Pronto, eu confesso. O título deste post foi propositamente escolhido para desconcertar um bocadinho os leitores. E tornar isto tudo menos sério, porque tudo o que é muito sério é uma perda de tempo.
Não é que não se vá falar de mulheres nuas - vai-se falar, imagens incluídas -, mas também há mulheres vestidas. Tudo dentro do limite da decência e do decoro, que este blogue tem classe e não é para conversas impróprias.
E não, eu não tenho nenhum interesse especial em relacionar assuntos atrevidos com design, apesar de já ser o
segundo post sobre estes temas. É coincidência. Lembrei-me de algumas imagens que ficaram para a história do design (e que também retratam mulheres) e não resisti a falar sobre isso - sobretudo porque, transposta para os dias de hoje (e nos dias de hoje ainda há exemplos), acho a coisa ligeiramente extraordinária.
Deixemo-nos de conversa fiada e passemos ao que interessa. Ou seja, às imagens que, pelo menos para mim, são representativas da relação entre as mulheres - enquanto figura retratada - e o design. Datam de 1926 a, pelo menos, 2010. Uma parte das imagens pertence a campanhas publicitárias das marcas que produziram as cadeiras (2, 3, 4, 12, 14, 15), outras não. Algumas são, inclusivamente, apenas fotografias ditas artísticas, para as quais foram escolhidas cadeiras de design como
props (1, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 13). Para facilitar, a descrição de cada uma delas segue depois da fotografia.
A utilização da figura da mulher para dar a conhecer objectos de design não era, nos tempos idos, insólita. Era até bastante comum. Na perspectiva de que
aqui falei, o design foi em certa medida posto ao serviço de uma espécie de reeducação do homem dito moderno, atento às novas modas e às novas tecnologias, e, nesse contexto, é claro que a figura feminina tinha um papel importante na publicidade. Até porque na maior parte dos casos era o homem o responsável pelo sustento da família. Se havia alguém que devia ser convencido a comprar móveis de design, era o homem, não a mulher.
Veja-se, por exemplo, o anúncio dos anos quarenta de uma marca chamada Burroughs, que recorre a uma simpática e sorridente funcionária de escritório para promover as virtudes da cadeira, e que, acéfala mas alegremente, testemunha que
women aren't supposed to know much about engineering. But I think they recognize quality just about as quickly as men do. And the girl who sits all day at work soon learns a few things about quality in chairs (2).
Ou, ainda, o anúncio dos anos sessenta da cadeira
Tulip (3), criada por Saarinen para a Knoll, que, apesar de retratar uma mulher moderna, de calças e tudo, sentada numa posição pouco convencional, a embrulha em papel pardo com a cadeira e pergunta ao leitor
may we send you an illustrated brochure?, como se a mulher fosse, na graçola publicitária, uma espécie de adereço decorativo oferecido com a
Tulip chair.
Naqueles tempos, essa instrumentalização da mulher era real. Não há como negar. Mas transpô-la para os dias de hoje é estranho (não falo, naturalmente, da utilização da figura da mulher para outras finalidades - nem me atrevo a nomeá-las -, mas apenas daquela que diz respeito à comercialização de objectos de design).
No entanto, isso ainda acontece. Basta ver o anúncio da cadeira
Eros, criada por Philippe Starck para a Kartell (15). Será a mesma coisa? O objectivo é o mesmo? Não me parece. Mesmo fotografada como veio ao mundo, a mulher do anúncio da Kartell não foi sexualizada. Nem sequer está sentada numa posição muito feminina. Apesar de elegante, a postura da mulher é quase fetal, embrulhada em si mesma dentro da concha de plástico da cadeira. Está completamente nua, mas não é uma fotografia obscena. Longe disso. É o chamado nu decente. A modelo,
inclusive, tem um ar plácido e sereno, ligeiramente tímido. Veja-se que, ao contrário das mulheres de outras fotografias, cuja força está no olhar fixo e provocador, esta não olha para a câmara.
Não é, pois, a quantidade de pele mostrada que faz a diferença: será porventura mais sensual a fotografia de uma Angelina Jolie mais tapadinha, a fulminar o fotógrafo com o olhar (13), ou de uma
Christine Keeler que à vista só tem braços e pernas (7), do que esta, uma mulher totalmente nua sentada em cima de uma cadeira transparente. O que, aliás, não deixa de desconcertar, porque não se alcança o objectivo. Se a cadeira se chama
Eros, e se é publicitada com uma mulher nua, por que razão aparece ela assexuada e com um ar
zen? Não consigo perceber.
Sem prejuízo destas reflexões aleatórias, é engraçado ver como estas fotografias - tanto as publicitárias como as supostamente artísticas - ilustram tão bem os vários papéis que as mulheres foram assumindo na sociedade, e a forma como a sua postura se foi alterando ao longo do tempo (apenas, claro, por referência exclusiva ao que resulta das fotografias, e independentemente da personalidade de cada uma das mulheres retratadas, que desconheço). Basta identificar algumas: há a mulher submissa e bem comportada (2), há a mulher moderna, discreta, descontraída e com classe (3, 5), há a mulher irreverente fora de tempo, ou em modo surrealista (1, 4), há a mulher objecto (10, 11, 12), há a mulher igual ao homem (14), há a mulher assexuada (15), há a mulher
sexy e poderosa (6, 7, 8, 9, 13).
Até agora falei mais das mulheres. E perguntarão os leitores: então e as cadeiras? Pois bem, as cadeiras falam por si. E dizem muita coisa. Desde logo, dizem muita coisa acerca da sua capacidade de adaptação à atitude de quem nelas se senta.
Reparem:
A cadeira
Wassily (1) causou, na altura em que foi criada - nos anos 20 -, uma revolução no design de cadeiras, o que também transparece na postura e na imagem da mulher fotografada (sobretudo considerando que corria o ano de 1926).
A mulher descontraída com classe - por exemplo, Françoise Hardy - usa igualmente uma cadeira descontraída com classe - a
Eames Lounge Chair, uma poltrona mole e fofa, mas cheia de estilo (5).
A mulher igual ao homem usa a mesma cadeira que este usa, direita, simples e sem curvas excessivas (14). A única diferença - e não é uma diferença inocente - é que a cadeira da mulher é feita em metal polido e tem brilho e a do homem, em metal escovado, é baça.
Por outro lado, as mulheres representadas como
sexy e poderosas estão sentadas em cadeiras também elas
sexy e poderosas: não há cadeira mais curvilínea que a cadeira
Egg (9), ou mais carnuda que a cadeira
Panton, que, então em vermelho, parece lamber quem nela se senta (10, 11), ou mais sado-masoquisticamente erótica que a cadeira
Smoke, que, com o seu ar meio gótico, feita em madeira queimada pelo fogo (!), agradará a qualquer
dominatrix (13).
Aliás, e a propósito da cadeira
Panton, quem não a conhecer dificilmente pode imaginar, só com as imagens acima (10, 11) que a mesma também é produzida para
crianças, em tamanhos pequenos e cores vibrantes, e assumindo uma personalidade divertida e infantil.
Ou seja, a cadeira, um objecto tão vulgar, tão trivial, pode ter mil caras. E algumas dessas caras podem ruborizar os mais incautos.
Deixo uma nota final: a imaginação não tem limites e, por isso, quem, como eu, por curiosidade científica, andar inocentemente pela internet a procurar imagens através das palavras
naked women on chairs, ou mesmo
naked women on design chairs, poderá encontrar algumas surpresas. Pista: não tem muito que ver com design. Depois não digam que não avisei.