Se há coisa que me irrita é falar-se de Frank Lloyd Wright como o arquitecto da Fallingwater, como se o homem não tivesse feito mais nada de importante. É claro que a Fallingwater é gira e tal. E mais gira que a própria casa é a circunstância de ser também chamada de Kaufmann Residence, e de ter sido encomendada pelo mesmo Kaufmann (Edgar J. Kaufmann Sr.) que dez anos depois veio a escolher Richard Neutra para lhe construir uma casa na Califórnia (a famosa Kaufmann House). Há quem coleccione selos, mas este Kaufmann, sortudo, coleccionava ícones arquitectónicos. Não está mal. Ainda assim, a Fallingwater é hoje uma espécie de Torre Eiffel da Pensilvânia. Já toda a gente conhece. Que tal falar de outras coisas?
Por exemplo, da Sturges House (1 a 14). Frank Lloyd Wright fez o projecto em 1939 e a casa foi construída no mesmo ano, para George D. Sturges, em Brentwood, Los Angeles, Califórnia. É uma casa relativamente pequena (tem cerca de 110 m2), mas tem um terraço que envolve grande parte das divisões. A construção foi supervisionada por John Lautner, ainda enquanto assistente de Frank Lloyd Wright. Não é uma obra muito estudada, mas chamou a atenção de alguns fotógrafos conhecidos: a fotografia abaixo (1) foi tirada em 1947 por um fotógrafo que acompanhou parte da vida do arquitecto, e que se tornou numa espécie de fotógrafo oficial, Pedro E. Guerrero; a última de todas (14) foi tirada por Balthazar Korab.
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O interior, representado na planta e na imagem abaixo (2 e 3), é assim meh. Muito laranjinha para o meu gosto. Nem vale a pena falar dele aqui.
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Como se vê bem pelas fotografias, a Sturges House é composta sobretudo por corpos balançados (4 a 7). Não é coisa que aprecie muito (como já disse aqui no Pufe), mas, se havia quem os fizesse bem, era Frank Lloyd Wright. Apesar de algumas das suas construções parecerem autênticos jogos de Jenga, visualmente ficavam sempre bem equilibradas. Além disso, os corpos balançados, nesta, são também a chave da privacidade da casa. A construção foi executada numa zona que veio a ganhar alguma densidade urbanística (9 a 11), mas a casa manteve-se bastante resguardada. Do lado da estrada, praticamente não tem janelas (8), do lado contrário, apesar de ter vários vãos rasgados de cima a baixo, tem um terraço imenso (11 e 12), sobre-elevado por causa do balanço, que protege as divisões dos olhos da vizinhança. Aliás, esse terraço e essas janelas fazem lembrar muito o estilo Prairie, adoptado por Frank Lloyd Wright no início do séc. XX.
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A Sturges House foi qualificada pelo próprio Wright como uma casa usoniana (trad. de usonian). Wright utilizava o termo usoniano para descrever o carácter típico da paisagem americana, única, distinta e livre de convenções arquitectónicas estrangeiras, e empregava a palavra com um sentido verdadeiramente nacionalista, como se integrasse um movimento de procura da identidade dos Estados Unidos. Aliás, o termo usoniano foi referido pela primeira vez, julga-se, por James Duff Law, um escritor americano do séc. XIX. Para Law, os cidadãos dos Estados Unidos da América não tinham o direito de usar o termo "americanos" quando se referiam exclusivamente a eles próprios, em respeito pelos canadianos e pelos mexicanos. Por isso, propôs identificarem-se como usonianos (de Usonia, palavra que até veio a ser adoptada para, em Esperanto, designar os Estados Unidos da América).
Frank Lloyd Wright desenhou cerca de 60 casas que veio a rotular como usonianas, começando com a Jacobs House, em 1936/37, e passando pela Sturges House. São casas pequenas, construídas com materiais locais, das quais ressalta, na maioria delas, a cor. Sobretudo a cor do tijolo e da madeira avermelhada. São castanhos brilhantes, sanguíneos e vivos, que concorrem com os verdes das árvores da envolvente (muitas das casas integravam-se em áreas de florestação abundante, de cores exuberantes), e que inevitavelmente fazem lembrar as cores dos povos nativos americanos.
Quanto ao estilo em si, há muita misturada. A construção é muito orgânica pelos materiais que usa, fazendo lembrar a tradição japonesa nos elementos horizontais e na abordagem contemplativa. Mas, curiosamente, e ao mesmo tempo, a extensão dessas linhas não deixa de ser também um reflexo do streamline moderne, pelo movimento que confere à construção, partilhando algumas características de uma postura estética tão oposta, tão industrial e tecnológica. E é verdade: quando olho para a Sturges House, vejo invariavelmente um grande navio de barro (13).
Mas o que mais me impressiona - na Sturges House e em muitas outras casas usonianas - é a importância da horizontalidade. Mesmo quando os edifícios são suportados por elementos verticais que ditam a forma como a casa se desenvolve - como acontece nas casas do género da Sturges House, composta quase exclusivamente por corpos balançados -, são as linhas horizontais que definem a construção. Os telhados são o mais plano possível, e todos os alçados são marcados por linhas horizontais (sobretudo os de madeira), como se ainda tivessem os vestígios dos rabiscos do arquitecto.
O resultado é extraordinário, e é especialmente extraordinário na Sturges House: apesar do peso dos materiais - cimento, tijolo, madeira -, e apesar da monumentalidade dos volumes que se criam por causa deles, a casa aparenta ter uma leveza impressionante. O segredo está, parece-me, nas ditas linhas horizontais repetidas. Diria eu, numa comparação culinária, que é o efeito mil-folhas: a sobreposição de várias camadas finíssimas de matéria, como se fossem meras linhas, desvia os olhos da densidade dos elementos e dispersa-a horizontalmente. Não há como negar: afinal, também na arquitectura se encontram distintos e mui ilustres maîtres pâtissiers.














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