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25/09/2014

Os sofás cutchi

O Pufe acordou hoje com vontade de falar sobre a moda dos sofás cutchi. É uma moda que se vai insinuando devagarinho, mas que está para ficar.

Por norma, o sofá é um móvel grande, o protagonista da sala de estar. Tem tendência a ser o mais discreto, por isso mesmo. Se é um bicho que mete respeito, é também um dos que quer passar despercebido, como um grande elefante envergonhado. Já basta o tamanho que tem. Por isso aparece tantas vezes com cores neutras, padrões sérios e formas discretas. Quem compra um sofá raramente se aventura em grandes excentricidades. É muito material, ali a ocupar a sala quase toda, há que escolher, diz-se, o que se funde melhor com o resto dos móveis e o que, todos os dias, nos diz não-olhes-para-mim-assim-eu-sou-só-um-sofá-e-não-tenho-culpa. Estes dois, abaixo, são exemplos disso (se bem que são mais uns falsos tímidos, cada um no seu género).


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Sofa, Florence Knoll, 1954, Knoll (aqui)

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Onkel Sofa, Simon Legald, 2012, Normann, aqui


Mesmo os sofás em pele tipo chesterfield são, devo reconhecer, portentosos exemplares de algum recato, ainda que armados em peça de luxo. É claro que os odeio, sejam feios ou bonitos, porque para mim não há assento pior que um sofá em pele. É mau quando a pele do sofá está fria, é ainda pior quando está quentinha (por causa do utilizador anterior) e parece que nos sentamos no lombo do próprio animal. É mau porque o sofá faz aquele chiar esquisito de cada vez que relutantemente nos mexemos, é ainda pior porque tem aquele cheiro duvidoso (será mesmo da pele?). E é péssimo, acima de tudo, porque não se pode lavar [blergh]. Para mim, um sofá em pele é um troféu como os outros: só faz sentido com tapete de pele de urso espalmado no chão e torso de veado na parede. Ou seja, não faz sentido nenhum. Mas, lá está, é uma questão de gosto. No fundo, é como a eterna e profundíssima discussão cueca vs. tanga, ou slip vs. boxer: com as devidas distâncias em relação aos sofás (que na prática nem são muitas), cada um é que sabe como prefere acomodar o respectivo dito.

Mas voltando aos sofás. Se a tendência é normalmente para o estilo sóbrio, a verdade é que há também por aí uns grandes malucos (sempre houve, mas agora há mais). São as divas do design, histéricas e extravagantes. Nas formas, nas cores, nas texturas, às vezes em tudo ao mesmo tempo, ao ponto de alguns sofás serem verdadeiros travestis mobiliários. Seguem alguns exemplos.


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Victoria and Albert Sofa, Ron Arad, 2000, Moroso, aqui

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Alcove Sofa, Ronan & Erwan Bouroullec, 2006, Vitra, aqui


Como é óbvio, isto ainda é o mundo do design considerado respeitado, onde se assegura uma garantia mínima de bom gosto e de qualidade. Mas às vezes essa garantia é muito ténue. Há por aí muita coisa que se aproxima perigosamente das criações de algumas lojas ali da Rua da Estefânia ou da Pascoal de Melo, onde pululam imitações mal amanhadas de grandes clássicos, contraplacados baratuchos, madeiras lacadas horripilantes e afins, imersos, claro, em tapetes de pelo comprido (normalmente roxos), móveis estofados (normalmente em tipo pele branco), mesas de centro em acrílico (normalmente azulado), papel de parede adamascado (normalmente com tons dourados) e telas “arte abstracta” ou stencils de parede com citações de Nicholas Sparks, tudo 100% poliéster made in China.

Retomando. Entre os sofá diva, há alguns subversivamente infantis. São os sofás cutchi-cutchi, que estão abaixo. Só mostro alguns, para não enjoar. É muito açúcar.


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Nubilo Sofa, Constance Guisset, 2014, Petite Friture, aqui

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My Beautiful Backside, Nipa Doshi & Jonathan Levien, 2008, Moroso, aqui

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My Beautiful Backside outra vez, agora versão gelatina de limão

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My Beautiful Backside, ainda outra vez, em azul bebé


São todos redondinhos, com almofadas em forma de rebuçadinho, tons pastel e padrões bilu bilu. As almofadinhas são mesmo a pedra de toque. Muitas almofadinhas, de vários tamanhos e feitios. É uma espécie de sofá meets tribo urbana japonesa. De clássicos semi bocejantes, os sofás passaram a big cuties cheios de corante artificial, que dificilmente resistirão à flutuação dos boards do Pinterest.

Comprar um sofá destes é como ir a uma loja de gomas. Mas, em vez de dor de barriga, estes sweeties causam dor de bolso: o preço – do Nubilo Sofa, € 2.600,00, e do My Beautiful Backside, pasme-se, € 13.320,00 – não é nada queridinho.

