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28/07/2016

Marbrisa

Casa Marbrisa, John Lautner (Acapulco, México) 
fotografia de Thomas Loof


Esta fotografia fascina-me. As placas de cimento a servir de vignette à paisagem. As cores, a luz reflectida, o mar. O cimento amaciado pelas curvas e pelo brilho metálico do espelho de água. Não é bonito? O que eu não daria para estar ali.

Mas, mais do que tudo isso, o que me fascina é a abissal distância a que está da realidade. Esta fotografia retrata um pedaço de uma coisa maior, que eu nunca imaginaria se só conhecesse aquela imagem:











Isto é a casa Marbrisa, projectada por John Lautner para Jeronimo Arango em 1970 e construída em 1973 sobre a baía de Acapulco, no México. São 2.300 m2 de construção, numa estrutura gigante e futurista a fazer lembrar a Elrod House.

Foi aquela fotografia, a primeira, que a certa altura me fez vacilar: afinal, do que é que gosto ali? Do edifício fotografado ou da fotografia do edifício? Da arquitectura ou da fotografia? A resposta foi estranhamente imediata. Da fotografia, claro. Só da fotografia. Na verdade, detesto a casa fotografada. Para mim, é estapafúrdia, bruta, exagerada. Um ovni arquitectónico ali engolido pela vegetação tropical, um misto de cogumelo de cimento armado e de fóssil triste a fazer lembrar a construção soviética. Para mim, a única coisa que se aproveita é a vista – porque, lá está, além de ser fantástica, aprecia-se de costas voltadas para a casa.  

Dessa resposta nasceu outra pergunta: como pode aquela fotografia reproduzir e distorcer a realidade, ao mesmo tempo? Como pode aquela fotografia retratar esta casa? Foi aí que se encaixou aquela máxima tão gasta da fotografia. A fotografia mostra aquilo que o fotógrafo vê. Não é uma revelação química de imagens, não é uma fotocópia da realidade. É uma interpretação. It has little to do with the things you see and everything to do with the way you see them, como diz Elliott Erwitt. É certo que qualquer reprodução da realidade é sempre uma interpretação (não é o que o homem faz permanentemente, interpretar, editar?). Mas o poder da fotografia está na aparência de objectividade absoluta que dá. A fotografia engana-nos com um resultado impossível de contestar – a captação de imagens reais, através de um processo mecânico e exacto – e leva-nos a crer que é um fenómeno objectivo. Não é. Nunca poderia ser. You don’t take a photograph, you make it.

Tudo na fotografia é edição: o ângulo, a luz, a perspectiva, o momento. E, em especial, aquilo que se escolhe não fotografar. Muitas vezes o que é mais importante numa fotografia é aquilo que não está lá. O que decide a imagem pode ser o que ela não revela, o seu verdadeiro negativo. Aqui, a impressão que eu guardo daquele momento fotografado em Marbrisa nunca seria a mesma se o fotógrafo tivesse feito menos zoom. É o que ficou de fora que define esta fotografia.

Não deixa de ser estranho que esta sensação me tenha surgido com fotografia de arquitectura. Como pode a fotografia de arquitectura não ser objectiva? Do lado de lá da câmara estão volumes monolíticos, estáticos, adormecidos. E esses volumes não se manifestam, não se exprimem. Mas é precisamente por isso que o fotógrafo tem campo livre para os manipular e para os distorcer e, na mesma medida, para lhes dar vida – ou várias vidas, todas diferentes. Sem filtros, sem Photoshop, só com decisões mecânicas.

Jean Baudrillard dizia que a fotografia matou a realidade. É talvez uma forma de dizer com algum drama que a fotografia interpreta a realidade, acrescenta algo para além dela. Na arquitectura, a fotografia é uma linguagem que tanto pode honrá-la como traí-la. É o que acontece com a casa Marbrisa. Aquela fotografia é uma traição. Leva-nos a crer numa coisa que não existe. A casa Marbrisa não está naquela fotografia, apesar de a fotografia ser da casa Marbrisa.

Tudo isto fez aparecer uma dúvida que não sabia que tinha: de que gosto mais, de arquitectura ou de fotografia? Não sei. Enquanto não descubro, vou ali à amazon comprar uns livros sobre filosofia da fotografia.

[(fotografias aqui]

11/02/2014

Dão-se alvíssaras

A quem me souber dizer que edifício é este, e que montanha é aquela, lá atrás. Encontrei a fotografia perdida pela internet, e não consigo tirar os olhos dela.



30/01/2014

A cidade em perspectiva

Hoje vi uma coisa no Designboom que não podia deixar de mostrar aqui no Pufe: as fotografias de Alexandre Jacques, tiradas a edifícios em Paris, Nova Iorque e Brisbane. É-me difícil olhar para elas durante muito tempo, porque os olhos escorregam por estes mosaicos tão perfeitos e tão lisos, sem terem nenhum ponto de interrupção onde se possam agarrar.

Nelas, a arquitectura desaparece. Os edifícios deixam de existir, para se transformarem em quadrículas complexas, descontextualizadas, desumanizadas. Ao mesmo tempo tão artificiais e tão orgânicas, ou não fosse a própria natureza feita de padrões, de fractais e de repetições. O ângulo em que as fotografias são tiradas é escolhido de modo a mostrar apenas uma teia ritmada e contínua de linhas e de formas geométricas. Uma cidade computorizada. Mas, lá está, é apenas deste ângulo. De outros, tudo é diferente. De outros ângulos, haverá post-its nas janelas, folhas desarrumadas na secretária, um pacote de bolachas meio comido, um casaco pendurado à pressa, um desenho de uma criança colado ao monitor do computador com fita-cola. É sempre (e se calhar só) uma questão de perspectiva. 


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10/11/2013

A neve e a guerra

A guerra é um tema bruto, feio, incómodo. Foi em parte essa impressão que os arquitectos do Canadian War Museum (Moriyama & Teshima Architects e Griffith Rankin Cook Architects), em Ottawa, quiseram deixar. Uma construção austera a lembrar um bunker, áspera, angulosa e monumental, feita em cimento grosseiro e desconfortável, deixado em cru (1 a 3).

Mas a neve amacia tudo. Em contraste com o branco, o edifício acalma (4 a 11). A neve é clemente, silencia o ruído visual, alisa as imperfeições, suaviza as arestas (4 a 11).


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[Fotografias 1 a 3 nos respectivos links; fotografias 4 a 11 de Karen McRae, aqui]

07/11/2013

Arquitectura esquecida

Até hoje fui sempre futuro, dizia Almada Negreiros. Eu, há bem pouco tempo, deixei de ser futuro e passei a ser presente. Mas nunca serei passado.

Apesar disso, estas imagens não me foram indiferentes. Porque nunca me são indiferentes as fotografias que conseguem mostrar o que já não está lá, o que um dia foi e já não é. Estas fotografias serão sempre passado.

Thomas Jorion fotografou palácios e casas senhoriais abandonadas, pela Europa fora. Chamou--lhes Palais oubliés. Sítios que um dia foram decadentes pela opulência e que hoje são decadentes pela degradação. Edifícios que podem estar a cair pedaço a pedaço, mas que se recusam a perder a cor [1 a 12]. 

Sven Fennema fez coisa semelhante. Fotografou castelos, igrejas e palácios de que o tempo, os elementos e a natureza se apoderaram [13 a 25].

Em todos, o brilho do passado ainda está lá, de uma forma ou de outra. Todos brilham, ainda que a outra luz.


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