssimo boneco feito de pneus, marca eterna da Michelin, chamado Bibendum (é também o nome desta poltrona).
A época em que foi concebida? Início dos anos 20 do séc. XX (talvez um pouco antes).
O seu criador? Uma mulher semi-aristocrata irlandesa, Eileen Gray.

Eileen Gray é uma das designers mais importantes do século passado, ainda que grande parte do seu reconhecimento seja póstumo (também tem alguns trabalhos de arquitectura, mas isso fica para outro post). É uma espécie de Coco Chanel do design. Muitas das suas peças foram revolucionárias, e marcaram de forma significativa a facção do design que gosta de móveis com aço tubular [de uma forma muito simplista e por isso provavelmente errada ou pelo menos imprecisa, sempre que me lembro do período moderno divido-o entre os orgânicos e os industriais, ou seja, entre os fanáticos do mobiliário todo em madeira e os extremistas do vidro e do metal, seguindo-se uma terceira corrente, dissidente, que venera os plásticos, as borrachas e os acrílicos]. Quem não se recorda, por exemplo, da sua conhecida mesa E1027, que também aparece nas imagens 3 e 4 abaixo?
 
 
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A Bibendum chair (é verdade, o nome é tão pouco sofisticado), aparentemente sem grande graça, é muito especial.
Por um lado, é das poucas cadeiras balofas que consegue ser ao mesmo tempo elegante; não é comum um corpanzil destes conseguir ser também airoso, efeito para o qual é decisiva a estrutura de base, mais fina.
Por outro lado, é muito versátil. Com o cenário certo, tanto é feliz numa sala de estar, numa sala de espera ou num quarto.
Por outro lado ainda, mesmo parecendo ter linhas volumosas e grosseiras, tem traços subtis que lhe conferem uma harmonia invisível, que não se vê à primeira, só se sente: já repararam que os dois anéis gordos do encosto, apesar de parecerem meios donuts, são na verdade uma repetição mais cheia da base tubular da cadeira, também em meia-lua? Como se, no papel, fossem curvas saídas de canetas diferentes, uma de ponta fina, outra de ponta de feltro? Afinal confirma-se que a teoria da simetria de Gui Bonsiepe serve para alguma coisa. 

[fotografias aqui e aqui]

14/04/2014

The beauty of asymmetry

A Muuto lançou no mercado um sofá que é agora um dos meus favoritos. Chama-se Soft Blocks e foi desenhado por Petter Skogstad. Diz o designer: "The ideia behing Soft Blocks was to play around with the proportions of a conventional sofá, challenge straight continous lines and explore the beauty of asymmetry. The result is a playful composition of soft blocks that are ready to welcome  you in the most friendly and comfortable way". Sempre que olho para ele, lembro-me de peças de Lego (sobretudo do Lego Duplo).
 
Gosto tanto de ver que ainda é possível fazer coisas diferentes com objectos tão triviais. E acho que o facto de este sofá estar apenas disponível (por agora) no azul predominante na minha sala é um sinal cósmico que não devo ignorar.

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[Soft Blocks, Petter Skogstad, Muuto, aqui]

10/01/2014

Tafelmusik

Apesar do título pomposo, este post é apenas sobre mesas de salas de jantar. Coisa bastante mais prosaica, portanto. Mas achei que o título era apropriado porque, na verdade, as mesas retratadas abaixo são música (felizmente, não barroca) para os meus olhos. Em consonância com as cadeiras certas, nem se fala (isso fica para outro post).

Claro que podem ter muitos outros destinos além da sala de jantar. Entre clássicos dos anos 30 a mesas de colecções com menos de um ano de vida, mármores a madeiras, madeiras a metais, redondas, elípticas ou rectangulares, é escolher.

