14/04/2014

The beauty of asymmetry

A Muuto lançou no mercado um sofá que é agora um dos meus favoritos. Chama-se Soft Blocks e foi desenhado por Petter Skogstad. Diz o designer: "The ideia behing Soft Blocks was to play around with the proportions of a conventional sofá, challenge straight continous lines and explore the beauty of asymmetry. The result is a playful composition of soft blocks that are ready to welcome  you in the most friendly and comfortable way". Sempre que olho para ele, lembro-me de peças de Lego (sobretudo do Lego Duplo).
 
Gosto tanto de ver que ainda é possível fazer coisas diferentes com objectos tão triviais. E acho que o facto de este sofá estar apenas disponível (por agora) no azul predominante na minha sala é um sinal cósmico que não devo ignorar.

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[Soft Blocks, Petter Skogstad, Muuto, aqui]

15/03/2014

Rosen House


O sudoeste dos Estados Unidos (em especial a Califórnia) tem tudo para, à partida, não me dizer nada. Cactos, desertos, motéis à beira de estradas poeirentas, restaurantes mexicanos, palmeiras e calor, estranhamente salteados com celebridades, grandes avenidas, estúdios de cinema e resorts com piscina, tudo me pareceria um grande tédio, não fosse um outro ingrediente que transforma essa receita em algo de extraordinário.

É que existem nessas terras imensas construções ditas modernistas. Só Palm Springs, cidade aparentemente sem tempero que agrade ao meu paladar estético, tem dezenas de edifícios desses. E, por essa razão, um sítio onde nunca me imaginaria passou há já algum tempo a constar da minha lista de viagens futuras.
A História dá algumas explicações para tão elevada concentração de arquitectura modernista num mesmo local: em meados do séc. XX, a Califórnia foi porta de entrada nos Estados Unidos para vários arquitectos (sobretudo europeus, e muitos relacionados com a Bauhaus), que vieram juntar-se a alguns outros que já lá viviam antes da segunda grande guerra (como Neutra, Hamilton Harris, Lautner, entre outros). Aí, com as oportunidades que surgiram depois do conflito e com a expansão urbana que a partir daí se verificou, toda uma geração de arquitectos, alimentada pela classe média, pelas estrelas de cinema e por outras vedetas, que queriam viver o (e no) último grito do moderno, viu naquela região de clima morno e de mellow lifestyle uma forma de explorar novos estilos e novas técnicas. A Califórnia era um destino despreocupado, bem disposto e optimista, um refúgio longe da austeridade que ainda se sentia um pouco por toda a parte, e a incubadora ideal de um movimento moderno mais arejado, sem aquele ar sério, sorumbático e racional que vinha da Europa. O modernismo americano acabou em parte por ficar associado ao Californian way of living, e transformou para sempre a paisagem e a identidade daquele sítio.


O estilo modernista californiano de que aqui falo, em alguns casos numa sub-espécie apelidada de desert modernism, deixou a nu as estruturas dos edifícios e combinou aço, plástico, alumínio e vidro (aproveitando o avanço tecnológico dos materiais desenvolvidos na altura da guerra) em construções de divisões amplas, rasgadas por grandes vãos. O uso de rochas e plantas (sobretudo cactos e palmeiras) em simbiose com a construção, o aproveitamento das vistas fantásticas e da luz, a falta de fronteiras entre o exterior e interior das casas, a informalidade na utilização dos materiais, na ocupação do espaço e na distribuição das áreas funcionais das construções, tudo isso compôs o carácter descontraído típico daquela zona, que acabava por suavizar as linhas duras e industriais dos elementos usados. É exemplo, aliás, o tão conhecido programa Case Study Houses, da revista Arts & Architecture, hoje considerado um marco fundamental da história da arquitectura moderna.

Apesar de parte dos proprietários destas casas não ter respeitado a herança que tinha nas mãos, sempre houve alguma sensibilidade para a protecção dos edifícios e para a dinamização de actividades de divulgação desse património. Actualmente, a coisa anda normalmente à volta de simpósios, cocktails, exposições, visitas organizadas, roteiros informativos, conferências, roadtrips em autocarros abertos, à torreira do sol. Uma dessas iniciativas, a Modernist Week, terminou há umas semanas.

