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02/06/2013

O não-design

                                                                                 
                                                                               
O design é, por natureza, matéria que vive do esforço permanente de inovação dos que nele (ou com ele) trabalham. Todos querem ser originais, todos querem criar algo verdadeiramente novo. Fazer diferente é, para muitos, imprescindível para fazer melhor. Fazer parecido, mesmo que seja para melhorar alguma coisa, não é valorizado da mesma forma.

Mas, nos dias que correm, fazer diferente é cada vez mais difícil. Fazer diferente acaba por ser, muitas vezes, equivalente a misturar o existente, agitar bem e dar-lhe outro embrulho, outra função, outra existência. E é nesse baralhar e dar de novo que muitas vezes surgem soluções fantásticas. Ou não fosse a reciclagem de ideias, ela própria, fonte de originalidade.

Apesar disso, mas no meio dessa ânsia de fazer diferente, tem surgido uma moda curiosa, cujo mantra se baseia, provavelmente, nas seguintes perguntas sucessivas:

E se, em vez de mostrarmos o design, o tornarmos invisível?
Melhor: e se, usando o design, descaracterizarmos (ou, até, suprimirmos) o próprio objecto?

Estas perguntas, à primeira vista absurdas, podiam levar a um design puramente conceptual, ou a um design experimentalista, que se esgotaria apenas nisso. Mas não. Por estranho que pareça, essa tal moda - uma espécie de não-design - tornou-se, em certa medida, comercial.
Vejam-se, por exemplo, os três objectos que passo a descrever.


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O primeiro chama-se Chairless (1 a 4) e é qualquer coisa entre cinto/correia/fita criada por Alejandro Aravena em 2010, para a Vitra. Foi inspirado nas correias que os membros de uma tribo nómada ancestral que vive entre a Bolívia e o Paraguai usam para se manterem sentados no chão (5). De acordo com a descrição da marca, este cinto permite que os seus utilizadores se sentem de uma forma relaxada, sem nenhuma cadeira ou apoio de costas, oferecendo uma solução perfeita para quando não há cadeiras à mão (almoçar no parque, esperar num aeroporto, assistir a um concerto, ler na praia, etc). Muito leve e compacto (outra coisa não se esperaria de um cinto, diria eu), o cinto Chairless pode ser levado para todo o lado, aliviando a coluna e as pernas, de modo a que o utilizador não tenha de abraçar os próprios joelhos para se manter sentado, ficando com as mãos livres para fazer outras coisas.

Sobre o objecto em si, enfim, será com certeza muito útil para quem gosta de se sentar no chãozinho duro, frio e sujo que toda a gente pisa. Sobretudo num aeroporto, não vejo melhor forma de esperar seis horas pelo próximo voo que não sentada no chão, pelo menos enquanto não se é atropelado por uma vertiginosa mala de rodinhas. Aliás, é certamente muito relaxante assistir a um concerto, almoçar no parque ou ler na praia assim toda enrolada no chão, de pernas dormentes, atada com uma correia. 
Mesmo que haja alguém que tenha uma predilecção por usar o chão como assento, duvido que uma fita para amarrar as pernas e segurar as costas seja essencial para o efeito. Quem quiser pode atingir exactamente a mesma dor de costas, de pernas e de glúteos sentando-se à chinês, ou sobre os joelhos. Ou, querendo usar fita, há sempre as correias de bagagem da Samsonite que, além de fazerem o mesmo efeito visual, têm a vantagem acrescida de, tendo cadeado, proporcionar um assento mais seguro.

Parodiar este objecto é realmente irresistível. Mas, graças à parte, a verdade é que o cinto Chairless deixa uma mensagem insólita: é o próprio design que elimina o objecto a criar. O ponto de partida - criar um assento, uma cadeira - não é a base do ponto de chegada, pois o resultado é, no final, uma não-cadeira. Ou, se quiserem, o design desfigura - literalmente, porque destrói a figura que a ela está associada - a ideia de cadeira. No fundo, é a pessoa que, com o cinto, se transforma na própria cadeira, é da fusão entre um objecto e o utilizador que nasce um outro objecto, aquele que se pretendia criar.


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O segundo objecto chama-se Selfshelf (6 a 9) e é uma estante, criada por Nicole Van Schouwenburg em colaboração com Irene Klinkenberg, para a Skylla, loja da primeira. O nome é apropriado, pois a ideia é transformar o que se costuma pôr na estante (livros) na própria estante, que assim fica camuflada. A estante, em si, é um suporte forrado como se fosse um livro (é o "livro" de baixo, nas figuras), que depois é aparafusado à parede de forma invisível (9). O resultado parece um truque de ilusionismo: os livros parecem flutuar, sem suporte, junto à parede.