20/05/2014

Bibendum


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Quem não conhecer esta poltrona certamente pensará que ela é um modelo recente. Tem um ar modernaço, quase que podia estar no catálogo do próximo Inverno das melhores lojas de design (por acaso é uma peça exclusiva de uma delas, a Aram Store).

Mas não é. E não é apenas a sua idade que impressiona. Há três dados interessantes sobre esta peça, que aqui deixo por ordem crescente de estupefacção induzida:
A fonte de inspiração? Aquele famosíssimo boneco feito de pneus, marca eterna da Michelin, chamado Bibendum (é também o nome desta poltrona).
A época em que foi concebida? Início dos anos 20 do séc. XX (talvez um pouco antes).
O seu criador? Uma mulher semi-aristocrata irlandesa, Eileen Gray.

Eileen Gray é uma das designers mais importantes do século passado, ainda que grande parte do seu reconhecimento seja póstumo (também tem alguns trabalhos de arquitectura, mas isso fica para outro post). É uma espécie de Coco Chanel do design. Muitas das suas peças foram revolucionárias, e marcaram de forma significativa a facção do design que gosta de móveis com aço tubular [de uma forma muito simplista e por isso provavelmente errada ou pelo menos imprecisa, sempre que me lembro do período moderno divido-o entre os orgânicos e os industriais, ou seja, entre os fanáticos do mobiliário todo em madeira e os extremistas do vidro e do metal, seguindo-se uma terceira corrente, dissidente, que venera os plásticos, as borrachas e os acrílicos]. Quem não se recorda, por exemplo, da sua conhecida mesa E1027, que também aparece nas imagens 3 e 4 abaixo?
 
 
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A Bibendum chair (é verdade, o nome é tão pouco sofisticado), aparentemente sem grande graça, é muito especial.
Por um lado, é das poucas cadeiras balofas que consegue ser ao mesmo tempo elegante; não é comum um corpanzil destes conseguir ser também airoso, efeito para o qual é decisiva a estrutura de base, mais fina.
Por outro lado, é muito versátil. Com o cenário certo, tanto é feliz numa sala de estar, numa sala de espera ou num quarto.
Por outro lado ainda, mesmo parecendo ter linhas volumosas e grosseiras, tem traços subtis que lhe conferem uma harmonia invisível, que não se vê à primeira, só se sente: já repararam que os dois anéis gordos do encosto, apesar de parecerem meios donuts, são na verdade uma repetição mais cheia da base tubular da cadeira, também em meia-lua? Como se, no papel, fossem curvas saídas de canetas diferentes, uma de ponta fina, outra de ponta de feltro? Afinal confirma-se que a teoria da simetria de Gui Bonsiepe serve para alguma coisa. 

[fotografias aqui e aqui]

14/04/2014

The beauty of asymmetry

A Muuto lançou no mercado um sofá que é agora um dos meus favoritos. Chama-se Soft Blocks e foi desenhado por Petter Skogstad. Diz o designer: "The ideia behing Soft Blocks was to play around with the proportions of a conventional sofá, challenge straight continous lines and explore the beauty of asymmetry. The result is a playful composition of soft blocks that are ready to welcome  you in the most friendly and comfortable way". Sempre que olho para ele, lembro-me de peças de Lego (sobretudo do Lego Duplo).
 
Gosto tanto de ver que ainda é possível fazer coisas diferentes com objectos tão triviais. E acho que o facto de este sofá estar apenas disponível (por agora) no azul predominante na minha sala é um sinal cósmico que não devo ignorar.

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[Soft Blocks, Petter Skogstad, Muuto, aqui]

13/08/2013

Pseudo mármores

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O design tem muitas vezes destas coisas de tentar fazer parecer: tentar fazer parecer o que tipicamente é (1 e 2 - papel de parede a imitar paredes de cozinha em mármore), tentar fazer parecer o que até podia ser mas não é (3 e 4 - cadeirão Luís XV forrado em tecido com padrão fotográfico de mármore), ou mesmo tentar fazer parecer o que nunca podia ser (5 e 6 - lençóis em tecido com padrão de mármore).

Daí resultam sinestesias: basta olhar para sentir o frio da pedra que não existe, a dureza de um mármore feito de tecido e de papel.


E convenhamos, considerando o preço do mármore de Carrara, sempre se presumiria como mais barata uma destas opções. Mas não tenho a certeza. Aos preços anunciados, pelo menos sai quase tão cara a imitação como o original. Talvez porque, nestes casos, a imitação é ela própria um original. Na verdade, nenhum daqueles objectos quer ser confundido com mármore: o que eles queres é que todos olhem para eles e vejam como, sendo uma coisa, conseguiram a proeza de parecer outra. O fazer parecer, em todos eles, é totalmente assumido como a originalidade.



