É que existem nessas terras imensas construções ditas
modernistas. Só Palm Springs, cidade aparentemente sem tempero que agrade ao meu
paladar estético, tem dezenas de edifícios desses.
E, por essa razão, um sítio onde nunca me imaginaria passou há já algum
tempo a constar da minha lista de viagens futuras.
A História dá algumas explicações para tão
elevada concentração de arquitectura modernista num mesmo local: em meados do séc. XX, a Califórnia foi porta
de entrada nos Estados Unidos para vários arquitectos (sobretudo europeus, e
muitos relacionados com a Bauhaus), que vieram juntar-se a alguns outros que já lá viviam antes da segunda grande guerra (como Neutra, Hamilton Harris,
Lautner, entre outros). Aí, com as oportunidades que surgiram depois do conflito e
com a expansão urbana que a partir daí se verificou,
toda uma geração de arquitectos, alimentada pela classe média, pelas estrelas de cinema e por outras vedetas, que queriam viver o (e no) último grito do moderno, viu naquela região de clima morno e de mellow
lifestyle uma forma de explorar novos estilos e novas técnicas. A
Califórnia era um destino despreocupado, bem disposto e optimista, um refúgio
longe da austeridade que ainda se sentia um pouco por toda a parte, e a incubadora ideal de um movimento moderno mais arejado, sem aquele ar sério, sorumbático e
racional que vinha da Europa. O modernismo americano acabou em parte por ficar associado
ao Californian way of living, e transformou para sempre a paisagem e a
identidade daquele sítio.
O estilo modernista californiano de que aqui falo, em alguns
casos numa sub-espécie apelidada de desert modernism, deixou a nu as estruturas dos edifícios e combinou
aço, plástico, alumínio e vidro (aproveitando o avanço tecnológico dos
materiais desenvolvidos na altura da guerra) em construções de divisões
amplas, rasgadas por grandes vãos. O uso de rochas e plantas (sobretudo cactos
e palmeiras) em simbiose com a construção, o aproveitamento das vistas
fantásticas e da luz, a falta de fronteiras entre o exterior e interior das
casas, a informalidade na utilização dos materiais, na ocupação do espaço e na
distribuição das áreas funcionais das construções, tudo isso compôs o carácter
descontraído típico daquela zona, que acabava por suavizar as linhas duras e
industriais dos elementos usados. É exemplo, aliás, o tão conhecido programa Case
Study Houses, da revista Arts & Architecture, hoje considerado um marco
fundamental da história da arquitectura moderna.
Apesar de parte dos proprietários destas casas não ter
respeitado a herança que tinha nas mãos, sempre houve alguma sensibilidade
para a protecção dos edifícios e para a dinamização de actividades de
divulgação desse património. Actualmente, a coisa anda normalmente à volta de
simpósios, cocktails, exposições, visitas organizadas, roteiros informativos,
conferências, roadtrips em autocarros abertos, à torreira do sol. Uma dessas
iniciativas, a Modernist
Week, terminou há umas semanas.Mas vamos ao que interessa. Uma das casas por onde passam alguns desses itinerários é a Rosen House, em Los Angeles (1 a 12). Construída entre 1961 e 1963, a Rosen House foi concebida para Gerald e Arlene Rosen, supostamente por Craig Ellwood, personagem controversa de nome inventado e hábitos extravagantes (em todo o caso, há quem aponte como principais criadores desta construções dois arquitectos do gabinete de Ellwood, Lomax e Jacobson). Craig Ellwood nunca estudou arquitectura, e tinha apenas formação em engenharia de estruturas, obtida com notas medíocres em aulas à noite. Apesar disso, deu várias conferências na Universidade de Yale e ensinou em duas ou três faculdades de arquitectura nos Estados Unidos. Craig Ellwood foi também autor de algumas das casas que fizeram parte do projecto Case Study Houses, tendo por aí obtido algum reconhecimento. Não sendo arquitecto, foi nomeado um dos três melhores arquitectos de 1957, em conjunto com Frank Lloyd Wright e Mies van der Rohe.
A Rosen House não é muito conhecida (talvez se Julius
Shulman lhe tivesse tirado mais fotografias a coisa hoje fosse diferente) e
não faz parte das Case Study Houses, mas partilha o espírito e o
carácter das casas com que Craig Ellwood participou nesse projecto. Desde logo,
como elas, evidencia nas suas características mais básicas a formação em
engenharia de estruturas do seu autor. E, como todas elas em geral, é um exemplo de fusão entre o formalismo de Mies van der Rohe e o estilo
relaxado do modernismo californiano.
É certo que, sobretudo aos nossos olhos de séc. XXI, esta casa não tem
uma aparência muito carismática, nem se distingue à primeira vista de um
qualquer outro caixotinho modernista feito em série. Pode inclusive parecer demasiado
simples e quadrada – apesar de, na realidade, se a
virmos em planta, não o ser. Mas, independentemente disso, e sem prejuízo
de tudo o que se escreveu sobre o seu papel na arquitectura californiana (chegou a aparecer em publicações
conhecidas no meio), a verdade é que esta é uma das minhas construções
favoritas.
Na Rosen House gosto de tudo. Da organização das divisões e da abertura interior para onde deitam alguns quartos. Das enormes paredes em vidro e da subtil contradição entre os elementos horizontais (como os degraus, feitos de lajes de cimento compridas) que alongam a construção pela linha do horizonte, agarrando-a à terra, e o facto de estar ligeiramente elevada sobre um pavimento de pedras pequenas e
arredondadas.
A fixação da casa por cima de uma superfície de seixos revela
muito sobre o seu carácter. É como se ela se pusesse em bicos dos pés, para que
se perceba bem como está construída. Visível do exterior e do interior, esse
chão de seixos escuros, em contraste com o branco da construção, realça a
verdade: uma casa é, no fundo, apenas uma estrutura. Aqui, nem a forma como assenta no solo ficou disfarçada. E é sobretudo disso que eu gosto: a casa não esconde aquilo que é, mostra a sua constituição despojada, os
seus equilíbrios, as suas forças, os seus pontos de apoio e de união, como
acontece tipicamente com as casas modernistas. E, no caso da Rosen House, isso
é conseguido com tanta certeza e com tanta confiança que acaba por lhe dar uma
aura pretensiosa. Como se uma construção pudesse dar-se ao luxo de se
apresentar assim, despida de coberturas, revestimentos e elementos de decoração ou distracção, por saber que isso basta – e aqui basta de certeza – para ser
distinguida entre as suas pares.
As palavras são de Craig Ellwood, escritas na revista L.A. Architect de Março de 1976, e fazem todo o sentido em relação a esta casa: “The spirit of architecture is its truthfulness to itself: its
clarity and logic with respect to its materials and structure. (...) The truth
about truth is it is - waiting for us to discover it. The consciousness of
truth is not static, but ever progressively unfolding. We must strive for
intrinsic solution, not extrinsic effect. The moment form becomes arbitrary, it
becomes novelty or style – it becomes something other than architecture.
Materials and methods will certainly change, but the basic laws of nature make
finally everything timeless”.
A Rosen House é apenas aquilo que com tanta segurança mostra
ser, um conjunto de superfícies e alçados, pilares, traves e vigas, sem querer ser
outra coisa, e acho que é por ser tão orgulhosamente verdadeira que gosto tanto
dela.
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