16/09/2014

The third floor flat

O Pufe tem andado um bocadinho ao abandono, mas não me esqueci do mistério que deixei por desvendar nesta posta. Este (1):

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Para quem, como eu, gosta da série de televisão Poirot (3), baseada na obra de Agatha Christie (e que uso como suplemento vitamínico, de tempos a tempos), não há mistério nenhum. O edifício da fotografia é aquele que aparece na série como o pied-à-terre onde vive Hercule Poirot, mais conhecido por Whitehaven Mansions, em Sandhurst Square. E que, na realidade, chama-se Florin Court e fica em Charterhouse Square, em Londres, perto da estação de metro de Barbican.
O Florin Court aparece regularmente nos vários episódios, mas vê-se sobretudo no The third floor flat, episódio inspirado no conto homónimo (do livro Poirot's Early Cases), onde Poirot desvenda o mistério da morte de uma pessoa num apartamento do seu próprio prédio (2).


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Aqui fica o Florin Court, de outras perspectivas, e em todo o seu esplendor Art Déco:


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E aqui ficam algumas imagens da série, onde aparece o Florin Court:


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É verdade que no Pufe se gosta muito do modernismo mais a puxar à Bauhaus e aos americanos que a seguiram. Mas o Pufe também tem um fraquinho (pensando melhor, talvez um fracão) pelo Art Déco, sobretudo na arquitectura. 

Aliás, o Art Déco (ou style moderne) apesar de nascido em França (o nome vem da Exposition Internationale des Art Décoratifs et Industriels Modernes, realizada em Paris em 1925, mas só a partir da década de 60 foi autonomizado do Modernismo pelos teóricos), é, pelo menos no que respeita a arquitectura, muito British. E aqui, apesar da tara pelo design escandinavo, pela arquitectura americana, ou pela iluminação italiana, gosta-se muito de tudo o que nesses temas é British.

Há imensos e bons exemplos Art Déco no Reino Unido (basta lembrar, só em Londres, algumas partes do Savoy, do Claridge's e do Park Lane Hotel). Não são propriamente o Chrysler de Nova Iorque - nos Estados Unidos o Art Déco foi mais arrojado -, mas são interessantes q.b.. Muitos desses edifícios aparecem no Poirot, de tal modo que alguns episódios parecem autênticas lições televisivas sobre arquitectura (e design) modernista no Reino Unido (que, deve dizer-se, não se limita ao Art Déco puro, como comprova a famosa High and Over, que também aparece em alguns episódios). De Art Déco, basta lembrar o De La Warr Pavilion (16), o Midland Hotel (17), o Eltham Palace (que é Art Déco no interior - 18), ou a Joldwynds house (19), todos pétreos protagonistas de vários episódios do Poirot.


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A arquitectura Art Déco no Reino Unido teve o seu ponto alto entre as duas guerras mundiais (como na maioria dos países onde se desenvolveu). Surgiu, por isso, numa altura marcada pelo progresso tecnológico e por grandes mudanças. Perante as privações causadas pela guerra, o Art Déco veio responder com opulência, luxo e materiais sofisticados, deixando respirar a arquitectura e o design com as suas linhas simples e direitas, tão diferentes dos arabescos naturalistas do Art Nouveau. Mas era mais do que isso: ao mesmo tempo que reflectia a era das máquinas e dos veículos futuristas (sobretudo na corrente mais streamlined, também chamada de Streamline Moderne), o Art Déco ia buscar inspiração ao Egipto e às civilizações da América do Sul, usando os seus traços, padrões e geometrias (a descoberta do túmulo de Tutankamon em 1922 agravou a moda do gosto pela civilização egípcia, sobretudo em Inglaterra, de onde partiam inúmeras expedições).
No fundo, o Art Déco era uma espécie de fusão do supérfulo e do ornamental com o simbólico que a história e a arqueologia lhe acrescentavam. Era um movimento decorativo, mas, ao mesmo tempo, com significado.

