O design é, por natureza, matéria que vive do esforço permanente de inovação dos que nele (ou com ele) trabalham. Todos querem ser originais, todos querem criar algo verdadeiramente novo. Fazer diferente é, para muitos, imprescindível para fazer melhor. Fazer parecido, mesmo que seja para melhorar alguma coisa, não é valorizado da mesma forma.
Mas, nos dias que correm, fazer diferente é cada vez mais difícil. Fazer diferente acaba por ser, muitas vezes, equivalente a misturar o existente, agitar bem e dar-lhe outro embrulho, outra função, outra existência. E é nesse baralhar e dar de novo que muitas vezes surgem soluções fantásticas. Ou não fosse a reciclagem de ideias, ela própria, fonte de originalidade.
Apesar disso, mas no meio dessa ânsia de fazer diferente, tem surgido uma moda curiosa, cujo mantra se baseia, provavelmente, nas seguintes perguntas sucessivas:
E se, em vez de mostrarmos o design, o tornarmos invisível?
Melhor: e se, usando o design, descaracterizarmos (ou, até, suprimirmos) o próprio objecto?
Estas perguntas, à primeira vista absurdas, podiam levar a um design puramente conceptual, ou a um design experimentalista, que se esgotaria apenas nisso. Mas não. Por estranho que pareça, essa tal moda - uma espécie de não-design - tornou-se, em certa medida, comercial.
Vejam-se, por exemplo, os três objectos que passo a descrever.
O primeiro chama-se Chairless (1 a 4) e é qualquer coisa entre cinto/correia/fita criada por Alejandro Aravena em 2010, para a Vitra. Foi inspirado nas correias que os membros de uma tribo nómada ancestral que vive entre a Bolívia e o Paraguai usam para se manterem sentados no chão (5). De acordo com a descrição da marca, este cinto permite que os seus utilizadores se sentem de uma forma relaxada, sem nenhuma cadeira ou apoio de costas, oferecendo uma solução perfeita para quando não há cadeiras à mão (almoçar no parque, esperar num aeroporto, assistir a um concerto, ler na praia, etc). Muito leve e compacto (outra coisa não se esperaria de um cinto, diria eu), o cinto Chairless pode ser levado para todo o lado, aliviando a coluna e as pernas, de modo a que o utilizador não tenha de abraçar os próprios joelhos para se manter sentado, ficando com as mãos livres para fazer outras coisas.
Sobre o objecto em si, enfim, será com certeza muito útil para quem gosta de se sentar no chãozinho duro, frio e sujo que toda a gente pisa. Sobretudo num aeroporto, não vejo melhor forma de esperar seis horas pelo próximo voo que não sentada no chão, pelo menos enquanto não se é atropelado por uma vertiginosa mala de rodinhas. Aliás, é certamente muito relaxante assistir a um concerto, almoçar no parque ou ler na praia assim toda enrolada no chão, de pernas dormentes, atada com uma correia.
Sobre o objecto em si, enfim, será com certeza muito útil para quem gosta de se sentar no chãozinho duro, frio e sujo que toda a gente pisa. Sobretudo num aeroporto, não vejo melhor forma de esperar seis horas pelo próximo voo que não sentada no chão, pelo menos enquanto não se é atropelado por uma vertiginosa mala de rodinhas. Aliás, é certamente muito relaxante assistir a um concerto, almoçar no parque ou ler na praia assim toda enrolada no chão, de pernas dormentes, atada com uma correia.
Mesmo que haja alguém que tenha uma predilecção por usar o chão como assento, duvido que uma fita para amarrar as pernas e segurar as costas seja essencial para o efeito. Quem quiser pode atingir exactamente a mesma dor de costas, de pernas e de glúteos sentando-se à chinês, ou sobre os joelhos. Ou, querendo usar fita, há sempre as correias de bagagem da Samsonite que, além de fazerem o mesmo efeito visual, têm a vantagem acrescida de, tendo cadeado, proporcionar um assento mais seguro.
Parodiar este objecto é realmente irresistível. Mas, graças à parte, a verdade é que o cinto Chairless deixa uma mensagem insólita: é o próprio design que elimina o objecto a criar. O ponto de partida - criar um assento, uma cadeira - não é a base do ponto de chegada, pois o resultado é, no final, uma não-cadeira. Ou, se quiserem, o design desfigura - literalmente, porque destrói a figura que a ela está associada - a ideia de cadeira. No fundo, é a pessoa que, com o cinto, se transforma na própria cadeira, é da fusão entre um objecto e o utilizador que nasce um outro objecto, aquele que se pretendia criar.
Parodiar este objecto é realmente irresistível. Mas, graças à parte, a verdade é que o cinto Chairless deixa uma mensagem insólita: é o próprio design que elimina o objecto a criar. O ponto de partida - criar um assento, uma cadeira - não é a base do ponto de chegada, pois o resultado é, no final, uma não-cadeira. Ou, se quiserem, o design desfigura - literalmente, porque destrói a figura que a ela está associada - a ideia de cadeira. No fundo, é a pessoa que, com o cinto, se transforma na própria cadeira, é da fusão entre um objecto e o utilizador que nasce um outro objecto, aquele que se pretendia criar.
O segundo objecto chama-se Selfshelf (6 a 9) e é uma estante, criada por Nicole Van Schouwenburg em colaboração com Irene Klinkenberg, para a Skylla, loja da primeira. O nome é apropriado, pois a ideia é transformar o que se costuma pôr na estante (livros) na própria estante, que assim fica camuflada. A estante, em si, é um suporte forrado como se fosse um livro (é o "livro" de baixo, nas figuras), que depois é aparafusado à parede de forma invisível (9). O resultado parece um truque de ilusionismo: os livros parecem flutuar, sem suporte, junto à parede.