| 1 | 
Raft table, 2011, design de NORM para a &Tradition


| 2 | 
Florence Knoll table desk,1961, design de Florence Knoll para a Knoll


| 3 | 
Wogg 38 table, 2006, design de Alfredo Haberli/Wogg para a Wogg


| 4 | 
Dining table, 1954-1955, design de Isamu Noguchi para a Vitra


| 5 | 
Copenhague table CPH30, 2012, Ronan & Erwan Bourroullec para a HAY


| 6 | 
Branch table, 2012, design de Jacob Wagner para a Cappellini


| 7 | 
Toni table, 2010, design de James Irvine para a Marsotto


| 8 | 
Nelson X-leg table, 1950, design de George Nelson para a Herman Miller


| 9 | 
Essay, 2009, design de Cecilie Manz para a Fritz Hansen


| 10 | 
Table 82A, 1935, design de Alvar Aalto para a Artek


| 11 | 
Sleek 2013, 2013, design de Karim Rachid para a Riva 1920


07/01/2014

O ano do cobre


Há quem faça listas com resoluções de ano novo. Eu, como jamais cumpriria as que fizesse, faço antes listas de coisas de que gosto. Hoje, são 12 coisas em cobre (ou cor de cobre), uma por cada mês do ano. Algumas, reedições de grandes clássicos (o 3 e o 7, desenhados, respectivamente, em 1968 e 1977). Outras, bem fresquinhas, capas dos catálogos mais recentes das melhores lojas de design.

Na verdade, se fosse o Pufe a ditar as modas, o cobre era a tendência do design industrial de 2014 (parece que foi um dos metais de eleição em 2013, mas isso para mim não interessa nada porque é agora que começam a surgir as peças mais interessantes). Há qualquer coisa no cobre que me faz lembrar o modernismo, sobretudo quando combinado com temas geométricos ou marmoreados. E os tons são tão bonitos. É o rosé dos metais, o tímido dos minerais, discretamente afogueado, tão diferente do dourado ou do bronze. 




1 | Lavatório de casa-de-banho, The Hayon collection, Jaime Haydon (Bizazza)
2 | Prato suspenso para alimentação de pássaros Bird feederCooperativa Panorámica (Cooperativa Panorámica)
3 | Candeeiro suspenso Flowerpot, Verner Panton (&Tradition)
4 | Candelabro Chunk of marbleAndreas Engesvik (Menu)
5 | Mesa Breeze, Monica Forster (Swedese)
6 | 3 jarras empilháveis, Spun Vase Trio, Tom Dixon (Tom Dixon)
7 | Jarro térmico Vacuum Jug, Erik Magnussen (Stelton)
8 | Espelho Gridy me, Gridy (Menu)
9 | Porta-lápis Copper Pencil Holder, designer não identificado (Ferm Living)
10 | Candeeiro suspenso Spica, Jamie Iacoli e Brian McAllister (Iacoli & McAllister)
11 | Organizadores de secretária Wireframe trays, Cooperativa Panorámica (Cooperativa Panorámica)
12 | Mesa Algedi Table, Jamie Iacoli e Brian McAllister (Iacoli & McAllister)

14/11/2013

Tube


Diagrama do Metropolitano de Londres com obra de David Shrigley, Sem Título, 2005* 


O Metropolitano de Londres celebrou este ano o 150.º aniversário. Para marcar a data no PUFE, deixo aqui pequenos excertos de um trabalho que fiz no IADE, não há muito tempo (ainda que noutro tempo, mais feliz), sobre o diagrama do metro à luz dos princípios do Design de Informação.

O diagrama[1] do Metropolitano de Londres é talvez o sistema de informação sobre meios de transporte mais conhecido do mundo. O seu surgimento, em 1931, assumido pela mão de Harry Beck, projectista do Underground Group, viria a revolucionar para sempre a forma como entendemos hoje os sistemas de transporte, e configura um paradigma essencial da boa aplicação dos mais elementares princípios e regras do Design de Informação.

A ideia inicial de representar as linhas que compunham o Metropolitano de Londres foi, naturalmente, no sentido de criar uma ferramenta simples para ajudar os seus utilizadores a entrar e a sair nas estações certas, bem como a fazer as mudanças de linha necessárias para chegar ao destino pretendido. Todavia, e apesar dessa intenção, foram precisos muitos anos e inúmeras tentativas até que tal ferramenta se apresentasse como simples e prática. A génese do Metropolitano e todas as incoerências e dificuldades de articulação que estiveram na sua base contribuíram inequivocamente para essa realidade.

Durante as primeiras décadas, essa representação assentou numa base cartográfica da cidade, à qual se sobrepuseram as linhas do Metropolitano (daí que, nesta primeira fase, a designação de mapa por referência à representação gráfica do Metropolitano de Londres seja efectivamente a designação mais correcta) – vd. figura 1.


