30/01/2014

A cidade em perspectiva

Hoje vi uma coisa no Designboom que não podia deixar de mostrar aqui no Pufe: as fotografias de Alexandre Jacques, tiradas a edifícios em Paris, Nova Iorque e Brisbane. É-me difícil olhar para elas durante muito tempo, porque os olhos escorregam por estes mosaicos tão perfeitos e tão lisos, sem terem nenhum ponto de interrupção onde se possam agarrar.

Nelas, a arquitectura desaparece. Os edifícios deixam de existir, para se transformarem em quadrículas complexas, descontextualizadas, desumanizadas. Ao mesmo tempo tão artificiais e tão orgânicas, ou não fosse a própria natureza feita de padrões, de fractais e de repetições. O ângulo em que as fotografias são tiradas é escolhido de modo a mostrar apenas uma teia ritmada e contínua de linhas e de formas geométricas. Uma cidade computorizada. Mas, lá está, é apenas deste ângulo. De outros, tudo é diferente. De outros ângulos, haverá post-its nas janelas, folhas desarrumadas na secretária, um pacote de bolachas meio comido, um casaco pendurado à pressa, um desenho de uma criança colado ao monitor do computador com fita-cola. É sempre (e se calhar só) uma questão de perspectiva. 


1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

11

12

13

14

15


29/01/2014

A orgânica do edifício

O revestimento dos edifícios é uma espécie de pele, uma superfície composta por elementos que se multiplicam, cobrindo e moldando corpos de betão, músculos de alvenaria, ossos de aço.

Aqui, a pele é feita de tijolo. Material áspero, imperfeito e vulgar, usado de forma e com forma invulgares. Mas é a composição celular do tijolo que suaviza as linhas graves e pesadas da construção. O tijolo parece uma membrana texturada e porosa, uma matéria viva e pulsante, quente, que faz a casa respirar.


1

2

3

4

5

6

7


[VDV Residence, Hasselt, Bélgica. Projecto de Vincent Van Duysen, 1999, aqui]


20/01/2014

Uma casa no Japão

No Japão, há um conjunto de montanhas vulcânicas chamado Yatsugatake. Com vista para essas montanhas fez-se uma casa. Esta, que está abaixo.

Tirando os móveis modernaços, o plasma, as colunas de som em forma de samurai reformado e o chão de pedra, gosto bastante das linhas, muito direitas, muito afiladas. E tão japonesas (soube logo que era uma casa no Japão só pela primeira fotografia). Era só preciso ultrapassar o medo de sismos, de erupções vulcânicas e de desmoronamentos de casas alcantiladas.


1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

11

12

13


[Yatsugatake house, Kidosaki Architects Studio, fotografias aqui]

10/01/2014

Tafelmusik

Apesar do título pomposo, este post é apenas sobre mesas de salas de jantar. Coisa bastante mais prosaica, portanto. Mas achei que o título era apropriado porque, na verdade, as mesas retratadas abaixo são música (felizmente, não barroca) para os meus olhos. Em consonância com as cadeiras certas, nem se fala (isso fica para outro post).

Claro que podem ter muitos outros destinos além da sala de jantar. Entre clássicos dos anos 30 a mesas de colecções com menos de um ano de vida, mármores a madeiras, madeiras a metais, redondas, elípticas ou rectangulares, é escolher.

| 1 | 
Raft table, 2011, design de NORM para a &Tradition


| 2 | 
Florence Knoll table desk,1961, design de Florence Knoll para a Knoll


| 3 | 
Wogg 38 table, 2006, design de Alfredo Haberli/Wogg para a Wogg


| 4 | 
Dining table, 1954-1955, design de Isamu Noguchi para a Vitra


| 5 | 
Copenhague table CPH30, 2012, Ronan & Erwan Bourroullec para a HAY


| 6 | 
Branch table, 2012, design de Jacob Wagner para a Cappellini


| 7 | 
Toni table, 2010, design de James Irvine para a Marsotto


| 8 | 
Nelson X-leg table, 1950, design de George Nelson para a Herman Miller


| 9 | 
Essay, 2009, design de Cecilie Manz para a Fritz Hansen


| 10 | 
Table 82A, 1935, design de Alvar Aalto para a Artek


| 11 | 
Sleek 2013, 2013, design de Karim Rachid para a Riva 1920


08/01/2014

A casa introvertida


Desde cedo fui acusada de ser tímida, o que durante muito tempo me irritou profundamente. Sobretudo por ser falso. Nunca fui tímida, mas sou e serei sempre introvertida (este livro explica bem a diferença). 

Pensando bem, é muito simples: há pessoas que vivem voltadas para fora, e há outras que vivem voltadas para dentro. Há disso em tudo. E, curiosamente, também há disso nas casas. Há casas que estão abertas à rua, há outras que se fecham em si mesmas. E, nestas, há todo um mundo que ninguém vê ou suspeita.

É o que sucede com esta casa. Projectada por Aires Mateus, construída na Aroeira. Com uma forma hexagonal singular, que replica e preenche a também singular forma do próprio lote (14).

A casa são dois braços que tentam encontrar-se na relva. As janelas deitam para o interior desse abraço que, apesar de reservado, é muito luminoso.

Se não pensar no branco que encandeia e ocupa todas as superfícies verticais e horizontais, em algumas imagens (1 e 2) não me sai da cabeça a minha querida Burden House e as suas curvas, de que nunca me esqueço.

Só tenho pena de três coisas: desse branco imenso, excessivo, que podia ter sido compensado com mais madeira, do pé-direito tão baixinho para uma construção destas, das janelas pouco rasgadas. O resto, a casa, no seu recato, sem dizer nada, diz por si.


1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

11

12

13

14

[Casa na Aroeira, Aires Mateus, aqui]