Na verdade, a Selfshelf só pode ser uma estante com problemas sérios de identidade. É uma estante em forma de livro que não quer assumir ser estante, mas que também não é livro. Nem quer ser. O nome do pseudo livro que serve de estante é uma espécie de disclaimer - para que fique claro, ceci n'est pas un livre. Mas ceci n'est pas une étagère aussi. Será assunto para psiquiatra resolver. Adiante.
A coisa tem alguma graça e, tal como no cinto Chairless, a ideia de base é parecida: o design anula-se a si mesmo. Porque o resultado, no final, é também uma não-estante, como a não-cadeira. Mas, se no cinto Chairless a cadeira (isto é, a função de cadeira) acaba por resultar da conjugação do utilizador com o cinto, na estante Selfshelf a estante deixa de existir quando é usada. Não se vê a função de estante, é apenas um molho de livros suspensos na parede. A estante torna-se invisível quando é usada, e visível quando não é.
A coisa tem alguma graça e, tal como no cinto Chairless, a ideia de base é parecida: o design anula-se a si mesmo. Porque o resultado, no final, é também uma não-estante, como a não-cadeira. Mas, se no cinto Chairless a cadeira (isto é, a função de cadeira) acaba por resultar da conjugação do utilizador com o cinto, na estante Selfshelf a estante deixa de existir quando é usada. Não se vê a função de estante, é apenas um molho de livros suspensos na parede. A estante torna-se invisível quando é usada, e visível quando não é.
O terceiro objecto chama-se Invisible (10 e 11) e é uma cadeira criada por Tokujin Yoshioka, em colaboração com o Presidente da Kartell, marca que apresentou este móvel no Salone del Mobile em 2010. A cadeira faz parte de uma colecção maior, chamada, precisamente, de The invisibles, e composta por mesas, sofás, cadeiras e bancos.
A ideia de base reside, aparentemente, no facto de a tecnologia ter reduzido as experiências sensoriais e de haver necessidade de recuperar essas experiências - fazendo, por exemplo, com que tenhamos consciência das fronteiras do nosso corpo (como sucede com esta cadeira).
Como o próprio nome já deixa adivinhar, o objectivo da cadeira é desaparecer. Feita em policarbonato sólido, a cadeira Invisible foi moldada de forma a que, de determinadas perspectivas, não se veja de todo. Ironicamente, quando se consegue ver, tem uma aparência primária, grosseira, espessa (10).
Quando está a ser usada, parece que o utilizador flutua sentado (11). É uma espécie de design sci-fi.
A tendência para o mobiliário transparente já não era novidade ao tempo da criação da cadeira Invisible. Basta lembrar a Ghost Chair de Philippe Stark e tantos outros objectos feitos em acrílico. Mas, o que se pretende com a cadeira Invisible é mesmo suprimir visualmente a cadeira, o que não sucedia com os anteriores móveis transparentes, em que a transparência era apenas um toque de irreverência (o tal fazer diferente, às vezes só porque sim).
A ideia de base reside, aparentemente, no facto de a tecnologia ter reduzido as experiências sensoriais e de haver necessidade de recuperar essas experiências - fazendo, por exemplo, com que tenhamos consciência das fronteiras do nosso corpo (como sucede com esta cadeira).
Como o próprio nome já deixa adivinhar, o objectivo da cadeira é desaparecer. Feita em policarbonato sólido, a cadeira Invisible foi moldada de forma a que, de determinadas perspectivas, não se veja de todo. Ironicamente, quando se consegue ver, tem uma aparência primária, grosseira, espessa (10).
Quando está a ser usada, parece que o utilizador flutua sentado (11). É uma espécie de design sci-fi.
A tendência para o mobiliário transparente já não era novidade ao tempo da criação da cadeira Invisible. Basta lembrar a Ghost Chair de Philippe Stark e tantos outros objectos feitos em acrílico. Mas, o que se pretende com a cadeira Invisible é mesmo suprimir visualmente a cadeira, o que não sucedia com os anteriores móveis transparentes, em que a transparência era apenas um toque de irreverência (o tal fazer diferente, às vezes só porque sim).
Digamos que a cadeira Invisible é o cúmulo da discrição. Uma cadeira tão discreta que nem se vê. O minimalismo levado ao limite. Ainda assim, e saindo do plano conceptual - porque aqui falamos de móveis que chegaram a ser produzidos -, não consigo perceber bem qual a ideia de disfarçar um assento. Por que razão se há-de esconder uma cadeira? Ou mesmo uma mesa, um sofá, um banco? Sobretudo quando os resultados mais imediatos serão, nos primeiros tempos, nódoas negras causadas por múltiplas caneladas dadas na mobília invisível?
É que, neste caso, e ao contrário da estante Selfshelf, a cadeira só existe quando é usada, porque só aí se percebe que ali está uma cadeira. Se ninguém se sentar nela, não se vê, é como se não existisse.
Estes três objectos são entre si muito diferentes, a vários níveis. Mas a ideia transversal que está na base de todos eles é, parece-me, apenas uma: a de que o design enquanto processo nem sempre leva ao design enquanto resultado. Em algumas situações, o resultado é, pura e simplesmente, o não-design. O design nega-se a si mesmo. O que se objectifica é, apenas, o uso que se dá ao não-objecto. O objecto, em si, desaparece: ou no processo de design, como no cinto Chairless, ou quando é usado, como na estante Selfshelf, ou quando não é usado, como na cadeira Invisible. No fundo, o uso passa da acção para o objecto, numa ode à função.





