Figura 1: Mapa com representação de algumas linhas do Metropolitano de Londres, datado de 1889 (in http://homepage.ntlworld.com/clivebillson/tube/tube.html)   


A falta de coordenação dos vários operadores do Metropolitano de Londres impediu, durante bastante tempo, a representação cartográfica de todas as linhas num só mapa. Aliás, os primeiros mapas combinados do sistema de caminhos-de-ferro subterrâneos de Londres só começaram a ser emitidos por volta de 1906, quando as linhas controladas pelo investidor americano Charles Tyson Yerkes foram incluídas num único mapa.

Em 1908, e na sequência de um acordo entre a empresa de Charles Tyson Yerkes (Underground Railways of London) e as restantes empresas que geriam outras linhas (Central London, Metropolitan, Great Northern & City e City & South London), foi publicado o primeiro mapa com todas as linhas então existentes (vd. figura 2), e que numa primeira leitura pareciam ser reproduzidas através da sua sobreposição no mapa da cidade. A profusão de muitas estações em pouco espaço, as inúmeras ligações e a aparente desordem das linhas – tudo consequência do crescimento atribulado e desorganizado que o Metropolitano sofreu – já traduziam grandes obstáculos à compreensão do mapa.


Figura 2: Mapa com a representação de todas as linhas do Metropolitano de Londres, datado de 1908 (in http://homepage.ntlworld.com/clivebillson/tube/tube.html)


Os mapas do Metropolitano de Londres foram progressivamente evoluindo – ainda que nem sempre no sentido de favorecer a sua clareza e a sua inteligibilidade (vd. figura 3)


Figura 3: Mapa com representação do Metropolitano de Londres, datado de 1913 (in http://homepage.ntlworld.com/clivebillson/tube/tube.html)  


A certa altura, algumas operadoras tentaram salientar as suas linhas por referência às restantes (vd. figura 4), tornando difícil ter uma perspectiva global de todos os caminhos-de-ferro subterrâneos. Por outro lado, à medida que as linhas eram alargadas e expandidas para os subúrbios da cidade, a tarefa dos cartógrafos era gradualmente dificultada: os mapas mantinham sempre a mesma dimensão, o que implicava reduzir a escala de representação gráfica e, assim, reduzir também a legibilidade da sua parte central, que reproduzia o centro da cidade. Havia, nesta matéria e considerando essa limitação, desacordo entre os vários operadores sobre a distância até à qual o mapa deveria reproduzir as linhas de caminho-de-ferro. No entanto, e mesmo truncando os mapas em determinados pontos, era praticamente impossível assegurar que a área central da cidade fosse reproduzida com o mínimo de leitura, atendendo à intrincada e caótica rede de ligações e ao número de estações existentes em tão pouco espaço geográfico (vd., por exemplo, um mapa datado de 1932, no qual, pretendendo-se reproduzir uma linha de caminho-de-ferro mais extensa, se comprometeu totalmente a legibilidade do centro da cidade, que, de tão pequena e de tão pouco clara, não trouxe grande utilidade para os passageiros quando reproduzida em versão de bolso[2]).


Figura 4: Mapa com a representação do Metropolitano de Londres, datado de 1914. Só a Metropolitan line é que aparece salientada a vermelho. As restantes linhas são apresentadas com a mesma cor (in http://homepage.ntlworld.com/clivebillson/tube/tube.html)   



Note-se, no entanto, que mesmo no primeiro mapa completo (de 1908) foram admitidas – aparentemente, com relativa naturalidade – algumas distorções no que respeita à representação cartográfica (vd. figura 2). Tais distorções voltaram a ser utilizadas em mapas de 1909 e 1912, o que indicia que a falta de rigor cartográfico terá sido desde logo encarada como um mal necessário. Assim, e apesar de não representar (pelo menos de forma assumida) um precedente para o diagrama que veio a ser criado posteriormente, estas primeiras distorções revelavam já algumas tolerância e aceitação perante a inexactidão cartográfica na representação das linhas do Metropolitano.

Aliás, essa falta de rigor cartográfico veio a ser mais patente quando, em 1926, foi emitido um novo mapa (vd. figura 5), concebido por F.H. Stingemore (na altura, projectista e desenhador do Underground Group, uma das empresas operadoras). Com efeito, este mapa já incorporava – de um modo algo visionário – algumas técnicas que estiveram na base da criação do então futuro diagrama, como a distorção geográfica mais significativa das áreas fora do centro da cidade e a eliminação de detalhes de superfície que usualmente caracterizam a representação cartográfica[3].


