24/02/2014

Dinesen

Falar de pavimentos soa muito a construção civil e normalmente não traz discussões muito fascinantes. A verdade é que não há nada mais chão que um chão de madeira, mas nunca pensei poder ficar tão deslumbrada com um.

Conheço a Dinesen há vários anos, apesar de, infelizmente, nunca ter pisado um soalho dessa marca. É uma empresa familiar dinamarquesa do séc. XIX, que já vai na quinta geração, e uma das empresas de pavimento em madeira com mais sucesso. O material que produzem não só tem uma qualidade indiscutível como uma aparência difícil de imitar. Já tenho dado por mim a conseguir perceber em fotografias que o chão retratado é da Dinesen, mesmo sem olhar para a legenda.

É certo que a cor, o grão e o estilo de madeira da Dinesen foram ao início um pouco estranhos aos meus olhos, já tão cheios - e enjoados - de tons quentes de mel, brilhantes e envernizados. Naquelas tábuas tudo é nórdico. Aliás, aquelas tábuas, no seu acabamento mais tradicional, são tão nórdicas como a pele das pessoas que as fazem, pálidas, mates e transparentes, a deixar ver os veios azulados. 

O efeito final é lindíssimo. O resultado é um chão de madeira que, mesmo sendo acinzentado, parece ter luz própria. As tábuas da Dinesen podem chegar a quinze metros de comprimento e a quarenta centímetros de largura, o que faz com que muitas vezes nem sequer se repare no que está no resto da sala. Por alguma razão nas casas com chão da Dinesen não há tralha nem histerias decorativas. Há um silêncio visual, um respeito por aquela madeira altiva vinda de árvores com 80 e 120 anos, que ali repousa majestosamente.

Claro que, pelo menos por enquanto, este enamoramento é só platónico: encomendar directamente da Dinamarca pavimento que já por si é muito caro deve ser quase equivalente a instalar no chão lingotes de ouro em vez de tábuas de madeira. Mas se alguém quiser aventurar-se a representar esta marca em Portugal, pode contar comigo como uma das primeiras clientes - nem que tenha de comprar uma casa para isso.


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[fotografias do site da Dinesen]

11/02/2014

Dão-se alvíssaras

A quem me souber dizer que edifício é este, e que montanha é aquela, lá atrás. Encontrei a fotografia perdida pela internet, e não consigo tirar os olhos dela.



30/01/2014

A cidade em perspectiva

Hoje vi uma coisa no Designboom que não podia deixar de mostrar aqui no Pufe: as fotografias de Alexandre Jacques, tiradas a edifícios em Paris, Nova Iorque e Brisbane. É-me difícil olhar para elas durante muito tempo, porque os olhos escorregam por estes mosaicos tão perfeitos e tão lisos, sem terem nenhum ponto de interrupção onde se possam agarrar.

Nelas, a arquitectura desaparece. Os edifícios deixam de existir, para se transformarem em quadrículas complexas, descontextualizadas, desumanizadas. Ao mesmo tempo tão artificiais e tão orgânicas, ou não fosse a própria natureza feita de padrões, de fractais e de repetições. O ângulo em que as fotografias são tiradas é escolhido de modo a mostrar apenas uma teia ritmada e contínua de linhas e de formas geométricas. Uma cidade computorizada. Mas, lá está, é apenas deste ângulo. De outros, tudo é diferente. De outros ângulos, haverá post-its nas janelas, folhas desarrumadas na secretária, um pacote de bolachas meio comido, um casaco pendurado à pressa, um desenho de uma criança colado ao monitor do computador com fita-cola. É sempre (e se calhar só) uma questão de perspectiva. 


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29/01/2014

A orgânica do edifício

O revestimento dos edifícios é uma espécie de pele, uma superfície composta por elementos que se multiplicam, cobrindo e moldando corpos de betão, músculos de alvenaria, ossos de aço.

Aqui, a pele é feita de tijolo. Material áspero, imperfeito e vulgar, usado de forma e com forma invulgares. Mas é a composição celular do tijolo que suaviza as linhas graves e pesadas da construção. O tijolo parece uma membrana texturada e porosa, uma matéria viva e pulsante, quente, que faz a casa respirar.


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[VDV Residence, Hasselt, Bélgica. Projecto de Vincent Van Duysen, 1999, aqui]


20/01/2014

Uma casa no Japão

No Japão, há um conjunto de montanhas vulcânicas chamado Yatsugatake. Com vista para essas montanhas fez-se uma casa. Esta, que está abaixo.

Tirando os móveis modernaços, o plasma, as colunas de som em forma de samurai reformado e o chão de pedra, gosto bastante das linhas, muito direitas, muito afiladas. E tão japonesas (soube logo que era uma casa no Japão só pela primeira fotografia). Era só preciso ultrapassar o medo de sismos, de erupções vulcânicas e de desmoronamentos de casas alcantiladas.


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[Yatsugatake house, Kidosaki Architects Studio, fotografias aqui]

10/01/2014

Tafelmusik

Apesar do título pomposo, este post é apenas sobre mesas de salas de jantar. Coisa bastante mais prosaica, portanto. Mas achei que o título era apropriado porque, na verdade, as mesas retratadas abaixo são música (felizmente, não barroca) para os meus olhos. Em consonância com as cadeiras certas, nem se fala (isso fica para outro post).

Claro que podem ter muitos outros destinos além da sala de jantar. Entre clássicos dos anos 30 a mesas de colecções com menos de um ano de vida, mármores a madeiras, madeiras a metais, redondas, elípticas ou rectangulares, é escolher.

| 1 | 
Raft table, 2011, design de NORM para a &Tradition


| 2 | 
Florence Knoll table desk,1961, design de Florence Knoll para a Knoll


| 3 | 
Wogg 38 table, 2006, design de Alfredo Haberli/Wogg para a Wogg


| 4 | 
Dining table, 1954-1955, design de Isamu Noguchi para a Vitra


| 5 | 
Copenhague table CPH30, 2012, Ronan & Erwan Bourroullec para a HAY


| 6 | 
Branch table, 2012, design de Jacob Wagner para a Cappellini


| 7 | 
Toni table, 2010, design de James Irvine para a Marsotto


| 8 | 
Nelson X-leg table, 1950, design de George Nelson para a Herman Miller


| 9 | 
Essay, 2009, design de Cecilie Manz para a Fritz Hansen


| 10 | 
Table 82A, 1935, design de Alvar Aalto para a Artek


| 11 | 
Sleek 2013, 2013, design de Karim Rachid para a Riva 1920