Mas vamos ao que interessa. Uma das casas por onde passam alguns desses itinerários é a Rosen House, em Los Angeles (1 a 12). Construída entre 1961 e 1963, a Rosen House foi concebida para Gerald e Arlene Rosen, supostamente por Craig Ellwood, personagem controversa de nome inventado e hábitos extravagantes (em todo o caso, 
há quem aponte como principais criadores desta construções dois arquitectos do gabinete de Ellwood, Lomax e Jacobson). Craig Ellwood nunca estudou arquitectura, e tinha apenas formação em engenharia de estruturas, obtida com notas medíocres em aulas à noite. Apesar disso, deu várias conferências na Universidade de Yale e ensinou em duas ou três faculdades de arquitectura nos Estados Unidos. Craig Ellwood foi também autor de algumas das casas que fizeram parte do projecto Case Study Houses, tendo por aí obtido algum reconhecimento. Não sendo arquitecto, foi nomeado um dos três melhores arquitectos de 1957, em conjunto com Frank Lloyd Wright e Mies van der Rohe.


A Rosen House não é muito conhecida (talvez se Julius Shulman lhe tivesse tirado mais fotografias a coisa hoje fosse diferente) e não faz parte das Case Study Houses, mas partilha o espírito e o carácter das casas com que Craig Ellwood participou nesse projecto. Desde logo, como elas, evidencia nas suas características mais básicas a formação em engenharia de estruturas do seu autor. E, como todas elas em geral, é um exemplo de fusão entre o formalismo de Mies van der Rohe e o estilo relaxado do modernismo californiano.

É certo que, sobretudo aos nossos olhos de séc. XXI, esta casa não tem uma aparência muito carismática, nem se distingue à primeira vista de um qualquer outro caixotinho modernista feito em série. Pode inclusive parecer demasiado simples e quadrada – apesar de, na realidade, se a virmos em planta, não o ser. Mas, independentemente disso, e sem prejuízo de tudo o que se escreveu sobre o seu papel na arquitectura californiana (chegou a aparecer em publicações conhecidas no meio), a verdade é que esta é uma das minhas construções favoritas.  

Na Rosen House gosto de tudo. Da organização das divisões e da abertura interior para onde deitam alguns quartos. Das enormes paredes em vidro e da subtil contradição entre os elementos horizontais (como os degraus, feitos de lajes de cimento compridas) que alongam a construção pela linha do horizonte, agarrando-a à terra, e o facto de estar ligeiramente elevada sobre um pavimento de pedras pequenas e arredondadas. 

A fixação da casa por cima de uma superfície de seixos revela muito sobre o seu carácter. É como se ela se pusesse em bicos dos pés, para que se perceba bem como está construída. Visível do exterior e do interior, esse chão de seixos escuros, em contraste com o branco da construção, realça a verdade: uma casa é, no fundo, apenas uma estrutura. Aqui, nem a forma como assenta no solo ficou disfarçada. E é sobretudo disso que eu gosto: a casa não esconde aquilo que é, mostra a sua constituição despojada, os seus equilíbrios, as suas forças, os seus pontos de apoio e de união, como acontece tipicamente com as casas modernistas. E, no caso da Rosen House, isso é conseguido com tanta certeza e com tanta confiança que acaba por lhe dar uma aura pretensiosa. Como se uma construção pudesse dar-se ao luxo de se apresentar assim, despida de coberturas, revestimentos e elementos de decoração ou distracção, por saber que isso basta – e aqui basta de certeza – para ser distinguida entre as suas pares.

As palavras são de Craig Ellwood, escritas na revista L.A. Architect de Março de 1976, e fazem todo o sentido em relação a esta casa: “The spirit of architecture is its truthfulness to itself: its clarity and logic with respect to its materials and structure. (...) The truth about truth is it is - waiting for us to discover it. The consciousness of truth is not static, but ever progressively unfolding. We must strive for intrinsic solution, not extrinsic effect. The moment form becomes arbitrary, it becomes novelty or style – it becomes something other than architecture. Materials and methods will certainly change, but the basic laws of nature make finally everything timeless”.

A Rosen House é apenas aquilo que com tanta segurança mostra ser, um conjunto de superfícies e alçados, pilares, traves e vigas, sem querer ser outra coisa, e acho que é por ser tão orgulhosamente verdadeira que gosto tanto dela.



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Fotografias e informações em A, B, C, D, E, F e G

24/02/2014

Dinesen

Falar de pavimentos soa muito a construção civil e normalmente não traz discussões muito fascinantes. A verdade é que não há nada mais chão que um chão de madeira, mas nunca pensei poder ficar tão deslumbrada com um.