Na verdade, a Selfshelf só pode ser uma estante com problemas sérios de identidade. É uma estante em forma de livro que não quer assumir ser estante, mas que também não é livro. Nem quer ser. O nome do pseudo livro que serve de estante é uma espécie de disclaimer - para que fique claro, ceci n'est pas un livre. Mas ceci n'est pas une étagère aussi. Será assunto para psiquiatra resolver. Adiante.

A coisa tem alguma graça e, tal como no cinto Chairless, a ideia de base é parecida: o design anula-se a si mesmo. Porque o resultado, no final, é também uma não-estante, como a não-cadeira. Mas, se no cinto Chairless a cadeira (isto é, a função de cadeira) acaba por resultar da conjugação do utilizador com o cinto, na estante Selfshelf a estante deixa de existir quando é usada. Não se vê a função de estante, é apenas um molho de livros suspensos na parede. A estante torna-se invisível quando é usada, e visível quando não é.





O terceiro objecto chama-se Invisible (10 e 11) e é uma cadeira criada por Tokujin Yoshioka, em colaboração com o Presidente da Kartell, marca que apresentou este móvel no Salone del Mobile em 2010. A cadeira faz parte de uma colecção maior, chamada, precisamente, de The invisibles, e composta por mesas, sofás, cadeiras e bancos.
ideia de base reside, aparentemente, no facto de a tecnologia ter reduzido as experiências sensoriais e de haver necessidade de recuperar essas experiências - fazendo, por exemplo, com que tenhamos consciência das fronteiras do nosso corpo (como sucede com esta cadeira).
Como o próprio nome já deixa adivinhar, o objectivo da cadeira é desaparecer. Feita em policarbonato sólido, a cadeira Invisible foi moldada de forma a que, de determinadas perspectivas, não se veja de todo. Ironicamente, quando se consegue ver, tem uma aparência primária, grosseira, espessa (10).
Quando está a ser usada, parece que o utilizador flutua sentado (11). É uma espécie de design sci-fi.

A tendência para o mobiliário transparente já não era novidade ao tempo da criação da cadeira Invisible. Basta lembrar a Ghost Chair de Philippe Stark e tantos outros objectos feitos em acrílico. Mas, o que se pretende com a cadeira Invisible é mesmo suprimir visualmente a cadeira, o que não sucedia com os anteriores móveis transparentes, em que a transparência era apenas um toque de irreverência (o tal fazer diferente, às vezes só porque sim).

Digamos que a cadeira Invisible é o cúmulo da discrição. Uma cadeira tão discreta que nem se vê. O minimalismo levado ao limite. Ainda assim, e saindo do plano conceptual - porque aqui falamos de móveis que chegaram a ser produzidos -, não consigo perceber bem qual a ideia de disfarçar um assento. Por que razão se há-de esconder uma cadeira? Ou mesmo uma mesa, um sofá, um banco? Sobretudo quando os resultados mais imediatos serão, nos primeiros tempos, nódoas negras causadas por múltiplas caneladas dadas na mobília invisível?  
É que, neste caso, e ao contrário da estante Selfshelf, a cadeira só existe quando é usada, porque só aí se percebe que ali está uma cadeira. Se ninguém se sentar nela, não se vê, é como se não existisse.

Estes três objectos são entre si muito diferentes, a vários níveis. Mas a ideia transversal que está na base de todos eles é, parece-me, apenas uma: a de que o design enquanto processo nem sempre leva ao design enquanto resultado. Em algumas situações, o resultado é, pura e simplesmente, o não-design. O design nega-se a si mesmo. O que se objectifica é, apenas, o uso que se dá ao não-objecto. O objecto, em si, desaparece: ou no processo de design, como no cinto Chairless, ou quando é usado, como na estante Selfshelf, ou quando não é usado, como na cadeira Invisible. No fundo, o uso passa da acção para o objecto, numa ode à função. 

14/05/2013

Weniger, aber besser


Quem compra uma estante tem normalmente uma motivação funcional, ou não fosse a estante o mais funcional dos móveis de arrumação. É uma peça de segundo plano, que tem como única razão para justificar a sua existência o facto de servir de suporte ou expositor a outros objectos.