Figura 5: Mapa com representação gráfica do Metropolitano de Londres, da autoria de F.H. Stingemore, datado de 1926 (in http://homepage.ntlworld.com/clivebillson/tube/tube.html)


Essas duas principais características – que, sendo Stingemore um cartógrafo tradicional, devem ter sido adoptadas com alguma relutância e apenas em benefício dos viajantes, que assim podiam ter um mapa de bolso de razoável leitura – contribuíram bastante para a clareza do mapa e foram absolutamente cruciais para a concepção posterior do diagrama.

No entanto, muitas dificuldades de compreensão se mantinham: continuava a não ser suficientemente clara a identificação das estações localizadas mesmo no centro da cidade (vd. figura 5). Em 1932, Stingemore ainda tentou introduzir algumas modificações – aumentando a área central do mapa e introduzindo, a certa altura, a representação linear do rio Tamisa. Mas, apesar de bem-intencionados e, sem dúvida, revolucionários, os seus esforços apenas proporcionaram uma resposta parcial: o mapa do Metropolitano de Londres ainda se apresentava, para quem precisava de o consultar, como um emaranhado de fios coloridos, interrompidos por indicações tipográficas com pouca clareza.

A verdadeira transformação do sistema de representação gráfica do Metropolitano de Londres veio a acontecer pela mão de outro projectista e desenhador do Underground Group – Henry (Harry) C. Beck.

Harry Beck – que, na altura do seu primeiro esboço do diagrama, em 1931, tinha 29 anos – era um funcionário empregado de forma precária no Underground Group, que havia sido chamado pela empresa nessa altura (em virtude do aumento do volume de trabalho), para prestar alguns serviços.

A forma como o diagrama foi concebido é tão perfeitamente descrita pelo seu próprio autor que dispensa qualquer outra explicação. Dizia Beck que, “olhando para o mapa antigo das linhas do metropolitano, ocorreu-me que talvez fosse possível arrumá-lo, esticando as linhas, introduzindo diagonais e diminuindo a distância entre estações. Quanto mais pensava no assunto, mais convencido fiquei que a ideia merecia pelo menos uma tentativa, pelo que seleccionei a linha da Central London como a linha horizontal base e fiz um esboço rudimentar. Tentei imaginar que estava a usar um espelho convexo, de modo a apresentar a área central numa escala maior. Isto, pensei, podia dar a clareza necessária à percepção da informação[4].

Logo esse primeiro esboço veio a revelar-se absolutamente extraordinário, incluindo já todas as características fundamentais que iriam perdurar no diagrama até aos dias de hoje (vd. figura 6): a simplificação das linhas dos caminhos-de-ferro em linhas verticais, horizontais ou diagonais; o aumento da área central da cidade e a eliminação de todos os elementos cartográficos (com excepção do rio Tamisa). Aliás, o diagrama que, na sequência deste esboço, Beck criou e aperfeiçoou para mostrar ao Departamento de Publicidade do Underground Group, veio a revelar mais duas das valências que haviam de marcar este esquema para sempre – a sua flexibilidade e a sua adaptabilidade à evolução da rede: à última hora, e perante o encerramento súbito e inesperado de uma das estações (a de Piccadilly Line Down Street), Beck alterou sem dificuldade a parte central do diagrama e redistribuiu algumas estações pelo traçado da linha de Piccadilly, sem comprometer a unidade e coerência de todo o diagrama (vd. figura 7).


 Figura 6: Esboço do primeiro diagrama do Metropolitano de Londres da autoria de Harry Beck, datado de 1931 (in www.vam.ac.uk/.../files/19/05a.jpg)





No entanto, o diagrama proposto por Beck ao Underground Group levantou algumas objecções e foi inicialmente rejeitado por ser demasiado “revolucionário”. Só veio a merecer nova atenção quando, um ano depois do primeiro esboço e confiante nos benefícios que o seu trabalho poderia trazer, Harry Beck o submeteu novamente à apreciação do Departamento de Publicidade. Foi, assim, devido à insistência e à tenacidade do seu próprio autor inicial que o diagrama veio a vingar como representação gráfica do Metropolitano de Londres[5].