Conheço a Dinesen há vários anos, apesar de, infelizmente, nunca ter pisado um soalho dessa marca. É uma empresa familiar dinamarquesa do séc. XIX, que já vai na quinta geração, e uma das empresas de pavimento em madeira com mais sucesso. O material que produzem não só tem uma qualidade indiscutível como uma aparência difícil de imitar. Já tenho dado por mim a conseguir perceber em fotografias que o chão retratado é da Dinesen, mesmo sem olhar para a legenda.

É certo que a cor, o grão e o estilo de madeira da Dinesen foram ao início um pouco estranhos aos meus olhos, já tão cheios - e enjoados - de tons quentes de mel, brilhantes e envernizados. Naquelas tábuas tudo é nórdico. Aliás, aquelas tábuas, no seu acabamento mais tradicional, são tão nórdicas como a pele das pessoas que as fazem, pálidas, mates e transparentes, a deixar ver os veios azulados. 

O efeito final é lindíssimo. O resultado é um chão de madeira que, mesmo sendo acinzentado, parece ter luz própria. As tábuas da Dinesen podem chegar a quinze metros de comprimento e a quarenta centímetros de largura, o que faz com que muitas vezes nem sequer se repare no que está no resto da sala. Por alguma razão nas casas com chão da Dinesen não há tralha nem histerias decorativas. Há um silêncio visual, um respeito por aquela madeira altiva vinda de árvores com 80 e 120 anos, que ali repousa majestosamente.

Claro que, pelo menos por enquanto, este enamoramento é só platónico: encomendar directamente da Dinamarca pavimento que já por si é muito caro deve ser quase equivalente a instalar no chão lingotes de ouro em vez de tábuas de madeira. Mas se alguém quiser aventurar-se a representar esta marca em Portugal, pode contar comigo como uma das primeiras clientes - nem que tenha de comprar uma casa para isso.


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[fotografias do site da Dinesen]

11/02/2014

Dão-se alvíssaras

A quem me souber dizer que edifício é este, e que montanha é aquela, lá atrás. Encontrei a fotografia perdida pela internet, e não consigo tirar os olhos dela.



30/01/2014

A cidade em perspectiva

Hoje vi uma coisa no Designboom que não podia deixar de mostrar aqui no Pufe: as fotografias de Alexandre Jacques, tiradas a edifícios em Paris, Nova Iorque e Brisbane. É-me difícil olhar para elas durante muito tempo, porque os olhos escorregam por estes mosaicos tão perfeitos e tão lisos, sem terem nenhum ponto de interrupção onde se possam agarrar.

Nelas, a arquitectura desaparece. Os edifícios deixam de existir, para se transformarem em quadrículas complexas, descontextualizadas, desumanizadas. Ao mesmo tempo tão artificiais e tão orgânicas, ou não fosse a própria natureza feita de padrões, de fractais e de repetições. O ângulo em que as fotografias são tiradas é escolhido de modo a mostrar apenas uma teia ritmada e contínua de linhas e de formas geométricas. Uma cidade computorizada. Mas, lá está, é apenas deste ângulo. De outros, tudo é diferente. De outros ângulos, haverá post-its nas janelas, folhas desarrumadas na secretária, um pacote de bolachas meio comido, um casaco pendurado à pressa, um desenho de uma criança colado ao monitor do computador com fita-cola. É sempre (e se calhar só) uma questão de perspectiva. 


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29/01/2014

A orgânica do edifício

O revestimento dos edifícios é uma espécie de pele, uma superfície composta por elementos que se multiplicam, cobrindo e moldando corpos de betão, músculos de alvenaria, ossos de aço.

Aqui, a pele é feita de tijolo. Material áspero, imperfeito e vulgar, usado de forma e com forma invulgares. Mas é a composição celular do tijolo que suaviza as linhas graves e pesadas da construção. O tijolo parece uma membrana texturada e porosa, uma matéria viva e pulsante, quente, que faz a casa respirar.


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[VDV Residence, Hasselt, Bélgica. Projecto de Vincent Van Duysen, 1999, aqui]


20/01/2014

Uma casa no Japão

No Japão, há um conjunto de montanhas vulcânicas chamado Yatsugatake. Com vista para essas montanhas fez-se uma casa. Esta, que está abaixo.

Tirando os móveis modernaços, o plasma, as colunas de som em forma de samurai reformado e o chão de pedra, gosto bastante das linhas, muito direitas, muito afiladas. E tão japonesas (soube logo que era uma casa no Japão só pela primeira fotografia). Era só preciso ultrapassar o medo de sismos, de erupções vulcânicas e de desmoronamentos de casas alcantiladas.


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[Yatsugatake house, Kidosaki Architects Studio, fotografias aqui]