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21/08/2013

As tentações do papel de parede

O tema papel de parede, que fica algures entre o design gráfico, o industrial e a decoração de interiores, causa-me algum desconforto. Não é coisa que me horrorize em abstracto, mas a ideia de pôr papel de parede soa-me sempre a decisão definitiva e irreparável. 

De certa forma, seria semelhante a fazer uma tatuagem (se bem que o mundo das tatuagens não é de todo a minha praia): mais tarde ou mais cedo a pessoa farta-se daquilo, arrepende-se ou tem vergonha do que um dia achou fantástico e depois é o cabo dos trabalhos para tirar. Salvaguardando as devidas distâncias (e, além disso, a dor do laser), tirar da pele ou da parede causar-me-ia a mesma dor de alma. A mesma sensação de assunto mal resolvido.

É fácil nem sequer pensar no papel de parede como opção quando as escolhas se limitam aos padrões psicadélicos ou florais género anos 70, aos desenhos à Querido-Mudei-a-Casa ou às agora muito na moda imagens de estantes recheadas de livros, em trompe-l'oeil de bibliotecas fartas.

Mas o meu coração balança quando vê determinados papéis de parede. Por exemplo, os que estão nas imagens abaixo. Uns discretos, outros nem por isso, alguns até bastante arrojados e em registos muito diferentes, todos eles me fazem acreditar, por segundos, na temerária ideia de que até podia ficar bem.

O que vale é que depressa volto à realidade. Afinal, o papel de parede é uma zona perigosa, como bem se vê no conto sinistro de Charlotte Perkins Gilman, The Yellow Wallpaper: I'm getting really fond of the room in spite of the wall-paper. Perhaps BECAUSE of the wall-paper. It dwells in my mind so!

[texto integral do conto The Yellow Wallpaper aqui]


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13/08/2013

Pseudo mármores

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O design tem muitas vezes destas coisas de tentar fazer parecer: tentar fazer parecer o que tipicamente é (1 e 2 - papel de parede a imitar paredes de cozinha em mármore), tentar fazer parecer o que até podia ser mas não é (3 e 4 - cadeirão Luís XV forrado em tecido com padrão fotográfico de mármore), ou mesmo tentar fazer parecer o que nunca podia ser (5 e 6 - lençóis em tecido com padrão de mármore).

Daí resultam sinestesias: basta olhar para sentir o frio da pedra que não existe, a dureza de um mármore feito de tecido e de papel.


E convenhamos, considerando o preço do mármore de Carrara, sempre se presumiria como mais barata uma destas opções. Mas não tenho a certeza. Aos preços anunciados, pelo menos sai quase tão cara a imitação como o original. Talvez porque, nestes casos, a imitação é ela própria um original. Na verdade, nenhum daqueles objectos quer ser confundido com mármore: o que eles queres é que todos olhem para eles e vejam como, sendo uma coisa, conseguiram a proeza de parecer outra. O fazer parecer, em todos eles, é totalmente assumido como a originalidade.



Papel de parede aqui [Ferm living], cadeirão aqui [desenhado por Maurizio Galante para a Cerrutti Baleri], roupa de cama aqui [Safe House USA]