Se o motivo para a sua compra é um, já os critérios que ditam a escolha de uma estante podem ser vários: ou o objectivo é arrumar coisas (hipótese mais comum), ou é dar destaque ao que lá se põe (hipótese um pouco menos comum) ou, ainda, selecciona-se o que lá se põe para fazer sobressair a estante (hipótese que se verifica tipicamente em casos agudos de designodependência, e que muitas vezes confirma o diagnóstico). Não é impossível alguém guiar-se pelos três, e então a escolha torna-se mais difícil.

Mas há muitas opções para os designodependentes que partilham triviais preocupações de arrumação com os restantes mortais. Uma delas chama-se String, foi desenhada por Nils Strinning em 1949 e é fabricada pela String Furniture AB (ver pics 1 e 2). Outra chama-se 606 Universal Shelving System, foi desenhada por Dieter Rams em 1960 e é fabricada pela Vitsoe (ver pics 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10). É desta última que queria falar aqui. Por nenhuma razão em especial, apenas porque, apesar de gostar das duas, esta me diz mais alguma coisa do que a primeira.

À primeira vista, o sistema de estantes 606 da Vitsoe, na sua versão standard, faz lembrar as estantes corridas de uma qualquer biblioteca (aliás, muitas bibliotecas usam este sistema de estantes - ver pic 9): prateleiras de metal de cor ligeiramente indefinida, a puxar para a cor de rato, unidas entre si por uma estrutura em alumínio que parece mais apropriada para uma loja de ferragens. Também à primeira vista, é coisa cinzenta, fria, insonsa, desinteressante (3). O próprio nome não é fascinante - 606 -, derivando da junção do ano de criação do produto (60) com a numeração do fabricante (foi o 6.º produto da Vitsoe).

Mas isso é apenas à primeira vista.

A verdade é que - pelo menos para mim - as estantes 606 da Vitsoe são bonitas (e há outras cores, para quem não goste do metal cor de rato). Além disso, estranhamente, são versáteis. Estranhamente porque não é nada óbvio que uma estante de metal consiga enquadrar-se de forma tão harmoniosa numa biblioteca utilitária (4), numa sala de estar decorada com tons quentes em madeira (5), num escritório (6) ou num quarto infantil colorido (7). Até numa cozinha (8). Sempre sem perder o seu propósito, e sempre sem deixar de se integrar com o resto dos móveis, independentemente do seu estilo.

Rams desenhou este sistema de estantes em 1960, altura em que também ia alinhando o que veio a chamar mais tarde de dez princípios orientadores do "bom design", que muito contribuíram para que viesse a ser considerado um dos designers mais influentes do séc. XX.

Segundo Rams, o "bom design" é 1) inovador, 2) torna um produto útil, 3) estético, 4) auto-explicativo, 5) não obstrutivo, 6) honesto, 7) intemporal, 8) pensado ao detalhe, 9) amigo do ambiente e, por fim, 10) o mínimo de design possível.

É certo que a estante 606 passa com distinção e louvor em todos esses critérios, no que se refere ao seu design. Por exemplo, não há como negar que o design da estante a torna útil (sobretudo porque despreza todos os elementos que poderiam prejudicar a sua utilidade) e que não é obstrutivo (o seu design é neutro, dá espaço ao utilizador para a integrar no ambiente que quiser). Ou que o seu design é honesto (não faz com que a estante pareça mais do que é) e intemporal (como o seu design não seguiu nenhuma moda específica, nunca ficará fora de moda).

Mas é especialmente em relação ao último critério que a estante 606 se destaca. Na verdade, o design da estante 606 da Vitsoe reduz-se ao estritamente essencial para cumprir a função do objecto. Não há adornos, enfeites, elementos decorativos, distracção visual. Só aquilo que importa. Weniger, aber besser (ou, em português, menos, mas melhor), de volta à pureza e à simplicidade, nas palavras de Rams.

E, neste caso, reduzir a estante àquilo que importa é o que lhe dá uma beleza difícil de explicar num objecto funcional que é feito de placas de metal e de ferragens em alumínio. Curiosamente, a ideia que está na base da sua criação - reduzir o design do objecto ao mínimo possível - acaba por lhe dar um protagonismo improvável: as estantes 606 da Vitsoe fundem-se com os objectos que suportam mas, ao mesmo tempo, adquirem uma autonomia visual própria. Como se a função passasse a ser, também, visualmente atraente.
Com ou sem objectos, a estante deixa de ser um mero suporte, um móvel secundário, para se tornar no elemento principal.



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