O diagrama de Beck veio a ser ajustado inúmeras vezes nos anos que se seguiram à sua adopção – desde logo, pelo seu próprio autor –, não só em função do inevitável crescimento da rede do Metropolitano como pela verificação da necessidade de introduzir pequenas afinações e melhoramentos. Foi, desde o primeiro momento, um diagrama em constante mutação. A certa altura – sobretudo, a partir dos anos 60 do séc. XX –, Beck deixou de ter controlo sobre a representação gráfica do Metropolitano de Londres, e o diagrama veio a sofrer várias modificações às mãos de outros funcionários da (agora) London Transport (por exemplo, Hutchison e Garbutt[6]). A evolução do diagrama a partir dessa altura é de tal forma complexa (vd. figuras 8 e 9) que, na economia desta exposição e do tema que lhe subjaz, não tem lugar nem utilidade[7]. Basta, para o que interessa neste âmbito, manter presente que as características essenciais do diagrama de Beck sobreviveram a todas as modificações que a representação gráfica do Metropolitano sofreu até hoje. Quem observa o diagrama do Metropolitano de Londres e o confronta com o primeiro diagrama de Beck extrairá, inequivocamente, a mesma conclusão (vd. figura 10).


 Figura 8: Diagrama do Metropolitano de Londres, alterado por H F Hutchinson, datado de 1963 (in http://homepage.ntlworld.com/clivebillson/tube/tube.html)  

 Figura 9: Diagrama do Metropolitano de Londres, alterado por P E Garbutt, datado de 1974  (in http://homepage.ntlworld.com/clivebillson/tube/tube.html) 


Figura 10: Diagrama recente do Metropolitano de Londres, 2010 (in http://www.tfl.gov.uk/gettingaround/1106.aspx) 


Muito embora seja inegável que Harry Beck é o principal criador do diagrama que ainda hoje está na base da representação gráfica do Metropolitano de Londres, e que tantos outros sistemas de transporte (e sistemas de transmissão de informação) tem influenciado, não é menos verdade que ele não é o único e exclusivo responsável por todas as características que esse esquema apresenta. Aliás, comparando o anterior mapa de Stingemore e o diagrama de Beck, é difícil identificar uma diferença tal que permita afirmar que este criou de raiz um novo esquema de representação gráfica. Harry Beck não partiu do zero quando concebeu o diagrama do Metropolitano de Londres; antes reinventou-o, sintetizando todo o percurso evolutivo do mapa e acrescentando-lhe modificações estruturais. O génio da ideia de Beck está, sobretudo, mais do que no aproveitamento convicto de algumas características já timidamente existentes nos mapas anteriores (como a supressão de elementos cartográficos e a distorção geográfica das distâncias entre estações), na introdução de uma (aparentemente) ténue e modesta alteração – a transformação dos traçados em linhas verticais, horizontais e diagonais[8].

É essa a revolução ao nível da representação gráfica liderada por Harry Beck: a passagem, no Metropolitano de Londres, de uma representação cartográfica para uma representação diagramática, através da aplicação de um conjunto de critérios muito específicos. “Geometrizar” todos os traçados do Metropolitano num único diagrama fez toda a diferença. E tal diferença pode ter uma explicação própria e inequívoca no quadro dos princípios que enformam o Design de Informação. De certo modo, o sucesso do diagrama poderá assentar no cumprimento genial, avant la lettre, de todas aquelas que foram as regras e as orientações posteriormente teorizadas como corolários do Design de Informação.

A aplicação das regras e dos princípios fundamentais do Design de Informação ao diagrama do Metropolitano de Londres permite tirar uma conclusão essencial: o diagrama, ainda que muito anterior a qualquer teorização sistemática daquela matéria, é um sistema de informação exemplar no que toca à concretização das suas regras e princípios.

Com efeito, o diagrama do Metropolitano de Londres releva que os vários intervenientes na sua elaboração (e que, mais ou menos cirurgicamente, foram aperfeiçoando o primeiro modelo) tinham um domínio bastante completo do processo cognitivo associado à percepção deste tipo de sistema de informação, bem como da necessidade de conferir clareza, acessibilidade e rapidez à forma da mensagem a transmitir.

Nessa medida, é possível afirmar que o sucesso do diagrama do Metropolitano de Londres enquanto sistema de informação se deve – pelo menos em parte – à circunstância de obedecer a uma série de orientações que, actualmente, são consideradas como essenciais na concepção de qualquer produto de Design de Informação. Tal conformidade decorre em grande medida da atitude assumida pelos indivíduos que participaram nesse processo, no sentido de tornar clara e acessível a informação – ainda que não se deva a uma postura conscientemente sistemática acerca do modo como as mensagens são percepcionadas pelo ser humano.