Papel de parede aqui [Ferm living], cadeirão aqui [desenhado por Maurizio Galante para a Cerrutti Baleri], roupa de cama aqui [Safe House USA]

02/08/2013

Irmãos no design


Pic 1: Achille, Pier Giacomo e Livio Castiglioni

Pic 2: candeeiro Arco, Achille e Pier Giacomo Castiglioni para a Flos

Pic 3: Richard e Antony Joseph

Pic 4: utensílios Elevate, Richard e Antony Joseph, JosephJoseph

Pic 5: Ronan e Erwan Bouroullec

Pic 6: poltrona Quilt, Ronan e Erwan Bouroullec para a Established & Sons

Pic 7: Humberto e Fernando Campana

Pic 8: Blow up, Humberto e Fernando Campana para a Alessi


Os designers retratados acima pertencem a épocas e países diferentes (Itália, Inglaterra, França, Brasil), mas têm uma coisa em comum: fizeram com os irmãos parcerias das quais nasceram peças hoje reconhecidas no mundo do design industrial.

Os irmãos Castiglioni (pic 1) dedicaram-se muito ao design de iluminação (o mais conhecido talvez seja o candeeiro Arco, desenhado por Achille e Pier Giacomo em 1962 para a Flos, naquela que foi uma das primeiras - senão a primeira - fusão entre um candeeiro de tecto e um candeeiro de pé - pic 2). Os irmãos Joseph (pic 3) têm uma empresa de sucesso na área dos utensílios de cozinha (JosephJoseph), e apostam em objectos úteis, de design irrepreensível, que cumprem a sua função (falo por experiência própria, porque tenho alguns; pic 4). Os irmãos Bouroullec (pic 5) fazem muita coisa, desde sofás, candeeiros, móveis de casa-de-banho, acessórios, cadeiras, até instalações. Tudo com bom gosto, boas ideias e, sobretudo, com uma originalidade sóbria (pic 6). O mesmo não acontece com os irmãos Campana (pic 7), que são conhecidos pela exuberância das suas criações, pelas peças irreverentes e disparatadas (veja-se a cadeira e a cama Favela, que por aqui já apareceram, ou a pic 8).

É verdade que os grandes marcos do design surgem frequentemente em famílias. Pais e filhos, maridos e mulheres (basta lembrar, por exemplo, a família Thonet, de que aqui já falei, Charles e Ray Eames, Alvar e Aino Aalto, entre muitos outros). Mas há alguma coisa de diferente quando essa colaboração se faz entre irmãos. Há um equilíbrio de forças, sem temores reverenciais nem relações conjugais que o perturbem (o que não exclui, apesar disso, os conflitos inevitáveis de qualquer relação humana). Há também uma posição comum, e recíproca, de complementaridade. Ser irmão é ser fruto da mesma árvore, é estar ao mesmo nível, é partilhar um caminho. E, quando esse caminho se alarga para a vida profissional, e continua a ser feito em conjunto, podem surgir no seu percurso maravilhas.


Para o Mano, que também é meu sócio.

18/06/2013

Ele há coisas (de design): Grand confort, Sans confor, Dommage a Corbu

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Stefan Zwicky concebeu uma cadeira inspirada na LC2 de Le Corbusier/Jeanneret/Perriand (também designada por Grand Confort Model No. LC2 Club Chair), a que chamou Grand confort, Sans confor, Dommage a Corbu.
Os trocadilhos do nome têm graça, mas duvido que alguém ache graça a sentar-se num mono feito de cimento armado e varas de ferro da construção civil. O estrago (dommage) é total, sobretudo considerando que, com o uso, a LC2 se torna numa poltrona do mais mole que há, envolvendo as pessoas como se estivessem sentadas num monte de claras em castelo.
Nem consigo perceber se isto é assumido como obra de arte ou como peça de design. Não é coisa que me agrade, seja uma ou seja outra. Mas deve ser um mimo ter de chamar uma grua sempre que se quer mudar a cadeira de sítio (assumo que no jardim, já que dificilmente se consegue ter uma cadeira de cimento armado em casa sem reforçar a estrutura resistente do edifício).

12/06/2013

Ele há coisas (de design): Cushionized Sofa II


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Talvez seja sofá a mais, mas não resisti a pôr aqui este. Chama-se Cushionized Sofa II. Não sei bem o que acha, mas, com tantas almofadas empilhadinhas umas em cima das outras, parece-me o bolo de bolacha dos móveis. E, mesmo na sua brancura lixiviada, é igualmente enjoativo. Só falta o creme de manteiga.

[O sofá Cushionized Sofa II foi criado por Christiane Högner, entre 2008 e 2010]


04/06/2013

Ele há coisas (de design): Hanabi


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E aqui está ele: um sofá que, além de ser a dor de cabeça de qualquer empregada doméstica diligente, deveria vir acompanhado de instruções de utilização, considerando o risco significativo de engolir os que nele se sentarem.
 
 
[O sofá chama-se Hanabi - chair module e foi criado por Yuki Abe em 2005, para a MottoWASABI, empresa finlandesa de design. Fotografias tiradas daqui]