Na tal corrente streamlined do Art Déco, a exuberância era mais contida, mas tudo exalava velocidade. O objectivo era reproduzir as linhas aerodinâmicas dos grandes transportes da altura - transatlânticos, comboios de longo curso, novos automóveis e aviões comerciais -, suavizando as arestas. Os edifícios e os objectos tornavam-se mais estilizados, mas ganhavam movimento. Aliás, voltando ao Poirot, quem não se lembra do genérico da série, cheio de alusões ao Art Déco e ao Streamline Moderne, sobretudo quando se vêem as linhas deixadas pela passagem do grande transatlântico, do comboio e da avioneta (20)?


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Mas regressando ao Florin Court: parece que a própria Agatha Christie terá explicado que o estilo Art Déco seria demasiado extravagante para a personalidade de Hercule Poirot. Ainda que, no mundo real, a Autora não tenha sido certamente insensível ao modernismo, não tivesse ela até vivido durante algum tempo no Isokon [quem gostar do Isokon não pode deixar de ver esta e esta postas do António Araújo, com quem às vezes parece que partilho algumas sinapses - as dele bem mais complexas que as minhas - sobre arquitectura moderna]. Mesmo assim, pensando bem, a personagem das little grey cells faz todo o sentido num ambiente tão racional, arrumadinho, controlado e geométrico como o Art Déco (claro, na sua forma menos excêntrica e mais discreta, o Streamline Moderne), ao mesmo tempo que o seu temperamento de belga dandy vai bem com os materiais caros e luxuosos. Daí que o Florin Court tenha resultado tão eficazmente na série, e represente de forma perfeita aquela que seria a casa do detective magnifique

O Florin Court foi construído em 1936 de acordo com projecto de Guy Morgan and Partners, e, como se pode ver pelas fotografias, tem uma fachada em forma de onda, fora do vulgar, seguindo precisamente o Streamline Moderne. A fachada foi pensada para dar vista para a praça ao maior número de divisões possível. Foi provavelmente um dos primeiros edifícios de apartamentos residenciais na área de Clerkenwell, e é um dos que mais se destaca pela sua fachada.

Os pormenores Art Déco vão além da fachada curvilínea (21 e 22) mas, infelizmente, o mesmo não acontece no interior dos apartamentos.


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É certo que, tal como aparece na série, o apartamento do Poirot em Whitehaven Mansions é assim:


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Mas, na realidade, o que se vê no Poirot é cenário, e não o interior do edifícioPor dentro, o Florin Court é, hoje, assim (e estes são alguns dos apartamentos mais jeitozinhos que encontrei):


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Maravilhoso, não é? Fora dos episódios do Poirot, o Florin Court é composto por 120 apartamentos/estúdios (!), sendo a grande maioria deles gaiolas de cobaia com um quarto, cozinha e casa-de-banho, distribuídos por 9 andares. Sendo um pied-à-terre desde o início, quando foi construído não devia ser muito diferente em termos de organização de espaço. Para verem como são espaçosos os apartamentos, vejam a planta da imagem 36. Ou a cozinha (sem janelas) em obras da imagem 37. Só de ver fico com falta de ar. Eu até percebo que nos anos 30, quando, em vez do duo piscina na cave/jardim no terraço havia no Florin Court um restaurante e um cocktail-bar para os inquilinos, não houvesse necessidade de fazer cozinhas muito grandes. Mas escusavam de as ter mantido do tamanho de despensas. É conservar o conceito de pied-à-terre mesmo à letra.


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Infelizmente, não consegui encontrar nenhuma imagem dos interiores da época (quem encontrar avise, gostava muito de ver), mas aposto que nos anos 30 estes cosy flats tinham um charme diferente.  As modernizações que fizeram nos anos 80 (foi nessa altura que passou a chamar-se Florin Court) também não devem ter ajudado a manter o espírito dos interiores originais. Deixa-me com pena. Um edifício destes merecia apartamentos fantásticos e, sobretudo, remodelações que respeitassem e honrassem a sua história. Como diria Poirot, I am not amused.