A incorporação das principais características de qualquer produto bem sucedido (enquanto produto de Design) no espírito dos indivíduos vem de há muitos séculos: já Vitrúvio indicava, por referência à arquitectura, três princípios basilares: Firmitas, Utilitas e Venustas (ou durabilidade, utilidade e beleza) – que, aplicados ao Design, costumam ser adaptados para confiança, utilidade e satisfação[9].

E, neste âmbito, é inegável que tais características se encontram presentes no diagrama do Metropolitano de Londres, que é estável, transmite confiança (resistiu a inúmeras mudanças, adaptações, alterações e à própria evolução da rede), é útil (a utilidade é a sua razão de ser) e, por último, satisfaz as necessidades daqueles que o procuram.

Certamente que Harry Beck estaria longe de, em 1931, prever o sucesso que o diagrama por si assumido iria alcançar, bem como de que modo é que as suas características identificadoras ainda hoje perduram no diagrama actual e se estenderam a outros sistemas de informação relativos a meios de transporte.

Mas, a verdade é que o diagrama se revelou um produto intemporal, com uma contínua habilidade para se adaptar às mudanças dos tempos e de fazer face às necessidades dos viajantes, sempre com a mesma eficácia[10], sobrevivendo a manipulações, à era da digitalização e à sua transferência para um sistema de desenho informático.

Tendo esse sucesso sido constatado, o diagrama serviu de inspiração a outros sistemas de representação de redes de Metropolitano por todo o mundo (só para dar alguns exemplos, Estados Unidos, Japão, Espanha, Portugal) e, inclusivamente, a outros sistemas de informação (sobretudo relativos a outros meios de transporte).

No entanto, a verdade é que o mesmo sucesso e a mesma eficácia não se repetiram – pelo menos, com a mesma intensidade. Aliás, em Nova Iorque, a adaptação das mesmas regras colocou inúmeras dificuldades e cria ainda hoje vários desafios[11]. Por que razão – pode questionar-se – o diagrama do Metropolitano apresentou tanto êxito em Londres e, em alguns locais onde foi aplicado (até com mais consciência e estabilidade), chegou mesmo a ser um fracasso? Se era efectivamente um paradigma de um sistema de informação quase perfeito, qual a justificação para não ter o mesmo grau de adesão em outros locais?

Enquanto explicação possível, há sem dúvida uma série de factores que, sendo irrepetíveis ou insondáveis, nunca poderão ser entendidos cabalmente: a familiarização da população londrina com os anteriores mapas do Metropolitano, o enquadramento socioeconómico, a antiguidade do sistema de transporte na cidade de Londres ou a própria interacção das pessoas com a cidade podem ter sido aspectos decisivos na forma como o diagrama foi recebido pelos utilizadores do Metropolitano em Londres. No entanto, é indiscutível que o facto de o diagrama se ter mantido fiel a uma série de características que já haviam sido consolidadas em mapas anteriores terá certamente tornado mais fácil a adaptação ao novo esquema. E, por outro lado, é também inquestionável que os percursos do Metropolitano sempre foram uma forma de simplificar a cidade de Londres – ao contrário de outros centros urbanos, onde a estrutura à superfície é por vezes mais fácil de percepcionar do que a própria rede de Metropolitano.

Mas, em acréscimo, o certo é que o sucesso do diagrama do Metropolitano ultrapassou o próprio conceito de sistema de informação. O diagrama não é apenas um excelente exemplo de boas práticas no âmbito do Design de Informação. É, actualmente, um ícone essencial da própria cidade de Londres.

O diagrama ultrapassou o seu papel utilitário; é, em simultâneo, um marco urbano, um exemplo de Design Gráfico que transcendeu a sua função e que hoje simboliza a cidade e o próprio espírito prático dos Britânicos. Para a maioria daqueles que o manuseiam, o diagrama é mais do que uma simplificação dos percursos do Metropolitano. É também uma simplificação essencial da própria cidade, uma bússola para todos aqueles que precisam de se deslocar em Londres e, sobretudo, uma ferramenta de orientação diária que oferece estabilidade e transmite a ideia de uma cidade confiante e organizada.