Imagens e info em 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16.


05/08/2014

O negócio dos bancos

O próximo post ia ser sobre isto. Mas faz-se um pequeno intervalo nos trabalhos para falar sobre o assunto da moda: bancos. Parece que agora toda a gente tem uma coisa a dizer sobre bancos, e por isso o Pufe resolveu dar o seu modesto contributo para a questão. Com algumas diferenças, bem ligeiras: os bancos de que se gosta aqui no Pufe são sólidos, credíveis e estão para ficar. E, ao contrário de muitos outros bancos, onde quem neles (a)bancou hoje não tem onde se sentar, estes não deixam ninguém ficar mal - sentado. 
Quem quiser investir em bancos, já sabe. É nestes.


Butterfly stool, Sori Yanagi, 1954 (produzido pela Vitra)


Avvitamenti stool, Carlo Contin, 2013 (ainda em projecto, visto aqui)


Harry stool, Chris Martin, 2009 (produzido pela Massproductions)


Camping stool, Jesper K, Thomsen, 2009 (produzido pela Normann)


Stool 60, Alvar Aalto, 1933 (produzido pela Artek)




Capelli stool, Carol Catalano, 2009 (produzido pela Hermann Miller)


Nelson bench, George Nelson, 1946 (produzido pela Vitra)


July stool, Nao Tamura, 2012 (produzido pela Nikari)


J64 stool, Ejvind A. Johansson, 1950 (produzido pela Fredericia)


Cobbler stool, Uffe Berg, data desconhecida (produzido pela Skagerak)


01/08/2014

Mistério

No próximo post fala-se sobre isto. Alguém adivinha?


[os créditos da fotografia serão indicados posteriormente]

16/07/2014

Casa no Tempo

Vi esta casa há algum tempo, aqui. Agora que estamos em tempo de férias, achei que era adequado mostrá-la no Pufe. E, repetindo a mesma palavra na terceira frase seguida, agora em maiúsculas, deixo o seu nome: Casa no Tempo.

A Casa no Tempo é uma herança de família recuperada e transformada em casa de férias. A reabilitação teve o toque de Manuel Aires Mateus, arquitecto de quem tenho vindo a gostar cada vez mais. Pode ser arrendada aqui, e parece ser o sítio ideal para passar uns dias com uma ou duas famílias amigas (com esta deixa espero bem receber alguns convites).

As fotografias fantásticas ajudam, claro, mas nunca pensei vir a elogiar um chão cor de terracota, ou uma casa com um arco, elemento arquitectónico que geralmente me causa alguma alergia visual. Este arco dá à casa uma personalidade diferente, e por isso gosto tanto dele. Visto de fora, afunda-se na casa formando um alpendre inesperado, que descontinua todas aquelas rectas. Visto de dentro, é um túnel de luz em forma de vignette, emoldurando a paisagem.

Não vale a pena gastar palavras com as banalidades do costume, como a-construção-mostra-uma-simbiose-perfeira-entre-o-tradicional-e-o-moderno, ou a-reabilitação-revela-uma-interpretação-intemporal-do-típico-monte-alentejano. A casa não merece isso. Merece, sim, que se fale sobre a sua simplicidade monástica, a sua nudez, a diversidade das suas texturas (alvenaria, mármore, azulejo, barro, madeira, telha), a piscina invulgar sem ser foleira (ainda bem que as piscinas não são todas caixotes forrados a ladrilhos aos quadradinhos azuis), a planície que a envolve. E, em especial, sobre aquela imensidão interrompida apenas por oliveiras e sobreiros, que de certeza não se importam de ouvir o Pollini a tocar o Imperador com o volume no máximo. Só isso quase que justificava os ligeiramente estapafúrdios 600 euros por dia que pedem pelo arrendamento. 


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Casa no Tempo, Montemor-o-Novo. Fotografias nos sites acima referidos.