[1] Não é adequado aplicar o conceito de “mapa” ao diagrama que desde 1931 e até aos dias de hoje tem vindo a ser aperfeiçoado, ainda que correntemente seja o termo utilizado.
[2] Vd. GARLAND, Ken, Mr. Beck’s Underground Map, Capital Transport Publishing, Middlesex, 1994, pág. 11.
[3] Note-se, ainda assim, que ainda não era um diagrama no sentido exacto do termo: ainda que não tivesse indicações de superfície, as linhas do Metropolitano ainda mantinham alguma fidelidade ao traçado geográfico que apresentariam se fossem sobrepostas à cartografia da cidade.
[4] Vd. GARLAND, Ken, ob. cit., pág. 15.
[5] Vd. GARLAND, Ken, ob. cit., pág. 15.
[6] Vd. GARLAND, Ken, ob. cit., págs. 50 e seguintes.
[7] Vd., para mais detalhe, GARLAND, Ken, ob. cit., págs. 50 e seguintes, e ROBERTS, Maxwell J. Roberts, Underground Maps after Beck, Capital Transport Publishing, Middlesex, 2005.
[8] Aliás, note-se que mesmo esta “geometrização” das linhas dos caminhos-de-ferro não é, em si mesma, inovadora: em 1929, a representação gráfica da linha de caminhos-de-ferro suburbana de Londres (Great Northern suburban line) já era realizada através de um diagrama (da autoria de George Dow, um escriturário da empresa operadora). Por outro lado, as próprias linhas de caminho-de-ferro do Metropolitano de Londres eram já representadas individualmente, nas respectivas carruagens, com linhas rectas. Aliás, é mais provável que a inspiração de Harry Beck tenha vindo destas fontes do que dos circuitos eléctricos que muitos apontam como origem da sua ideia. Vd. ROBERTS, Maxwell J., ob. cit., págs. 8 e 9.
[9] Mijksenaar, Paul, Visual Function – An Introduction to Information Design, Princeton Architectural Press, Nova Iorque, 1997, pág. 18.
[10] GARLAND, Ken, ob. cit, pág. 5.
[11] Vd. O’Grady, Jenn e Ken Visocky, The Information Design Handbook, RotoVision, Suíça, 2008, pág. 142.



* O desenho de David Shrigley é uma interpretação humorística do diagrama do Metropolitano de Londres, encomendado pela própria T
ransport for London (em concreto, através do programa Platform for Art) para servir de capa ao diagrama editado em versão de bolso (cujos exemplares, nessa versão encomendada, foram disponibilizados a partir de Novembro de 2005). Os detalhes concretos dessa colaboração estão disponíveis em http://art.tfl.gov.uk/projects/detail/1348/Essa imagem acaba por ser uma provocação em relação à ideia de que o diagrama do Metropolitano é simples e fácil de compreender. Mas, bem vistas as coisas, é possível que o emaranhado de linhas que compõe este desenho tenha inclusivamente salientado a clareza e nitidez do próprio diagrama...

13/11/2013

As cadeiras mais feias de sempre #2

E pronto, aqui está mais uma. Nem vou dizer o que isto me pareceu à primeira vista, para não ferir susceptibilidades.


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Chama-se XXL Chair e foi concebida em 2005 por Janneke Hooymans e Frank Tjepkema, na agência de design holandesa Tjep. A cadeira foi apresentada em resposta a um desafio da Arco, que propôs a vários designers mostrarem a sua visão acerca do futuro do mobiliário.

Explicam os designers: As the proportions of people evolve to the standards of western consumerism so may the proportions of objects that surround us, this project is a preview. We designed this chair with super size aesthetics in mind.

Pelos vistos, o tema obesidade mostra-se recorrente no design horripilante de cadeiras. Aliás, a ideia de base é muito semelhante à cadeira At One - ou, pelo menos, parece. Uma estrutura em madeira à qual foi acoplada uma massa, volumosa, mole e disforme. E, mais uma vez, a cor e a textura também não ajudam.

Frank Tjepkema, um dos designers que concebeu esta cadeira (e fundador da própria Tjep), tem currículo elogiado pela Droog, pela Ikea, pela British Airways, pela Academia de Design de Eindhoven, entre muitas outras. Já ganhou por duas vezes o Prémio Holandês de Design. Tem outras criações extravagantes, mas nenhuma tão feia como esta.

Eu até percebo que isto não é propriamente peça para se comercializar, e que fica a pertencer, por agora, ao mundo do design conceptual (tal como a cadeira At One), mas é assim que os designers vêem o futuro do mobiliário? Espero que não. E, sobretudo, espero que até lá também se imponha às cadeiras uma dietazinha.


[Informações aqui e aqui, fotografias aqui e aqui]